O sofrimento de Santa Maria

Natureza

Existe um livro em que um psiquiatra relata as passagens de sua entrevista feita com o Dalai Lama durante um tempo em que ficou na Índia, por volta de 1980. Em uma das partes, quando interrogado sobre o sofrimento, o mestre responde ao entrevistador:

– Não há como evitar o fato de que o sofrimento faz parte da vida. No dia do nosso aniversário, as pessoas costumam dizer “Feliz Aniversário”, quando na realidade o dia do nosso nascimento foi o dia do nascimento do sofrimento. Só que ninguém diz “Feliz dia-do-nascimento-do-sofrimento!”.

Dalai Lama parte do princípio de que começamos a sofrer a partir do momento em que nascemos. Começamos sonhos, perdemos os mesmos, choramos, queremos, padecemos por antecipação. Criamos amor, buscamos conquistas, construímos famílias e as vemos se dissolver. Sofremos com a morte. Estamos morrendo.

E as pessoas pedem que Deus as ajudem, que os amigos sejam reconfortados, que o céu as receba em paz. E morremos com elas. Porque depois da morte, só existe ela mesma. Não há conforto ou quem nos aconselhe. Apenas Dalai Lama dizendo que a vida é sofrimento, e que todos os dias permanecemos com ele. Eu não tinha amigos nessa tragédia, não conheço nenhum desses jovens que faleceram. Mas compartilho dos seus sonhos. Sei que eles queriam acordar amanhã de manhã e tomar um café quente. E aprender uma coisa nova. E abraçar seus pais. Sei também que eles faziam muitos planos. E queriam viajar. E sentir o coração novamente se apaixonar. Eles são eu e vocês. Que queremos continuar conhecendo, e participando, e dando risadas.

O sofrimento não nos deixa mais fortes, já disse meu pai. Ele nos torna mais frágeis. Mas talvez mais sensíveis. E a sensibilidade nesse sentido deve colaborar para uma vida, enquanto houver, com mais profundidade. São Paulo está tão nublada hoje. Com uma garoa numerosa. Triste. Eu me sinto triste. E no ápice da sensibilidade. Porque a morte sempre vem me dizer que ainda vivemos. E que hoje deve ser o mais absoluto dia de sentir. De aguçar o amor e a consciência de que tudo não passa de uma passagem. Que nada é tão sério. Nada é tão concreto quanto parece. De que cada um tem uma história, e uma justificativa também. A gente passa tanto tempo se comparando, se avaliando, preocupado em mostrar os números de rendimento quando isso é pouco significativo dentro de um mundo em que tudo é natureza e foge do controle.

Sofremos. O sofrimento faz parte da vida. E Dalai Lama afirma que com isso, acredito eu, não precisamos imaginar que a felicidade irá chegar quando acabarmos de sofrer porque isso nunca vai acontecer. E nem mesmo ficarmos ansiosos procurando uma felicidade lá do futuro, de um momento que ainda não aconteceu porque isso é o que nós temos. A tarde de hoje. E o amor que levamos por cada dia de nossas vidas que presenciamos acontecer.

* O livro citado se chama “A arte da felicidade”.
obs: A foto somos nós. Natureza.

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2 comentários sobre “O sofrimento de Santa Maria

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