a vida que vai.

nova york

Hoje li uma notícia em que dizia que um piloto de avião, que há um mês acabara de pedir a namorada em casamento, morreu com a queda do veículo durante um voo a trabalho. O pedido à namorada foi gravado. Ele planejou um passeio com ela dentro desse mesmo avião, e então fez a surpresa  – postada no youtube por ele dois dias atrás.

A cada dia que passa eu me convenço ainda mais de que isso é tudo o que nós temos. E não me julgue pessimista, por favor. Falar da imperfeição se tornou pecado – como me disse um amigo esses dias. E eu prefiro falar do desconforto do que pensar que depois desta vida haverá outras e mais outras…e que todos nos encontraremos em um caminho espiritual que nos fará entender tudo o que vivemos aqui.

Eu me contenho. Eu me calo em discussões religiosas. Mas sinto profundamente pelo ser humano ser tão egoísta a ponto de achar que não “é só” isto aqui. Não é bastante mesmo? Esse jeito das flores nascerem, do sol brilhar pelas calçadas, da nossa força nas mãos, pés e braços. Do gosto do vinho, da chuva que traz cheiro para água, da emoção de uma lágrima, de um encontro, de um amor. Dos sorrisos que envolvem uma dança, da alegria de ver um cachorro correndo na areia e dos olhos de um gato se abrindo. Do poder dos ouvidos de trazer pessoas ao escutarmos música. Da leveza da pele de sentir qualquer percepção quente ou gelada que se aproxima, do envelhecimento do corpo, do amadurecimento da cabeça e sensações. Da extraordinária manifestação de vida a cada acordar. Do sabor de um café. De um beijo. De uma sopa em um dia de gripe. De uma viagem a um lugar desconhecido. Como não pode ser o bastante? Me diz como isso tudo é pouco. E pode ainda nos fazer tão cegos a ponto de acharmos que cada morte tem um hora, cada passo tem um destino e que, disso aqui, haverá um livro no final explicando a razão de cada sofrimento.

É tão difícil dizer para alguém que a vida acaba. É tão custoso explicar porque eu sofro com cada morte que não é minha. E para mim é tão certo, triste e natural saber que a vida se vai a cada dia.
Não é falta de fé. Só não consigo viver fingindo. E só pretendo, neste texto, dizer que podemos conviver com essa percepção. Que podemos ser melhores a cada dia que se vai. Menos perfeccionistas em uma vida que nos falta controle. Menos invencíveis. Menos importantes. Nós não somos nada.

Tão fracos quanto uma pedra – que pode quebrar com qualquer batida mais forte. Tão insubstituíveis quanto um grão de areia. A natureza continua. O céu fica. O calor permanece. É mais uma vida que se vai. Somos nós buscando explicações dentro um universo que, só por existir dessa forma, já é maravilhoso.

Outro dia em uma festa de amigos, um deles me perguntou porquê eu achava que aquele encontro não iria se repetir. Não vai. Por isso resolvi ficar um pouco mais. Por isso tomamos mais algumas cervejas. Por isso estendemos as canções.

É muito confortável passar os dias pensando que o que morre é porque Deus leva. Que os motivos não podem ser questionados. Que as horas das pessoas estão cronometradas sejam crianças, velhos ou jovens prestes a se casar.
A percepção doí. Hoje me sinto um pouco mais conformada, acho. Não fico tentando entender. Somos frágeis apenas. Protegidos por nós mesmos e por uma natureza que segue, independente de quem vai ou fica.

As nossas possibilidades valem para o dia de hoje. E é isso o que nos temos.

Obs: foto cheia de beleza, sem tratamento –  tirada na primeira viagem que fiz sozinha, em 2011.

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6 comentários sobre “a vida que vai.

  1. Oi, Clara. Sempre acompanho seu blog, mas esse me deu vontade de comentar.
    Concordo que não se discute religião, é algo muito pessoal. E também concordo que é fácil confiar em uma possível próxima vida para justificar alguns atos. Mas eu ainda acredito nessa possibilidade. Porque todas essas coisas lindas que você narrou não acontecem com todo mundo. Uma criancinha que morre com 2 anos (ou qualquer coisa parecida) viveu muito pouco – não aproveitou nada e obviamente não tem culpa disso. Eu, pessoalmente, não acredito que Deus ou qualquer outra força que nos rege possa nos dar apenas uma chance de viver e tirá-la tão rapidamente. Deve haver algo mais.
    Agora, acreditar nisso e não dar valor à vida são coisas diferentes, vai realmente de cada um. Por mais que eu acredite, também fico arrasada quando coisas assim acontecem. Acho que isso que nos faz humanos.
    Enfim, só quis deixar minha opinião. Obrigada por postar mais um texto que me faz refletir.
    Bjs!

    • Gostei muito do seu comentário, Carolina. É importante que cada uma tenha sua crença, sua fé e seus valores. Obrigada por comentar o texto, fico feliz que ele tenha te feito refletir sobre o assunto. Beijos :)

  2. As vezes meu coração dispara de medo, pensando quanto me resta, estremeço e começo a chorar , com saudades de coisas que não poderia chegar a ver , egoísmo, será? Ou será a dor de deixar quem amamos, espero que quando tivermos que ir, tenhamos deixado pelo menos lembranças boas aos que ficarem….bjs amor….

  3. Clara, você é indubitavelmente a melhor cronista que eu conheço. Neste texto, vejo quão madura e forte e completa você está! Concordo com tudo que você escreveu. E funciona assim: parte da felicidade é genética. O resto está em ter essa percepção de que a vida é mais fácil e tem menos importância do que lhe damos (e ainda assim ou por isso mesmo é tão sensacional!). Beijocas

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