Das coisas que eu gosto

clara vanali

Das coisas que eu mais gosto de fazer na vida, uma delas é ir tomar café no fim da tarde ali no cinema Reserva Cultural, da avenida Paulista, aos domingos. E isso quando está frio. Aquele frio de outono e inverno que pede um cachecol, um sapato quentinho e uma companhia essencial.
Para mim aquele é um dos melhores lugares de São Paulo porque tem cinema e café no mesmo local. E porque há pessoas que não conseguem imaginar encerrar o domingo em outro lugar que não seja ali. O pensamento se esvazia. É apenas uma tarde fria com um pouco de garoa que espera a sua presença na próxima sessão de um filme choroso e ensolarado. Gosto do espaço pequeno que reúne velhos e casais em uma atmosfera genuína que faz a gente se esquecer de que logo a segunda-feira vem.

Trouxe sementes da Itália, há quase dois anos já. E uma das coisas de que mais gostava em Roma era dos cachos imensos que caiam sobre as janelas revelando flores roxas, rosas e brancas. No começo deste ano resolvi plantá-las em um vasinho aqui da varanda, e elas demoraram exatos 3 meses para florescerem. A primeira apareceu bonita de miolo branco no dia do meu aniversário. Eu festejei, tirei foto e publiquei. Mas no final da tarde, ela murchou, fechou e não apareceu mais. Achei que o problema pudesse ser apenas com essa, ou que por conta da grande ventania do dia não tivesse aguentado. Mas nos dias seguintes novas nasceram e novamente morreram ao final do dia – e isso tem se repetido até hoje. Na janela do meu quarto ao amanhecer, de três a quatro flores crescem bonitas para se despedirem em menos de 24 horas. Sim, elas morrem rápido. Tão rápido que durante o tempo em que estão vivas se dedicam apenas a serem o melhor que puderem. Gentis. Bonitas.

Às vezes me pego no meio do trabalho pensando em como isso tudo tem sido especial. Essa oportunidade de conhecer pessoas novas todos os dias, de provar sabores inéditos, de ver a chuva da janela, de pentear o cabelo molhado, de chorar de rir e de saber que às vezes é só chorar. De um beijo novo, quente e doce. De um almoço de mãe, de amigos que não mudam com o tempo. De se emocionar com o pouco. De saber ficar sozinha quando cabe. De abrir um garrafa de vinho quando preciso.

Das coisas que eu gosto:  de gente que sabe que um dia a morte chega e que por isso a vida tem que ser repleta todos os dias.
Uma coisa que é eu gosto é de gente grata.
Grata pelo pequeno detalhe de suspirar e vivenciar tanta coisa boa – que a gente nem percebe. É tudo tão bobo que passa. Tão simples que desaparece. Tão bonito que confunde. Que a gente tenha coerência para perceber que isso tudo é suficiente.

obs: foto da flor da minha janela – aquela que vive rápido e bem. 

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12 comentários sobre “Das coisas que eu gosto

  1. Que gostoso, Clara. Seu texto me fez refletir sobre o meu dia. Como na maioria dos domingos, caminho à tarde pela avenida Paulista. Hoje senti uma certa solidão, uma pontinha de tristeza por não dividir minhas sensações, ao caminhar ali, com alguém. É, simplesmente, uma das coisas que gosto. Estando só ou não. Beijo.

  2. “Uma coisa que é eu gosto é de gente grata. (Eu também.)
    Grata pelo pequeno detalhe de suspirar e vivenciar tanta coisa boa – que a gente nem percebe. (Pois, é.) É tudo tão bobo que passa. Tão simples que desaparece. Tão bonito que confunde. (Verdade!) Que a gente tenha coerência para perceber isso tudo é suficiente. (Enfim.)”

  3. As flores fazem parte da minha vida sempre, desde muito pequena seu bisavô deixava que eu replantasse mudinhas de alface na sua horta, adorava ficar molhando e ajudando tirar as pragas que não davam sossego a ele….lembranças felizes.. qdo me for ficarei feliz se minhas cinzas ajudarem a adubar flores que encantem as pessoas ao contempla-las….terei finalizado me ciclo….bjs amore….

  4. Adorei a sua crônica……..gosto bastante de poesias, crônicas e pessoas inteligentes como vc que só acrescentam à nossa vida, com valores tão grandiosos….que Deus abençoe a sua vida, seu caminho e sua carreira…..bjs beth

  5. eu percebo que estou começando a ficar sufocada pela vida quando deixo de reparar em pequenas coisas que alegram meu dia: folhas caídas em calçadas desenhadas, nuvens branquinhas e fofas que tomam formatos diferentes pelo céu, o gosto pelo doce na parte da tarde, chá quentinho em dias frios, risada dos amigos e uma piscadela da filhota.

    Mas é muito difícil realmente perceber essa simplicidade na correria do dia a dia. E por isso suas narrativas são sempre tão delicadas e me emocionam tanto,

    um grande beijo

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