são paulo

antes de são paulo eu não tomava cachacinha.
eu não gostava tanto de vinho.
e não bebia cerveja.

não é tão difícil assim gostar de são paulo. cheguei aqui chorando. e hoje choro de tanta coisa boa que ela me trouxe. de tanta gente que conheci. de tantas garrafas de vinho que já dividi.
ontem um amigo me disse que quem vem de fora ganha mais em são paulo do que quem já está dentro. ganhar – no sentido de absorver mais emoções, de sentir a cidade mais profundamente.

se assim for, i am lucky.
porque tô sempre indo e voltando pra são paulo. mesmo quando estou por aqui.

outro dia, eu disse a uma amiga que são paulo é o sofrimento que faz bem. é a chuva quem vem quando você tá de chinelo na rua. o barulho que insiste quando você quer sossegar. a saudade que arde mais que cachaça velha.
são paulo contrai os vasos. um labirinto de gente que se conhece e desconhece. um poço infinito de maravilhas e dores. um sossego que só vem com escritas noturnas.

são paulo me abraçou. me pegou com 17 e deixou com 27. me mostrou o café do cinema ali da reserva cultural. a coxinha do veloso. o pastel de palmito da mercearia são pedro. as tardes de hambúrguer no z deli. o cinema do conjunto nacional. o rocambole da casa das rosas. o sorvete da dri dri. as andanças por pinheiros. os violões na casa do franca. os bons dias com minha irmã. os vídeos. o café da livraria cultura. os amores tortos. as gargalhadas profundas. os acasos na avenida paulista. os pés pra cima no meu sofá.
é melhor estar em são paulo com 27 do que 17. é uma bagunça mais arrumada. é a casa em ordem. os pensamentos mais livres. virei adolescente. estou benjamin button. quando mais envelheço, menos preocupada me sinto com as coisas. menos ansiedade. bem menos. vou voltando a ser criança. que às vezes, bebe cerveja.

e já pensei tanto na vida em são paulo, que estou quase com 47.
aqui tem dessas. a gente que é de fora. que é caipira. fica mais à flor da pele com as coisas. com os piscas na rua. com tanta cidade grande a cada dia que passa. com tanto dia que acontece. a gente fica meio bobo, ainda deslumbrado depois de 10 anos – com esse monte de sonhos que ela ajudou a realizar.

são paulo leva. a idade. as pessoas. o tempo.
mas deixa, ô.
deixa tudo aqui. eu vou me lembrar sempre.

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2 comentários sobre “são paulo

  1. Que lindo seu texto. Sou paulistana, nasci aqui. Vivo numa relação de amor e ódio com a cidade. Ás vezes mais ódio do que amor (amor, geralmente só aos fins de semana), mas Sâo Paulo é igual a nossa mãe, só nós podemos falar mal, e ver você que adotou a cidade falar bem e conseguir enxergar a beleza que ela esconde, dá um certo orgulho de ser parte dessa selva enlouquecida de cimento e gente, que tem seus encantos no fim das contas.

  2. Pingback: a primeira vez dos 28. | Crônicas de clara

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