toda vez que alguém que eu gosto morre

eu tenho vontade de chamar essa pessoa que morreu pra comentar a morte dela comigo. – olha aí, bicho. você vai fazer uma falta do cacete.
você estava no auge, batalhou pra caramba, levantou cedo, fez café mil vezes, conheceu um milhão de pessoas ao longo dos dias, se apaixonou, aprendeu a cozinhar, tocou guitarra, escreveu livro, saiu de madrugada andando pelas ruas, ouviu o tilintar da garoa, bebeu vinho pra comemorar, bebeu vinho pra esquecer.

ligou para os amigos, se distraiu nas redes sociais, combinou e foi, combinou e desmarcou. se esticou no sofá pra pegar um pouco do sol. viajou. e como viajou. foi pra todos os cantos. perdeu o medo de avião. teve medo de morrer. já pensou que viveria pra sempre. quem nunca pensou.

– que merda. que merda. que merda. você poderia viver até os 90. seria mais justo. morrer velhinho. dormindo.
e você tava vivo, cara. eu te vi. vivo. dois dias atrás. que merda.
essa vida que pede um monte de coisa da gente, estudos, casa, família, carreira, correria, contas pra pagar, horários pra cumprir, ânimo pra levantar, esperança pra vencer….e do nada, pá. leva. leva feito areia. feito grão de nada. cisco de poeira. nosso corpo e nossa alma. leva feito terra. que pena.

queria uma última breja pra gente discutir essa sua morte repentina. mas, que raios!
a gente nem se despediu. teus pais não puderam te abraçar. a gente não pôde cantar uma última brega juntos. como eu poderia saber que a última vez que te visse seria uma última vez eterna.
e não é saudade que eu tenho ainda. é indignação. tô furiosa. custava alguém ter avisado antes, pô.

não vou ficar falando que o céu está em festa porque o céu também não deve estar contente com esse tanto de gente morrendo.  a verdade é que a gente morre um pouco a cada morte dessas. engole seco e guarda num cantinho sombrio das emoções. leva a vida e vai levando, mas arrastando essa tristeza que fica adormecida até a próxima morte chegar e a gente se chacoalhar de novo, rodeados por um barulho silencioso que machuca.

como é que pôde acontecer isso tudo.
foi cedo demais. que injustiça contigo e com a gente que tava aqui vibrando com seus dias bem vividos.

respirei um pouco aqui. tô como todo mundo. fingindo que tô melhor.
vou me lembrar de ti com alegria, amigo, pode deixar. vou fazer isso com certeza. vou honrar tudo que você produziu, conquistou e espalhou.
mas agora tô triste. triste pra caramba.
e a tristeza, querido…. a tristeza não dá pra adiar.

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