emoção acumulada

hoje estava falando com a minha irmã sobre notícias tristes do dia a dia que guardamos em cantos escuros dentro do cérebro sem se dar conta do que aquilo faz. são pequenos estresses, medos e indignações que – para superarmos – a gente absorve e veste o chapéu do “tá tudo bem”.

um caso de covid de um amigo, a falta de insumos para entubação no país, a tragédia de uma criança morta pelos pais, pessoas próximas sem trabalho – até frustrações pessoais como saudades, decepções sentimentais e insatisfações.

a gente vai engolindo tudo como se pudesse digerir de uma vez. e a verdade é que não digere. só amorna uma melancolia que às vezes se traduz numa noite de insônia, numa dor profunda ou numa depressão.

eu me lembro de quando era adolescente e às vezes, do nada, minha mãe me via chorando e perguntava o que tava acontecendo: eu dizia que era emoção acumulada. foi um nome que eu dei para os dias em que colocava para fora todos sentimentos adolescentes. e era bom desacumular.
de certa forma a gente chora menos quando cresce. vai só guardando mesmo. e tentando amadurecer e transformar essas coisas em “aprendizado, crescimento espiritual e lição de vida”.

mas olha. penso que o sofrimento pode ser só sofrimento mesmo. de boa. não precisa transformar isso em nada. nem tudo vai ter um desfecho linkedin. não acho que a gente aprende com tudo. às vezes é apenas dor mesmo. e aquilo vai marcar sua trajetória por ter sido um período difícil que desabrochou, não aguentou ficar sendo amansado por tanto tempo dentro do seu emocional.

dito isso, a única coisa que percebi é que nesses tempos de pandemia, em específico – em que alertas ruins chegam de todos os lados – viver com menos expectativa tem salvado. fazer uma comida reconfortante, ligar para família para trocar dicas de filmes, enviar chocolates de pequenos empreendedores para amigos, alongar o café de manhã, ouvir músicas que sossegam o peito, ler livros que a gente tem vontade grifar várias páginas, rever fotos que nos levam para momentos bons, escrever, curtir um edredom quentinho que acabou de sair da secadora, molhar as plantas, separar roupas para doação, investir em trabalho de ilustradores e artistas que vão deixar a sua casa com mais cor.

não é só o essencial nos faz feliz. não é porque estamos neste momento que as únicas coisas que importam são máscaras e álcool em gel. além desses cuidados imprescindíveis, encontrar formas de ver a beleza no caos ajuda a passarmos por isso. dê um tempo para você consumir estímulos do bem. nenhum corpo aguenta estresse o dia todo.

e ah, menos deslumbramento em redes sociais. lá dentro não há dias ruins e aquilo não é de verdade. mais uma vez eu digo, nem tudo é aprendizado e força. às vezes é uma fase ruim mesmo e o único problema disso é que ninguém quer assumir uma queda sem dizer que esta lhe trouxe uma percepção maior de mundo.

outra coisa que eu aprendi é que pedir ajuda também nos resgata do escuro. por isso, se você sentir que, de forma alguma consegue se sentir bem, procure um profissional, um amigo, um psiquiatra, um terapeuta.
a cabeça adoece como qualquer órgão e remédios e tratamentos são fundamentais para ajudar na cura e salvar a sua vida.

pra finalizar, eu desejo clareza pra vocês. e pra mim.
que a gente possa ver, sem sombras, as situações como elas são e perceba que prestar atenção em nós e nas pessoas que precisam da gente, nos ajuda a enfrentar com mais precisão os momentos bons e ruins.
o cuidar de si vai além do lavar as mãos.
desacumule-se.

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