são paulo

antes de são paulo eu não tomava cachacinha.
eu não gostava tanto de vinho.
e não bebia cerveja.

não é tão difícil assim gostar de são paulo. cheguei aqui chorando. e hoje choro de tanta coisa boa que ela me trouxe. de tanta gente que conheci. de tantas garrafas de vinho que já dividi.
ontem um amigo me disse que quem vem de fora ganha mais em são paulo do que quem já está dentro. ganhar – no sentido de absorver mais emoções, de sentir a cidade mais profundamente.

se assim for, i am lucky.
porque tô sempre indo e voltando pra são paulo. mesmo quando estou por aqui.

outro dia, eu disse a uma amiga que são paulo é o sofrimento que faz bem. é a chuva quem vem quando você tá de chinelo na rua. o barulho que insiste quando você quer sossegar. a saudade que arde mais que cachaça velha.
são paulo contrai os vasos. um labirinto de gente que se conhece e desconhece. um poço infinito de maravilhas e dores. um sossego que só vem com escritas noturnas.

são paulo me abraçou. me pegou com 17 e deixou com 27. me mostrou o café do cinema ali da reserva cultural. a coxinha do veloso. o pastel de palmito da mercearia são pedro. as tardes de hambúrguer no z deli. o cinema do conjunto nacional. o rocambole da casa das rosas. o sorvete da dri dri. as andanças por pinheiros. os violões na casa do franca. os bons dias com minha irmã. os vídeos. o café da livraria cultura. os amores tortos. as gargalhadas profundas. os acasos na avenida paulista. os pés pra cima no meu sofá.
é melhor estar em são paulo com 27 do que 17. é uma bagunça mais arrumada. é a casa em ordem. os pensamentos mais livres. virei adolescente. estou benjamin button. quando mais envelheço, menos preocupada me sinto com as coisas. menos ansiedade. bem menos. vou voltando a ser criança. que às vezes, bebe cerveja.

e já pensei tanto na vida em são paulo, que estou quase com 47.
aqui tem dessas. a gente que é de fora. que é caipira. fica mais à flor da pele com as coisas. com os piscas na rua. com tanta cidade grande a cada dia que passa. com tanto dia que acontece. a gente fica meio bobo, ainda deslumbrado depois de 10 anos – com esse monte de sonhos que ela ajudou a realizar.

são paulo leva. a idade. as pessoas. o tempo.
mas deixa, ô.
deixa tudo aqui. eu vou me lembrar sempre.

angústia ortográfica

Eu me transformei naquela pessoa adulta que quando me via, dizia – como ela cresceu. como o tempo passa.
Eu tô achando tudo grande. Tudo breve.
Com o Natal já aqui, eu só desejo – fique. espere um pouquinho. eu ainda tô correndo. eu ainda tô fazendo as coisas. fica.
que eu quero curtir direitinho. quero sentar na praça e ficar olhando as luzes. e esse tanto de decoração que deixa os dias mais bonitos.

Sofro de ansiedade crônica. De inconformismo saudosista. De saudade absurda.
Natal me deixa feliz. E triste. Quero estar em mais lugares. Quero pular os dias e ao mesmo tempo deixá-los aqui. Viver mais a noite como se não precisasse dormir.
Quero voltar a ser criança para abraçar minha vó em Catanduva – e pedir para que ela não morra. Quero um teletransporte para ajudar minha irmã a enfeitar a árvore em Araçatuba. E um avião para Londres, para saber como é o Natal de lá.

Sinto angústia ortográfica. É uma angústia que só diminui quando escrevo. E que acabei de inventar.
Sinto muito pelo tempo passar. Pelas pessoas passarem. Por eu quase não vê-lo.
Sinto por eu andar tão rápido por aqui.

Preciso abrir mais vinhos, juntar mais gente. Ficar ao redor de barulhos bons. Não terei outra vida, nem outra reencarnação, então eu vou atrás de mais.
Quero fazer dos dias mais longos. Olhar no relógio e ainda ser 9h da manhã. Deitar sem lembrar que o tempo vai passar – e que um dia vou me olhar e dizer – mas como você cresceu. como o tempo passou.

Já são 23h e amanhã será 6h. Vou dormir porque devo e não porque quero.
Por mim, escreveria mais um pouco. Angústia ortográfica não some. Ela só dorme um pouquinho.

e depois acorda.

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o que não me contaram.

Das coisas amargas.
Ninguém nos avisou que após os 17 anos não voltaríamos mais para casa.
E que entre fazer uma coisa e outra, estaríamos em frente ao computador.

Que mais cabelos brancos vão aparecendo com o tempo.
E que muitos cafés são marcados apenas na imaginação.

Que após os 26 anos o amor da sua vida já encontrou o amor da vida dele.
E que quanto mais idade adquirirmos, mais impostos teremos que pagar.

Que a saudade da minha avó não iria passar.

Das coisas doces.
Ninguém nunca nos contou que vinho tinto gelado é mais gostoso.
E que substituir o óregano por manjericão no tunapasta, deixa a massa mais saborosa.

Que viajar nos reconecta com o nosso lugar de origem.
E que viajar com pessoas amadas nos torna humanos melhores.

Que amigos nos fazem esquecer da dureza das rotinas.
E que o trabalho tem que ser parte de um círculo de boas energias que nos trazem o bem.

Que relacionamento não é para todos, mas o amor sim.
E que nada é tão importante quanto parece.

Que quem lembra da morte, vive melhor.
Quem vive melhor, não se importa tanto em morrer.

(e para vocês? o que não contaram?)

Vai devagar que o ano acabou.


Eu não tenho fôlego para festas que começam à meia-noite. Mas me esforço. Coloco uma roupa de festa e me convenço que, pela fluidez da vida, pode ser interessante se abrir para alegrias que só acontecem de madrugada.
Pegamos o táxi à 1h da manhã e emendamos conversas de amigas que não se vêem há 3 meses – e o escritório? e o joão? e o mestrado?

Na Estados Unidos, quase com a Rebouças, já há uma casa coberta por pisca-piscas. Me perdi no raciocínio da conversa do carro pensando – por que é que essa casa tem se adiantado tanto na decoração? Entre colombas pascais e panetones vivemos quantos meses? Vai devagar seu taxista, o ano acabou.

Os amigos já fecharam a viagem de Reveillon, o Fantástico está fazendo concurso de marchinhas e entre rápidos romances, cafés pretos, dores de estômago, troca de cor de cabelo e eleições, já teve até copa.
Foi de tudo tanto que eu não consigo me lembrar. E não quero aqui fazer retrospectiva antecipada, já basta aquela casinha precipitada do Jardins, mas é que acho muito estranho essa sensação voadora de vida. E eu fico com medo de ter perdido alguma coisa,  de ter me envolvido nos dias e me dado conta de repente de que é Natal. Não se pode ter tudo – diria minha irmã. É assim com todo mundo. O tempo passa e as coisas em todos os lugares do mundo vão acontecendo. Se eu envelheço, envelhece todo mundo comigo.

Semana passada passei uns dias no interior e em uma das tardes fiquei observando minha mãe molhando as plantas enquanto o gato se esparramava na terra e comia trevos que nascem desordenadamente pelo chão. Fique ali à toa com a única preocupação de manter meus pés úmidos na poça d’água que refrescava o quintal. E mesmo assim, sem um computador na frente, os dias no interior também passam rápido demais. Moro longe há 10 anos e ainda tenho saudades de dias como esse, mas como é que pode. E eu que achava que depois de 5 anos a saudade zerava.  A verdade é que quanto mais perto dos 30 eu chego, mas amolecida se faz a saudade dentro de mim. E estava um vento bom, diferente, os coqueiros faziam aqueles barulhinhos de folhas que não se ouve por aqui. Minha mãe me abraçou e eu pensei – eu não quero morrer.

Eu não quero perder.

Espera aí, seu moço. Calma.
Desacelera esse táxi que a gente ainda tem a noite toda.
E foi uma noite feliz. De cerveja, risadas, música e sentimentos genuínos.
Aproveitamos tanto que não vi passar.

Como o ano todo.

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Das coisas que eu gosto

clara vanali

Das coisas que eu mais gosto de fazer na vida, uma delas é ir tomar café no fim da tarde ali no cinema Reserva Cultural, da avenida Paulista, aos domingos. E isso quando está frio. Aquele frio de outono e inverno que pede um cachecol, um sapato quentinho e uma companhia essencial.
Para mim aquele é um dos melhores lugares de São Paulo porque tem cinema e café no mesmo local. E porque há pessoas que não conseguem imaginar encerrar o domingo em outro lugar que não seja ali. O pensamento se esvazia. É apenas uma tarde fria com um pouco de garoa que espera a sua presença na próxima sessão de um filme choroso e ensolarado. Gosto do espaço pequeno que reúne velhos e casais em uma atmosfera genuína que faz a gente se esquecer de que logo a segunda-feira vem.

Trouxe sementes da Itália, há quase dois anos já. E uma das coisas de que mais gostava em Roma era dos cachos imensos que caiam sobre as janelas revelando flores roxas, rosas e brancas. No começo deste ano resolvi plantá-las em um vasinho aqui da varanda, e elas demoraram exatos 3 meses para florescerem. A primeira apareceu bonita de miolo branco no dia do meu aniversário. Eu festejei, tirei foto e publiquei. Mas no final da tarde, ela murchou, fechou e não apareceu mais. Achei que o problema pudesse ser apenas com essa, ou que por conta da grande ventania do dia não tivesse aguentado. Mas nos dias seguintes novas nasceram e novamente morreram ao final do dia – e isso tem se repetido até hoje. Na janela do meu quarto ao amanhecer, de três a quatro flores crescem bonitas para se despedirem em menos de 24 horas. Sim, elas morrem rápido. Tão rápido que durante o tempo em que estão vivas se dedicam apenas a serem o melhor que puderem. Gentis. Bonitas.

Às vezes me pego no meio do trabalho pensando em como isso tudo tem sido especial. Essa oportunidade de conhecer pessoas novas todos os dias, de provar sabores inéditos, de ver a chuva da janela, de pentear o cabelo molhado, de chorar de rir e de saber que às vezes é só chorar. De um beijo novo, quente e doce. De um almoço de mãe, de amigos que não mudam com o tempo. De se emocionar com o pouco. De saber ficar sozinha quando cabe. De abrir um garrafa de vinho quando preciso.

Das coisas que eu gosto:  de gente que sabe que um dia a morte chega e que por isso a vida tem que ser repleta todos os dias.
Uma coisa que é eu gosto é de gente grata.
Grata pelo pequeno detalhe de suspirar e vivenciar tanta coisa boa – que a gente nem percebe. É tudo tão bobo que passa. Tão simples que desaparece. Tão bonito que confunde. Que a gente tenha coerência para perceber que isso tudo é suficiente.

obs: foto da flor da minha janela – aquela que vive rápido e bem. 

a vida que vai.

nova york

Hoje li uma notícia em que dizia que um piloto de avião, que há um mês acabara de pedir a namorada em casamento, morreu com a queda do veículo durante um voo a trabalho. O pedido à namorada foi gravado. Ele planejou um passeio com ela dentro desse mesmo avião, e então fez a surpresa  – postada no youtube por ele dois dias atrás.

A cada dia que passa eu me convenço ainda mais de que isso é tudo o que nós temos. E não me julgue pessimista, por favor. Falar da imperfeição se tornou pecado – como me disse um amigo esses dias. E eu prefiro falar do desconforto do que pensar que depois desta vida haverá outras e mais outras…e que todos nos encontraremos em um caminho espiritual que nos fará entender tudo o que vivemos aqui.

Eu me contenho. Eu me calo em discussões religiosas. Mas sinto profundamente pelo ser humano ser tão egoísta a ponto de achar que não “é só” isto aqui. Não é bastante mesmo? Esse jeito das flores nascerem, do sol brilhar pelas calçadas, da nossa força nas mãos, pés e braços. Do gosto do vinho, da chuva que traz cheiro para água, da emoção de uma lágrima, de um encontro, de um amor. Dos sorrisos que envolvem uma dança, da alegria de ver um cachorro correndo na areia e dos olhos de um gato se abrindo. Do poder dos ouvidos de trazer pessoas ao escutarmos música. Da leveza da pele de sentir qualquer percepção quente ou gelada que se aproxima, do envelhecimento do corpo, do amadurecimento da cabeça e sensações. Da extraordinária manifestação de vida a cada acordar. Do sabor de um café. De um beijo. De uma sopa em um dia de gripe. De uma viagem a um lugar desconhecido. Como não pode ser o bastante? Me diz como isso tudo é pouco. E pode ainda nos fazer tão cegos a ponto de acharmos que cada morte tem um hora, cada passo tem um destino e que, disso aqui, haverá um livro no final explicando a razão de cada sofrimento.

É tão difícil dizer para alguém que a vida acaba. É tão custoso explicar porque eu sofro com cada morte que não é minha. E para mim é tão certo, triste e natural saber que a vida se vai a cada dia.
Não é falta de fé. Só não consigo viver fingindo. E só pretendo, neste texto, dizer que podemos conviver com essa percepção. Que podemos ser melhores a cada dia que se vai. Menos perfeccionistas em uma vida que nos falta controle. Menos invencíveis. Menos importantes. Nós não somos nada.

Tão fracos quanto uma pedra – que pode quebrar com qualquer batida mais forte. Tão insubstituíveis quanto um grão de areia. A natureza continua. O céu fica. O calor permanece. É mais uma vida que se vai. Somos nós buscando explicações dentro um universo que, só por existir dessa forma, já é maravilhoso.

Outro dia em uma festa de amigos, um deles me perguntou porquê eu achava que aquele encontro não iria se repetir. Não vai. Por isso resolvi ficar um pouco mais. Por isso tomamos mais algumas cervejas. Por isso estendemos as canções.

É muito confortável passar os dias pensando que o que morre é porque Deus leva. Que os motivos não podem ser questionados. Que as horas das pessoas estão cronometradas sejam crianças, velhos ou jovens prestes a se casar.
A percepção doí. Hoje me sinto um pouco mais conformada, acho. Não fico tentando entender. Somos frágeis apenas. Protegidos por nós mesmos e por uma natureza que segue, independente de quem vai ou fica.

As nossas possibilidades valem para o dia de hoje. E é isso o que nos temos.

Obs: foto cheia de beleza, sem tratamento –  tirada na primeira viagem que fiz sozinha, em 2011.

que tolos fomos nós.

Captura de Tela 2013-12-15 às 23.38.11Antigamente a gente dizia que o cara que você gostava não estava com você porque ele era um tremendo de um bon vivant – queria curtir de buenas a vida solteiro. Uma outra possibilidade era ele ser muito jovem ainda para compromisso. Tímido. Ocupado demais. E também porque ele não queria te magoar caso não rolasse algo mais sério.

A gente costumava pensar que ele não tomava iniciativa porque a ex ainda ficava no pé. Porque ainda morava com pais. Porque não tinha carro para te levar aos restaurantes. Ou então pelas muitas opções do mercado – ele poderia ter a mulher que quisesse e por isso não te enxergava no meio do bolo.

Um outro motivo era a grande amizade de vocês – e qualquer aproximação poderia tornar isso tudo um caos. Ou pelo fato de vocês realizarem muitos trabalhos juntos – ele é muito profissional para esse tipo de coisa. Faltavam oportunidades também. Correria. Sem contar o fato de ele não saber, claramente, que você era afim dele.

Mas isso tudo foi antigamente. Imagina.
Hoje a gente sabe exatamente o porquê de você estar aí pensando em alguém que não está com você. É que, por mais simples que possa parecer, ele não gosta de você. Apenas. E se por algum motivo você voltar a pensar como em épocas passadas…volte aqui, releia esse texto. Isso vai te ajudar a lembrar do porquê.

Esse é o tipo de cara que quando está longe, você nem se preocupa, se ocupa com outras coisas. Porém, toda vez que encontrá-lo – em uma situação casual que seja – vai bater aquela coisa: você vai se lembrar que gosta dele e que ele ainda…não gosta de você.

Ps: João Gilberto diz em uma de suas músicas: “Que tolo fui eu que em vão tentei raciocinar nas coisas do amor”.

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os salões de beleza e a nossa cegueira diária

luz

Eu não tenho paciência para ir em salões de beleza, minhas unhas sempre foram curtas demais para serem feitas.

Mas hoje, depois de anos, vi que elas tinham crescido um bocadinho, estavam querendo aparecer, trazer um ar mais caprichado para a rotina…logo vi que só durariam com esmalte. Marquei horário em um salão aqui da rua mesmo, e pela primeira vez em 1 ano como autônoma, saí no meio da tarde para fazer a unha. O sol estava bonito, bateu no rosto. Fui a pé. Vi que o prédio que estão levantando aqui perto já está quase na metade. O ano se foi.

O salão estava calmo. Nada como uma terça-feira à tarde para perceber que um salão de beleza com pouca gente pode ser uma experiência interessante. A televisão estava ligada. Estiquei os pés na água. Permiti que as mãos relaxassem. Fiquei pensando há quanto tempo não me desligava do mundo às 4h da tarde para fazer as unhas. Ninguém disse que era proibido. Mas nunca tive certeza se era permitido. Estipulou-se que devemos olhar para o computador o dia inteiro. Às vezes fica difícil fazer outra coisa.

Enquanto acompanhava o filme na tv, ouvi um barulho do meu lado e logo vi que tinha uma moça andando com os pés arrastados tentando chegar na cadeira do cabeleireiro. Assim que ela se sentou, percebi que ela é cega. A dona do salão começou a cortar seu cabelo, elas conversavam de coisas aleatórias e davam risadas. Puxa. Descobrir que ela é cega foi como pegar meu coração, cortar um pedaço e deixar a parte que sobrou funcionando. Aos trancos e barrancos.

Imaginem que cortem seu cabelo. Que arrumem seu cabelo.
Mas você não pode ver nada disso. Pode apenas imaginar. Tocar. Sentir o a distância dos fios até o pescoço e se despedir ao sair da cadeira.
Mas ela sorria. Se deixava levar em um momento particular de beleza.
Fiquei pensando, ali do seu lado, que eu podia ver minhas unhas ficando vermelhas e se enchendo de cor. Eu poderia olhar para o espelho e reconhecer o meu cabelo também, se eu quisesse.

Naquele pouco tempo, percebi que eu era privilegiada por conseguir observar minhas mãos naquela tarde ensolarada. E que aquela moça sentada, cega, é muito mais forte do que eu. E muito mais forte do que todas as pessoas que eu conheço. Ela é cega. Não pode ver nada. Nem o céu desse dia. Nem as pessoas passando. Nem seu cabelo recém-cortado. E ela sorria. Sorria sinceramente e se aproveitava de todo aquele prazer genuíno de um salão de beleza às 4h da tarde.

Saí com as unhas coloridas. Ela saiu com o cabelo bonito.
Pisei na calçada e desejei não me esquecer dessa tarde em qualquer dia desses que, por um segundo, eu achar que alguma coisa não está certa. Que está faltando algo. Que poderia ser isso ou aquilo.
Não quero apenas ser forte como ela. Quero em todos os momentos da minha vida enxergar tão bem quanto ela enxerga, sendo cega.

Obs: A foto desse post é daqui

pela sua vida, ninguém se importa.

escolhasPara mim que rezo pouco, escrever é uma espécie de oração.
E hoje eu preciso rezar.

De todas as coisas que tenho ouvido nos últimos meses, a melhor é: não devemos fazer nada apenas para agradar as outras pessoas. A gente vai aprendendo isso com o tempo. É um treino. Vivemos pensando o que outros vão achar disso ou daquilo e a verdade é que isso pouco importa. Somos sozinhos ao tomarmos decisões e precisamos saber que ninguém, no fundo, se importa tanto. Estamos com amigos e conhecidos ao redor. Mas ali, em sua profundidade, você é apenas o seu particular.

Fim de ano é o momento mais íntimo que existe. E não acredito que devemos apenas acompanhar nossa rotina como se fosse uma história em quadrinhos e ir tocando as coisas até que se resolvam, ou entrem no eixo sozinhas. Nada vai acontecer a não ser que você deixe-se ir. E com toda a sinceridade encaminhe o que quer viver daqui para frente.

É que essa é a fase em que a alma se abre, em que ela pede um pouco de concentração para que a vida não seja apenas levada, e sim conduzida e reiniciada com toda a dedicação. Não quero que resolvam ou que escolham por mim. Desejo apenas ter, o tempo todo, a sabedoria e coragem de decidir o que eu quero fazer e o que eu espero para cada um dos meus dias. Eu sou responsável por todas as minhas decisões.

PS: foto daqui.

Sobre morte, trabalho e amor.

Captura de Tela 2013-10-22 às 23.05.51

Minha mãe foi levar flores para o túmulo da minha avó em uma cidade perto de Catanduva. Chega disso, mãe. Isso não faz bem.
Melhor as pessoas serem cremadas, disse ela. Assim elas voltam para onde vieram.
O nada.

Tem dia que é difícil. Fim de ano é uma angústia. É minha avó que morre a cada Natal. Somos eu e minha mãe chorando no telefone. Que merda. As pessoas não voltam mesmo.

Podiam nos dar a chance de ressuscitar uma pessoa por vida.
Cada um, a partir de hoje, tem direito de trazer uma pessoa para que ela viva por mais 1 ano. Ê, vó. Eu te traria agora. Pra gente ficar conversando sem interrupção até os meus 27 anos.

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Nunca achei que eu fosse me acostumar com a vida de autônoma. Ficar quieta. Sozinha. Eu e o vento. Às vezes a chuva. O silêncio de uma casa em que só eu existo durante a manhã e tarde. Hoje saí para comprar lâmpadas, passei pelo senhor que vende cocadas na minha rua e fiquei pensando como é bom e abençoado trabalhar em casa. São fases. Esta é a minha fase de trabalhar na minha casa. De fazer dela o espaço mais criativo que possa existir. Obrigada. Tenho sido feliz.

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Li sem querer hoje umas mensagens que troquei com um ex-namorado, de meses atrás. Ele dizia “mi amor”, eu dizia “amanhã quero mil beijos”. Hoje não dizemos mais nada. Não significamos mais nada. Continuamos sozinhos. No aguardo. As mulheres esperando que um homem salve suas vidas. Os homens esperando o próximo jogo de futebol. O amor não fica. Ele apenas se movimenta entre os dedos, bocas, pernas, pés e esvazia garrafas de vinho. De registro, só tenho pequenos trechos. Você passou.

*foto de sourire.

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Alguém avisa?
Acorda!
Traduzir-se
A indiferença da bandeira 

Já é Natal? Cacete.

foto-4

Minha irmã diz que quando leio um livro pareço um submerso em um lago que, de vez em quando, coloca a cabeça para cima para ver se consegue tomar ar. Leio uma parte e olho para frente.  Me afogo e volto a respirar.
Nesta tarde, o livro dizia:

“Fique com Deus, seu Natan – ele fez questão de falar. Cada vez que ouço Deus saltar da boca de uma pessoa que não parou para pensar na existência Dele por mais de cinco minutos na vida, fico irritado. Hoje em dia Deus e Jesus são sinônimos, e é impossível pagar um táxi, dar uma esmola, ou se despedir da faxineira sem que uma dessas entidades abstratas invada seus ouvidos. Dizem Deus, Jesus…falam Deus o abençoe e acreditam que têm esse poder, evocar a piedade de um ser supremo para uma pessoa que lhe fez um pequeno favor. (…)  Ana era religiosa. Na mesma frase em que me contou que estava com câncer nos pulmões, acrescentou que Deus sabia o que estava fazendo. Gritei para ela esquecer aquela merda de Deus”.

Li em voz alta para a minha irmã. Quando encontro trechos como esse não consigo guardar para mim. Uma família chegou e sentou em uma mesa ao lado. O lugar era um café simpático e eu prefiro cafés ao ar livre em dias de frio. A bebida quente nesses dias fica mais interessante.

Eles chegaram acompanhados de um cachorro da raça husky siberiano. Estalei os dedos para chamá-lo, uma outra moça também tentou passar a mão, mas o cão não parava e ficava de um lado para o outro cheirando os cantos, cadeiras, plantas, tudo. Os huskies são conhecidos por serem burros. Não obedecem, não entendem, seguem procurando alguma coisa que não encontram nunca.  Eu fiquei a imaginar que nós somos muito mais huskies do que labradores ou goldens. Parecemos disciplinados mas vivemos procurando, procurando, procurando alguém que não aparece. Que aparece e não parece ter interesse. Que aparece e desaparece. Que parece não ser o que estamos procurando. Somos huskies.

Agradeci a minha irmã por ter topado ficarmos ali naquela tarde fria, pelo sublime fato de estarmos com um bom livro e um café no ponto. Um casal do lado, mais velho, tomava uma garrafa de vinho. “Quero ser assim um dia, tomar vinho com alguém que eu goste num café às 5h da tarde” – disse a ela.
Um pouco antes dessa nossa pausa, durante uma volta no shopping, encontramos um amigo que eu não via há anos e que estava com seu bebê de 5 meses no colo. Um bebê absolutamente lindo e feliz. E esse meu amigo estava feliz. Aquele filho, definitivamente, tinha feito bem a ele. Ficamos por uns 15 minutos conversando enquanto minha irmã interagia com a criança, que não parava de dar risadas.

Já no café, enquanto eu lia algumas passagens do livro em voz alta com os olhos marejados, ela deixou o celular de lado e disse: “Não consigo parar de pensar naquele bebê. Eu tenho muito mais vontade de ter um filho do que ter alguém”. – disse ela, também com os olhos marejados.

Eu acho linda a vida nesses momentos. Em que podemos demonstrar nossas vontades genuínas e chorar na frente das pessoas sem timidez. Ela sabe que pode marejar na minha frente porque eu vivo fazendo isso na frente dela. Minha irmã sempre quis ter um filho. Eu nunca tive isso como um sonho. Ainda não me imagino como mãe. Fiquei pensando onde estaria Deus para explicar porque é tão difícil trazer alguém para que ela se apaixone e tenha um filho. Não precisa ser um grande amor, pode ser apenas um amor. Quanta demora. Logo o tempo, que está passando tão rápido. Ela se preocupa com as horas que passam depressa. Com a idade que segue correndo. Comentou que precisa comprar um relógio novo. Eu nunca consegui usar relógios. Me incomodam no pulso, ficam enroscando nas blusas e pensamentos.

Paguei o café. Ótimo livro, vou levar.
Entramos em uma loja de decoração para comprar um novo tapete para a entrada do apartamento. No meio das coisas, muitos enfeites de Natal preenchiam uma mesa junto a pisca-piscas e papais noéis. Uma mulher passou na frente de todos eles e, muito espontânea, disse: “Já é Natal? Cacete”.

Cacete. Já é Natal mesmo.
Sem relógios, acabei perdendo as horas. O ano está no fim. E ainda estamos procurando. Dia após dia. Feito huskies. Feito relógios atrás de completar o tempo.
Nem tudo passa tão depressa.

Obs: O livro se chama “Amanhã não tem ninguém.”

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aforismo da noite

Captura de Tela 2013-09-30 às 23.34.08
Instagram é a maior pagação – me disse um amigo.
Facebook também. E todas as fotos aleatórias de casamentos, bares, festa, praia e céu. A gente posta no tédio. No ápice da felicidade. Nós estamos bonitos, e famintos. Sozinhos. A gente posta na solidão. Quando não tem mais ninguém. Só o lençol e o nosso cabelo preto, que se resolve com os filtros. Às vezes são doces, pés, vazios, chapéus. Saudades de você, que ainda não chegou. Por vezes é noite, um monte de gente junta. Ninguém ao chegar em casa. São luzinhas, detalhes, lembranças. Uma falta.
Nossa vida é um avesso e, de dentro, ninguém tem foto para mostrar.

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Abri meus rascunhos


Este blog chega muito próximo das coisas que eu sinto. Hoje mexendo ali no fundo, descobri 64 rascunhos ao longo desses anos escrevendo crônicas. Coisas que comecei e não terminei, frases soltas, trechos de coisas que escrevi, desisti e guardei. Selecionei alguns deles e deixei aqui embaixo. A música acima também foi uma que ficou de rascunho, mas ela é tão boa que deveria ter sido publicada há muito tempo. Fico boba de reler coisas que não consigo me lembrar do contexto (por que eu precisava da ajuda do ferreira gullar?) e ao mesmo tempo acho maravilhoso abrir essa caixa de papéis virtuais que ficaram guardadas com pedaços sem fim, sem meio e apenas na essência. Seguem abaixo, cada parágrafo é um rascunho diferente, todos de anos atrás:

*Vontade de pedir ajuda para o Ferreira Gullar.
ele saberia o que dizer em uma hora como esta.

*Já é quase maio e me sinto repetitiva ao dizer que o ano está por demais passando rápido. Tá um friozinho gostoso sob o sol aqui na rua. Dá pra sair de moletom. Dá pra fazer da rua um lugar diferente. E às vezes me faço passando por ela como se fosse a primeira vez. Como é a sensação de se estar em um lugar pela primeira vez? De fazer algo pela primeira vez?

*Sabe quando a gente não sabe o que fazer? É porque no fundo a gente sabe. A gente sabe de tudo.

*Então é essa a sensação. Hoje de manhã, ainda na cama, abri os olhos e comecei a olhar meu quarto inteiro. A planta de natal na janela, as fotos de nova york coladas na parede, os livros misturados na prateleira e o meu lençol no chão. Então é assim que a gente se sente quando algo vai acontecer. Quando o ano vai virar. Quando a gente precisa ter força e coragem para fazer certas coisas. E foi ali, ainda deitada e desperta, que me senti bem. Tranquila. E fiquei pensando que o nosso corpo deveria ter sempre essa sensação. De paz.

*E como os pais nos aguentam? A gente vive querendo viajar. Chora, reclama, acha que tudo pode ser diferente. Me conta. Como?

*”O senhor sabe o que é o silêncio? É a gente mesmo, demais.”

*Durante uma entrevista com um paisagista, ele falou sobre o verde no meio do cinza de São Paulo.

*Hoje às nove e meia da manhã na Dr. Arnaldo.

*”Aqueles que estão certos do resultado podem se permitir esperar, e sem ansiedade, portanto, eu tenho todo o tempo que preciso e estou certo do resultado, desse modo permitirei que ele apareça no tempo devido”.

*No fundo, eu escrevo. O tempo todo. As pessoas me dizem coisas eu fico imaginando que aquilo é uma história, um sofrimento, podia ser um livro, uma crônica. A minha cabeça fica contado letras e imaginando como rimam, soam, viram coisas mais interessantes que a realidade.

*Ana voltara cedo pra casa nesse dia. Ela sentia muita coisa dentro de si.

eu escrevo sensações. e elas vêm com música.

Captura de tela 2013-04-28 às 14.49.28

Gosto do fato de que me escreveres quanto tem saudade. Gosto da sorte. Da confusão dos acasos. De não gostar da rotina. E de sentir saudade de gente por perto.
De ficar quieta. Da falta de tempo. E do que não mais me falta.

Acordamos com sol hoje. Com a vontade de falar contigo. E fui-me para a varanda, tirei as folhas amarelas da capuchinha, torci pelo manjericão. Outono é assim mesmo, o verde dá um intervalo, descansa, logo há de voltar. Encontrei um cantor novo, Luiz Rocha. Estou baixando o CD, depois eu te conto.

Coloquei as almofadas em ordem. Tirei a blusa amassada da mochila. São Paulo é bem mais bonita desse jeito, mais do que todas as outras. Até os prédios pegam cor. Até as bicicletas andam em segurança. Até a corrida fica mais leve. É tudo o que a cidade tem para me dar. Sol. Eu fiz um café preto. E haveria de ter outro café que não preto?

Puxei a cadeira pra sentar. Comi pão de queijo, acredita? Com geleia de amora. Arrastei a xícara até o jornal, li apenas o caderno de cultura. Hoje não quero saber da economia. Vem me ver? Eu vejo você.
Comecei a gostar do domingo. Por acordar descalça e sentir que tudo isso é muito bom. Observar as cortinas, o calor úmido da cidade, e o cheiro do molho de tomate lá no forno. Aqui foi polenta hoje. Quente. Que parece um curau de milho, que relaxa os músculos, a cabeça e o estômago. O esôfago. Que prepara o corpo para todas essas sensações que irá sentir em poucos segundos. Me sinto assim.

Vá lá e ouça o Caê Rolfsen. Ele entende de descanso e ansiedade. Eu não entendo de nada. Apenas desta beleza de hoje. De querer sentir mais e mais vezes o acordar e o caminhar dos passos, telefonemas, buscas, relações e reações. Um frio na barriga. O amor pelas escolhas. Eu escolho que isso não acabe. Eu desejo ser serena.

Minha mãe chega na terça, eu chego com ela. Eu quero dançar e que, de repente, todo mundo entenda, que só temos o hoje. Este fim de tarde, aquele vinho da dispensa, esse gelado da água no rosto, o shampoo escorrendo pela nuca, o tempo que passa. Os pés estalando todos os dedos.
Eu vou. Sem pressa de entender.

Antes de você terminar o texto não se esqueça do Renato Godá. Eu também vou partindo porque já deixei aqui o que há alguns meses eu queria escrever. E porque a escrita é como o verde, às vezes descansa, repensa, precisa de ordem pra voltar ao seu lugar. Vou indo para envelhecer um bocadinho, trabalhar um pouco, deitar mais tarde na cabeceira do sofá. Tenho gostado de perceber tudo novo.

Foto que eu gosto daqui.

O comer e beber é mais do que um cafézinho


Era um dia em que eu estava no papel de personagem, e não de jornalista. Eu acabara de conhecer o repórter e, com uma câmera, ele me entrevistou sobre uma peça de teatro no Sesc Belenzinho. Gravamos uma parte do bate-papo e no intervalo ele disse: “te pago um café”. Sentei uma das mesinhas simpáticas do terraço e então ele voltou com os nossos cafés, um pedaço de bolo e dois garfos. Eu não pedi bolo. Mas ainda assim ele sugeriu que dividíssemos durante a prosa. Eu gosto disso. De não frescura. De dividir pedaço de bolo com quem acabei de conhecer. Provei o doce, ele tomou o café e estendemos um papo sobre equipamento audiovisual e outras coisas. Foi bom.

O dia acabou e um amigo ligou: “vem comer pastel e tomar cerveja aqui em casa?”. Nunca tinha ido comer pastel na casa de alguém durante meus 8 anos de São Paulo. Vamos. Estava tarde, e o carro do repórter ali de cima me deu uma carona. Cheguei e lá estavam 4 amigos. Um deles terminava de fazer o pastel na mesa e fechar os cantinhos da massa com catupiry, que teimava em sair. Dividimos as latinhas, bebemos e fritamos uns 15 deles. Em poucos minutos ficaram prontos para que todos juntos nos arrumássemos em banquinhos e cadeiras para, em torno de uma mesa, falarmos sobre demissões, voltas, partidas, mudanças de emprego e vida em são paulo. O ato de colocar pimenta a cada mordida, saborear devagar, abrir o paladar para as sensações e conversas…foi um ótimo fim de sábado.

E é nisso que eu insisto. As coisas não são separadas. Conversar sem comer ou beber é possível? Sim, é. Mas não com as mesmas sensações. Comer e beber sem conversar, pode? Claro. Mas é menos prazeroso e mais mecânico. Eu gosto deste vídeo que fizemos acima porque eu sinto algo e sei que este momento se repete em minha vida todos os dias – em encontros ao acaso, nos restaurantes com amigos, aqui em casa com a minha irmã ou no boteco da esquina. Eu falo, gesticulo, penso e provo vinhos, água, cerveja, pastéis, pizzas e bolinhos caseiros feitos com amor. Nunca é só um cafézinho.

de dentro – quem é que entende

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Do amor, quem é que entende.
Uma amiga diz que tem preguiça. E por ter preguiça ela prefere os ex-amores. Porque eles já conhecem os caminhos, os sentidos e a hora certa de chegar. Um ex-amor já gosta de você. Não precisa se esforçar. E nem dizer onde você se formou. Qual é a sua cidade natal. Que gosta de cozinhar. Que é culta. Frequenta os bares da Augusta. Lê Leminski. Já conheceu Londres. Roma. Florença. Começou ioga na semana passada. Arrisca um francês. Está até tirando foto. Quem sabe vai montar uma exposição. Não. Não precisa. Ele gosta de você. E só por ser você ele já gosta. Por estar ali, na frente dele. E mesmo sabendo que, às vezes, você é uma chata.

De ex-amor, quem é que entende.
Que não é mais amor e nem amizade. Que não faz parte da sua rotina, que não se recorda muito bem quem você é. Mas que aparece e sabe que você sim, vai se lembrar. Que agora são dois estranhos, apenas com saudade – do que não precisa de esforço e está pronto. Vocês já foram conquistados. Um pelo outro. Mas é a vida que segue. Está todo mundo dizendo isso agora. É ela que leva. Vocês dois. Para caminhos completamente diferentes.

E quem é que entende disso tudo.
Fique sóbria. Sóbrio. Respire fundo e arrume apenas 1 amor a vida toda para que os anteriores não cocem a sua cabeça. Não te despenteiem dessa forma. Veja o que eles tem te causado. Freie. Tire o pé desse pedal, a escolha é sua.

Mas quem é que sabe.
Sem os ex-amores você não tem lembranças, histórias, caminha apenas pelo marasmo. E pela dor de não vivido nenhum deles. Pela falta da saudade, apatia. Pela ausência de lembrar de uma voz ou de uma risada confortável, que seja. É uma vida sem. Amores. Tão fortes como combustíveis, que vêm, vão embora, e sempre permanecem.

Foto daqui.

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– Covardiamos
Esta não é uma história de amor
O amor dele
– Querido desconhecido 

O sofrimento de Santa Maria

Natureza

Existe um livro em que um psiquiatra relata as passagens de sua entrevista feita com o Dalai Lama durante um tempo em que ficou na Índia, por volta de 1980. Em uma das partes, quando interrogado sobre o sofrimento, o mestre responde ao entrevistador:

– Não há como evitar o fato de que o sofrimento faz parte da vida. No dia do nosso aniversário, as pessoas costumam dizer “Feliz Aniversário”, quando na realidade o dia do nosso nascimento foi o dia do nascimento do sofrimento. Só que ninguém diz “Feliz dia-do-nascimento-do-sofrimento!”.

Dalai Lama parte do princípio de que começamos a sofrer a partir do momento em que nascemos. Começamos sonhos, perdemos os mesmos, choramos, queremos, padecemos por antecipação. Criamos amor, buscamos conquistas, construímos famílias e as vemos se dissolver. Sofremos com a morte. Estamos morrendo.

E as pessoas pedem que Deus as ajudem, que os amigos sejam reconfortados, que o céu as receba em paz. E morremos com elas. Porque depois da morte, só existe ela mesma. Não há conforto ou quem nos aconselhe. Apenas Dalai Lama dizendo que a vida é sofrimento, e que todos os dias permanecemos com ele. Eu não tinha amigos nessa tragédia, não conheço nenhum desses jovens que faleceram. Mas compartilho dos seus sonhos. Sei que eles queriam acordar amanhã de manhã e tomar um café quente. E aprender uma coisa nova. E abraçar seus pais. Sei também que eles faziam muitos planos. E queriam viajar. E sentir o coração novamente se apaixonar. Eles são eu e vocês. Que queremos continuar conhecendo, e participando, e dando risadas.

O sofrimento não nos deixa mais fortes, já disse meu pai. Ele nos torna mais frágeis. Mas talvez mais sensíveis. E a sensibilidade nesse sentido deve colaborar para uma vida, enquanto houver, com mais profundidade. São Paulo está tão nublada hoje. Com uma garoa numerosa. Triste. Eu me sinto triste. E no ápice da sensibilidade. Porque a morte sempre vem me dizer que ainda vivemos. E que hoje deve ser o mais absoluto dia de sentir. De aguçar o amor e a consciência de que tudo não passa de uma passagem. Que nada é tão sério. Nada é tão concreto quanto parece. De que cada um tem uma história, e uma justificativa também. A gente passa tanto tempo se comparando, se avaliando, preocupado em mostrar os números de rendimento quando isso é pouco significativo dentro de um mundo em que tudo é natureza e foge do controle.

Sofremos. O sofrimento faz parte da vida. E Dalai Lama afirma que com isso, acredito eu, não precisamos imaginar que a felicidade irá chegar quando acabarmos de sofrer porque isso nunca vai acontecer. E nem mesmo ficarmos ansiosos procurando uma felicidade lá do futuro, de um momento que ainda não aconteceu porque isso é o que nós temos. A tarde de hoje. E o amor que levamos por cada dia de nossas vidas que presenciamos acontecer.

* O livro citado se chama “A arte da felicidade”.
obs: A foto somos nós. Natureza.

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– Porquê você precisa se lembrar da morte
– Uma lágrima para Daniel Piza
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– Sobre vida e morte

quando eu tomo chuva

emy sato

Esta semana, tomei a minha primeira chuva do ano.
Daquelas de molhar o cabelo, a roupa, a bolsa, os pés e não deixar nada seco.

A última vez que fiquei em uma chuva como essa foi a do carnaval do ano passado, atrás de um bloco de bairro descendo as ruas encharcadas, que levavam a nossa maquiagem, o guarda-chuva e traziam ainda mais emoção para o enredo cantado em voz alta. Foi uma sensação maravilhosa. Não me lembro de ter tido um carnaval tão especial como aquele. Na época pensei – se eu não ficar doente com essa chuvarada toda, não fico nunca mais. Passaram-se alguns dias e eu nada tive, nem uma gripe, nem um resfriado. E isso  porque – entendi mais tarde – chuva tomada no meio da rua, quando tanta coisa está acontecendo, é cura.

A chuva deste último fim de semana foi a mesma que aquela – chegou molhando as pernas para alcançar os braços, barriga e cabelo. Escorreu pela testa, bochecha, olhos, boca e pediu para que eu me entregasse. E se entregar a ela é parar de brigar com o guarda-chuva e abrir os braços para sentir assim, no meio da avenida paulista, o que essa água que vem do céu quer dizer a você. E eu que a encontrei perto de casa, tive vontade de seguir adiante para molhar um pouco mais. Aprender um pouco mais. Sentir o que Guimarães Rosa quer dizer com “a coisa não está nem na partida, nem na chegada, está na travessia”. E nisso que eu pretendo pensar a cada mudança, a cada passo em que uma travessia forte se faz cheia de descobertas e de momentos de entrega. Tomar chuva é permitir-se uma transição livre, e lembrar-se de que nada é urgente, a não ser essa vontade tamanha de se aproveitar com uma alegria absurda, o momento que estamos vivendo agora. Costumo pensar que quando se passa uma tarde embaixo de chuva é porque se está vivendo um momento muito importante.

Cheguei em casa, coloquei a roupa de molho e segui para um banho quente, pensando em qual momento desta passagem eu tomarei a próxima.
Calma, ela vai chegar.

Essa foto bonita é do Amy Sato.

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https://claravanali.com.br/2011/05/04/so-fresh/

soltem os pássaros.eles querem voar.

Captura de tela 2012-12-05 às 22.53.24

Não me chame para visitá-lo se você tiver um pássaro dentro de uma gaiola. Um papagaio, um canário, uma maritaca que seja. Por favor, não me chame. Vamos tomar o vinho em outro lugar, jantar aqui em casa mesmo ou conversar em algum parque por perto.
Eu não gosto de pássaros na gaiola.
No momento em que conhecê-lo eu vou sorrir, achar graça do seu canto tristonho e perguntar a você com qual nome batizou o bicho. Mas com sinceridade, eu acho chato. Tenho pena. Fico mais triste que ele.

Pássaros em gaiolas são privados de realizar aquilo que nasceram para fazer. Voar. É um cortar de asas. Uma meia morte. É como diz valter hugo mãe: vamos levar-lhe os braços e as pernas, vamos levar-lhe os olhos e perderá a voz, talvez lhe deixemos os pulmões, mas teremos de levar o coração, e lamentamos muito, mas não lhe será permitida qualquer felicidade de agora em diante.

Soltem os pássaros. Eles estão há tanto tempo recebendo a comida no horário certo, um cafuné distante pela grade e um espaço previsivelmente confortável que se esqueceram de suas asas – fortes e grandes o bastante para sentir outros lugares, outras possibilidades, a cidade, o campo, o espaço cheio de ar pedindo para que eles o respirem.

Soltem os pássaros.
Nós queremos voar.

meu sonho, então.

Captura de tela 2012-12-05 às 22.56.44

Um pouco antes de eu ir embora naquele dia, a Judite veio me dizer que precisava me ensinar a fazer a canja que tinha aprendido alguns dias atrás. Na primeira vez ela colocou muito arroz, faltou caldo. Mas uma segunda chance foi suficiente para acertar o ponto, a quantidade de grãos e não deixar o frango desfiado com um gosto muito forte. Vou te ensinar, disse a mim. Não me esqueça Judite, disse a ela.

Hoje à tarde, Cecília puxou a cadeira e sentou perto da minha mesa. Preciso te contar uma coincidência, disse. Aquele livro lá, aquele que você leu no apê.ritivos de natal, do valter hugo mãe. Eu estou lendo esse livro. E a parte destacada por você foi a mesma grifada por mim, dias atrás – porque uma amiga perdeu a mãe e esse trecho mostra bem como dói a saudade. Quando eu vi que era esse que você lera, fiquei surpresa, foi muito bom. Puxa! – disse a ela. O que dizer.

E o Jeff me abraçou. Vou sentir saudades, Jeff. E a Marcinha me olhou e balançou a cabeça – pois sentiremos também.  Gostei tanto do seu texto, Marcinha. Ficaria feliz se o Niemeyer fosse o primeiro homem a não morrer. E estávamos os três ali, conversando sobre o tempo, sobre a vida e sobre as saudades. Sobre as passagens. Abracei a Cris, ela encheu os olhos, anotou meu celular. Me liga, Cris. Vamos falando. Tá tudo certo. Ainda bem que a gente sente.

E o Caio me lembrou que aquela conversa que tivemos há um tempo no metrô estava de fato acontecendo. Van, vamos tomar mais um café e falar sobre o que temos falado há tanto tempo. Amiga, querida. Eu não posso comer açúcar mas alguém racha um sonho de valsa comigo? A Mari veio me mostrar o sapato dela. Olha, é parecido com o seu! Vamos tirar uma foto! Parece de princesa. Rubbo querida, eu choro contigo.

A Lyna me avisou que as fotos das flores ficaram lindas. Eu te adoro, Lyna. E esse sorriso, como ficaremos sem ele ? – perguntou roberta. Verinha apertou forte minha mão – que bom que colocaram essas luzes na redação, estamos mesmo precisando. Rosane, a gente aguenta. Obrigada pelo lindo comentário, Mayra. Roman, depois te passo meu e-mail pessoal, a gente fica em contato.

A Larinha ainda não quer tocar nesse assunto. O Nilbberth perguntou quais são meus sonhos. Fique com esse pacote de chá, deve ser gostoso. Marcel querido, se é isso que você está sentindo, vá sim passar o fim de ano no Rio. Kátia, obrigada por esse abraço. Mas o que fazer, se eu me dou bem com as pessoas que estão saindo – disse Felipe. Afinidades à primeira vista, ansiedades compartilhadas, poesias, olhares que sorriem e choram. São pessoas. Que dividem segredos, receitas, falhas, forças e companhia numa cidade grande de uma vida inexplicável.

Meu sonho, então.
Continuar conhecendo um monte delas ao logo de toda a vida.
E continuar conhecendo as mesmas por tantas outras vezes.

Obrigada.

sobre dor de estômago / sobre deus

Com 25 anos tive a minha primeira dor de estômago.
Minha mãe disse que o meu pai teve a mesma coisa na minha idade e por esse motivo ele parou de fumar.

Vou parar de fumar também.
Mas eu não fumo.

Tentei Simeco Plus e Sonrisal.
O segundo rasga o estômago, não deve fazer bem nunca.
O primeiro alivia, e a dor logo volta.

Um chá de hortelã havia de fazer bem.
Mas eu não tinha os sachês.
Não existem mercados perto de casa.
Chovia tanto.

Olhei na minha varanda.
Hortelãs!
Hortelãs verdadeiras!
Plantadas na terra, frescas e verdes.

Peguei um punhado, joguei na panela.
Água fervente e bolhas.
E tomei como um remédio,
com expectativa.

E o chá seguiu aparando, costurando os rasgos,
a dor, a gastrite nervosa, ansiolítica,
insistente.
foi o único.

deve ser meu inconformismo de fim de ano,
meu pulso depressa.
é deus.

hortelã é deus.
é a natureza. é a terra.
é o que cura e refaz.
não é isso aí que eles acham que é.
ele não é feito de tantas teorias.
ele é o que somos.

a dor foi embora. naquele dia ela foi embora.
deixou a chuva, o sereno e um curativo.
me abraçou.
deus.
então eu o conheci.

quando outubro acabar


 

– Mãe, acho que meu coração parou hoje.
– Parou como?
– Parou por uns 3 segundos e voltou.

Tenho estado ansiosa. Correndo dentro de mim mesma.
Querendo ser apenas uma borboleta. Porque ela voa.

Ela voa com o coração batendo. O meu está correndo.
Latejando como um furacão.
Um órgão cheio de ar, que de tanta vontade de respirar, às vezes para.

Só os conformados passam ilesos pelo fim do ano. Pelo vaivém que preenche a cabeça -avaliando tudo. Pela vontade de mudar os dadinhos, o dominó, o jogo de palitos.

Nunca passo um fim de ano da mesma forma que entrei. Ele sempre me transforma, transtorna, puxa meu coração e o faz parar. Porque eu não me conformo. Eu sinto.

Hoje minha irmã mandou uma foto de uma igreja lá de Catanduva. A cidade dos meus queridos avós. Da minha avó que morreu há quatro anos. E do meu avô que não aguentou sem ela, e morreu na sequência. E uma foto já foi suficiente para eu me lembrar de tudo. Do fim de ano. Do meu desconforto. Da minha saudade. Da minha vontade de voar.

A gente tinha vontade de casar nessa igreja. Numa época em que éramos crianças e católicas. Hoje somos apenas minha avó. E essa vontade de fazer tudo diferente quando novembro começar. E tomar sorvete com ela. E chorar de saudade. Como estou fazendo agora.

E depois de ver essa igreja e essa praça, e a gente ali 10 anos atrás, comprando gibi da mônica na banca, brincando na varanda com brinquedos rabiscados, eu só posso desejar que o nosso coração continue parando a cada fim de ano. Para que eu nunca me esqueça de que preciso continuar fazendo-o bater. De que preciso me manter inconformada, resistente, me lembrando de que o mundo são mais pessoas e menos coisas, mais momentos criativos e menos trabalho burocrático.
De que a gente não precisa seguir o que todo mundo faz.

Assim que outubro acabar, eu quero ser borboleta.

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Alguém avisa?

Alguém avisa que as azaléias da paulista estão queimadas. Secas. Elas precisam de mais cuidados em uma época em que a pouca chuva traz mais frio do que água.

Alguém avisa que vocês dois não tem química. Que ela é muito magra, quase não sorri e que você é um idiota por preferir estar com uma pessoa desconhecida a estar com alguém que sabe tudo sobre você. Comigo.

Alguém avisa que eu gosto de você.
Alguém avisa que eu deixei de gostar.

Alguém avisa que tomar café me deixa agitada, com tremedeira nas mãos e pernas. Mas que sem ele a manteiga não tem o mesmo gosto.

Alguém avisa que lembrarmos da morte nos faz viver melhor.

Alguém avisa que eu gosto de pensamentos soltos. Exatamente como Albert Camus sonhava. Ele dizia: (quero) escrever sem preocupação de ordem, tudo o que me passar pela cabeça.

Alguém avisa.
Por favor.

a minha vida em araçatuba


Tô indo pra Araçatuba. E sempre que vou pra Araçatuba penso que seria difícil voltar a morar na cidade. E não por ser interior, não por não ter uma vida cultural agitada. O meu ‘não’ é pelo fato de eu já ter sido muito feliz lá, por eu ter uma história naquela escola, naquela nossa casa antiga, naqueles únicos bares em que todo mundo ia. O meu ‘não’ é por saber que não suportaria viver cada dia sabendo que aqueles dias já foram meus. Que aquela rotina de volta do colégio para casa já teve meu esforço, meus estudos e os tantos amigos que já não vejo mais. Seria muito difícil voltar a viver em Araçatuba com tanta memória. É como se a cidade virasse a mim para falar: olha, eu ainda estou aqui, e ainda provoco um monte de coisas aí dentro.
Eu lembraria de você, da nossa inocência, das nossas idas ao único shopping nos sábados à tarde. Eu lembraria daquela época em que os amores eram muito mais intensos, de verdade e dramáticos. Eu pensaria nas tantas vezes em que já fui naquele mercado para comprar os legumes do almoço com a minha mãe. Nas ansiedades. Nas festas à fantasia. Nas cartas anônimas. Em tudo o que eu não fiz. Nas tantas que eu fiz de monte.
Eu me recordaria do que separou eu e você. Do que você jamais vai entender. Do que a gente nunca mais vai conversar. Das festas agropecuárias da cidade, de uma época em que bandas boas eram Skank e Jota Quest. Talvez as únicas que a gente conhecia.
Da mercearia do lado de casa, da loja de papel de carta. Da rua em que eu andava de patins com minhas irmãs, do caminho para tantos lugares…. Muitos dias para uma única cidade. São 17 anos de acordar e dormir, sentindo tudo tremer e formigar. Araçatuba vai ser sempre a minha adolescência, o que eu já senti de mais forte, de medo, de felicidade. É um álbum de recordação, são fotos que ainda estão lá. É saudade, passado, são coisas que não começam de novo, vai ser tudo sempre o que já foi. Aquele nosso boliche, nosso cinema, o reencontro de pessoas que não convivem mais. Aquela escola construída por nós, cheia de energia, amigos, aniversários, peças de teatro e dança. Os nomes das ruas, a esquina em que virei sem dar o sinal no exame de motorista, a comemoração por ter sido aprovada, a quitanda que vende o queijo bom, a avenida em que eu tomei o trote quando passei na faculdade. Vocês indo lá em casa jogando ovos na minha cabeça por isso. Eu pintada, pronta para me mudar. Em prantos. O fim do dia, o mural no meu quarto, a cama, o guarda-roupa, o silêncio de lá. As idas no jornal da cidade, os sonhos ainda incipientes. Os churrascos até de madrugada. A melhor turma de amigos que a gente já teve. Vão ser sempre lembranças. Sensações que caminham, sussuram na cabeça, me abraçam, consolam e dizem – deixe estar garota, aproveite essa nostalgia, faça disso parte do que está vivendo agora.

E então eu vou.
E me entrego a tudo o que vier.

felicidade em rede social

Medianeiras é filme obrigatório. E feito para ser revisto todos os anos.
Passeando por blogs, caí em um deles que publicou um texto de uma escritora chamada Carla Heitgen – falando justamente sobre a película. O texto dela é bacana, mas esta parte destacada abaixo é ótima:

Criamos um perfil e uma persona que dificilmente sobreviveria a um primeiro encontro. 529 imagens de festas, 325 fotos de viagens, 27 de pratos de comida, uma abundância de sorrisos e pontos de exclamação  e nenhum registro de você sozinho, de pijama, sábado à noite, devorando um pote de sorvete. Aceite, seu perfil é bem mais legal que você.

Falando com uma amiga sobre isso, ela me disse: sabe que eu tenho medo disso – de ser mais interessante nas redes sociais do que na vida real. Bingo. Somos assim mesmo. Muito mais interessantes no facebook do que no caminho vazio de volta pra casa; do que no sofá tomando sopa quente para curar um resfriado; do que um pijama velho vestido num sábado à noite. Rede social é feita de beleza, praia e sorrisos. A maquiagem lá não borra. Tô linda na foto do meu perfil. Nem parece a pessoa que ficou o dia todo espirrando por causa de uma dor de garganta adquirida no fim de semana. Eu tô sempre cheia de amigos lá também, meu álbum de fotos é animado. Festas e viagem. Vida social sem furos, sem foras, tudo perfeito. Somos assim, amigos. Sociáveis.

Só que a vida mesma, esta de hoje, é em muitas das vezes, sofá, tv, sopa e solidão.

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Por que as pessoas dizem onde elas estão no facebook?