convém aproximar bocas conhecidas

e que memorizam o caminho de casa para nos acompanharem a pé.
que não deixarão jamais, nem por uma fatalidade, de enviar mensagens ao longo do dia.
– você está bem / está ouvindo minha saudade / está com fome / está por aí?

bocas que já sabem a história da nossa vida. que 2017 não foi tão bom. e que 2018 vai fazer mais sentido a partir de agora.
que gostam do quanto improvisamos no assunto que seja. china. tesouro direto. x-men.

as bocas novas impressionam. se envaidecem. são curiosas.
mas as conhecidas. ah, as conhecidas. são as que nos carregam no colo.
experimentam o vinho na nossa taça, conhecem nosso gosto de ficar por oras em livrarias e supermercados, escolhendo livros e produtos que por vezes não são comprados.

que já entendem que à noite o traje é moletom. dos mais gostosos e confortáveis.
que a especialidade é macarrão e ovo com gema mole.
e que o pão francês aos sábados e domingos vem com manteiga aviação.

bocas que já se viram não precisam esperar. porque eu não tenho mais paciência. desculpa.
desejo que todas as bocas novas venham carregadas com a trajetória das antigas.
com os beijos que não são à toa. que caminham para um cinema. para as rotinas preferidas. para os clichês.

convém amar, diria hilda hilst.
convém amar bocas conhecidas, diria eu.

Anúncios

notas

deitei a cabeça no travesseiro e resolvi ir até a quarta-série. me pareceu aconchegante.  | saí correndo com alguns amigos no corredor, inventei a próxima peça de teatro. não senti dores. escutei risadas muito altas. era comum gargalharmos naquela época. compramos dadinhos para comer no intervalo. refrigerante em sacos plásticos. puxamos a manga do moletom para que ele acobertasse as mãos. e trocamos de sonhos como quem troca de calçada.| peguei no sono.


dos momentos mais generosos que me ocorreram.
minha mãe vindo até meu quarto me perguntar como fazia para eu ser feliz de novo, já que ela se sentia responsável por ter me colocado nesse mundo. oras, como ela poderia ter inventado uma pessoa e agora deixá-la sem a felicidade desabando na cabeça.
foi um abraço. sim. alguém me dizer que eu não sou a única preocupada em me fazer feliz dia e noite. tem alguém comigo nesta.


me perguntaram qual é o meu diretor favorito, e eu não tenho.
como é que pode alguém que trabalha com vídeos não ter um diretor favorito.
não, não tenho.
tenho filmes, dos quais gosto mundo. dos quais poderíamos passar a noite falando. mas não me peça um único diretor porque é muito limitador crescermos com a premissa de que aos 30 temos tudo definido. a melhor viagem, a bebida preferida, a estação mais esperada, o lugar favorito. não tenho. porque muitas coisas já se passaram por aqui e eu não quero fechar esse ciclo.

como éramos fixos

– fixo chamando.
– fixo!

a única pessoa que ainda me liga no fixo. minha mãe.
pago a NET para ouvir seu “fixo” ali do outro lado e pagaria quantas vezes fosse preciso.
não cancele jamais a minha linha, senhor. tenho o fixo para ela, e somos felizes assim.

e lá começamos a falar sobre nada. sobre como acordamos, o que comemos e o que vamos assistir na tv até a hora de dormir. alguns planos ficam apenas no fixo, outros poucos a gente começa a dar andamento como um curso de pintura que quero fazer – sem nem nunca ter pintado algo em vida. espero que dê certo. torço para que eu não me arrependa. quero que as cores umidifiquem os dias esquisitos.

ontem fiquei vendo uma série de uns alunos do colegial que se encontram após sete anos de formados. me lembrei do meu colegial. de como todo mundo se amava. e tinha um brilho no olhar de conquistar, conquistar e conquistar. de conseguir os maiores sonhos. embora a gente não soubesse que quando os conquistamos é quando nos sentimos muito solitários também. porque somos adultos. e adultos não tem muito tempo. e nem a mesma saúde dos 15. (- que absurdo! meu pai diria sobre isso. você tem apenas 30 anos!)

não tínhamos Netflix em meados de 2003 e 2004. a gente se ligava no fixo. essa era a nossa distração. e então falávamos por horas na sala, ao lado do telefone, até alguém da cozinha gritar para desligar. éramos íntimos das pessoas. e digo isso sem querer romantizar a era pré-digital, mas apenas sentindo a falta de ser próxima. de termos uns aos outros de novo para conversar.
às vezes no sofá, embaixo das cobertas, com a melhor programação do mundo no controle remoto, ainda sinto. o vão. de não ter mais aquilo.

quem dera o celular nos fizesse conversar.

 

me sinto em um filme,

com o abajour e algumas luzinhas piscantes, que ganhei no natal,  iluminarem meu quarto 3×4 de pé direito baixo.
foto da viagem a ny em 2010 coladas na parede.
vontade de escrever. de cobrir meus pés gelados que acompanham de longe a garoa paulista de domingo.

também estou num filme porque tento manter a dieta como fazem as atrizes.
embora só pense em um queijo cortado em pedaços servido ao lado da minha cama. penso no porquê dos domingos nos lembrarem que não temos amigos suficientes. começo a repassar cada um dos amigos que fiz na adolescência, na faculdade, e a causa da vida adulta não trazer novos amigos.

provo um caqui doce gelado.
agradeço por ter vivido mais esse dia.
é gostoso sentir frio dentro de casa, ter um livro sempre a nossa espera como um pássaro disposto a cantar.
a solidão não é tão boa. mas faz parte do filme.
penso na minha mãe, lembro da minha avó. festejo em pensamento com meu futuro sobrinho.

tenho 10% de bateria no computador.
vou ali descansar.
ainda chove.
me sinto em um filme.

ele me pediu para que eu voltasse a escrever.

mas aí eu disse que só escrevia quando estava triste.
– então fique triste, ele falou.

ele me pediu também para que eu voltasse a amar.
– mas eu só me encrenco com o amor.
– então volte a se encrencar.

outro pedido foi para que eu voltasse a cantar.
– mas eu só cantava quando acordava de bom humor.
– então volte a acordar sorrindo.

por fim, me pediu para meditar.
– mas é algo que eu nunca fiz.
– então volte a fazer coisas novas.

volte.

inventaram uma máquina

que você pode voltar no tempo.

e não dispensar o grande amor da sua vida. a sua fase invencível. ao seu melhor corte de cabelo. ao passado. que nos faz esquecer de qualquer coisa errada e só nos lembra do que foi bom. a suas corridas na avenida paulista. as duas garrafas de vinho bebidas indevidamente. a sua resistência ao que era ruim. ao auge da sua beleza.

a você mesmo.

escrevi num postal

e quando a gente se ver, vou te entregar.

| que dia bonito fazia na praça da catedral de barcelona.
um sol alaranjado, sabe?
cheio de crianças brincando e de bolinhas de sabão que vinham não sei bem da onde.

havia também uns comerciantes em umas tendas improvisadas, vendendo objetos bem antigos e coisas diversas. em uma das tendas, encontrei postais velhos, amarelados, de muitos anos atrás, perfeitos. cheios de histórias no cheiro e nas dobradiças das laterais. até meio amassados. não poderiam ser melhores.
olhei este e na hora me lembrei de você. meu favorito.
pensei na gente ali conversando e bebendo e conversando.

é seu. desculpe a demora na entrega.
foram os dias. meus. seus. corridos.

um beijo, my best.

clara |