a minha vida em araçatuba


Tô indo pra Araçatuba. E sempre que vou pra Araçatuba penso que seria difícil voltar a morar na cidade. E não por ser interior, não por não ter uma vida cultural agitada. O meu ‘não’ é pelo fato de eu já ter sido muito feliz lá, por eu ter uma história naquela escola, naquela nossa casa antiga, naqueles únicos bares em que todo mundo ia. O meu ‘não’ é por saber que não suportaria viver cada dia sabendo que aqueles dias já foram meus. Que aquela rotina de volta do colégio para casa já teve meu esforço, meus estudos e os tantos amigos que já não vejo mais. Seria muito difícil voltar a viver em Araçatuba com tanta memória. É como se a cidade virasse a mim para falar: olha, eu ainda estou aqui, e ainda provoco um monte de coisas aí dentro.
Eu lembraria de você, da nossa inocência, das nossas idas ao único shopping nos sábados à tarde. Eu lembraria daquela época em que os amores eram muito mais intensos, de verdade e dramáticos. Eu pensaria nas tantas vezes em que já fui naquele mercado para comprar os legumes do almoço com a minha mãe. Nas ansiedades. Nas festas à fantasia. Nas cartas anônimas. Em tudo o que eu não fiz. Nas tantas que eu fiz de monte.
Eu me recordaria do que separou eu e você. Do que você jamais vai entender. Do que a gente nunca mais vai conversar. Das festas agropecuárias da cidade, de uma época em que bandas boas eram Skank e Jota Quest. Talvez as únicas que a gente conhecia.
Da mercearia do lado de casa, da loja de papel de carta. Da rua em que eu andava de patins com minhas irmãs, do caminho para tantos lugares…. Muitos dias para uma única cidade. São 17 anos de acordar e dormir, sentindo tudo tremer e formigar. Araçatuba vai ser sempre a minha adolescência, o que eu já senti de mais forte, de medo, de felicidade. É um álbum de recordação, são fotos que ainda estão lá. É saudade, passado, são coisas que não começam de novo, vai ser tudo sempre o que já foi. Aquele nosso boliche, nosso cinema, o reencontro de pessoas que não convivem mais. Aquela escola construída por nós, cheia de energia, amigos, aniversários, peças de teatro e dança. Os nomes das ruas, a esquina em que virei sem dar o sinal no exame de motorista, a comemoração por ter sido aprovada, a quitanda que vende o queijo bom, a avenida em que eu tomei o trote quando passei na faculdade. Vocês indo lá em casa jogando ovos na minha cabeça por isso. Eu pintada, pronta para me mudar. Em prantos. O fim do dia, o mural no meu quarto, a cama, o guarda-roupa, o silêncio de lá. As idas no jornal da cidade, os sonhos ainda incipientes. Os churrascos até de madrugada. A melhor turma de amigos que a gente já teve. Vão ser sempre lembranças. Sensações que caminham, sussuram na cabeça, me abraçam, consolam e dizem – deixe estar garota, aproveite essa nostalgia, faça disso parte do que está vivendo agora.

E então eu vou.
E me entrego a tudo o que vier.

felicidade em rede social

Medianeiras é filme obrigatório. E feito para ser revisto todos os anos.
Passeando por blogs, caí em um deles que publicou um texto de uma escritora chamada Carla Heitgen – falando justamente sobre a película. O texto dela é bacana, mas esta parte destacada abaixo é ótima:

Criamos um perfil e uma persona que dificilmente sobreviveria a um primeiro encontro. 529 imagens de festas, 325 fotos de viagens, 27 de pratos de comida, uma abundância de sorrisos e pontos de exclamação  e nenhum registro de você sozinho, de pijama, sábado à noite, devorando um pote de sorvete. Aceite, seu perfil é bem mais legal que você.

Falando com uma amiga sobre isso, ela me disse: sabe que eu tenho medo disso – de ser mais interessante nas redes sociais do que na vida real. Bingo. Somos assim mesmo. Muito mais interessantes no facebook do que no caminho vazio de volta pra casa; do que no sofá tomando sopa quente para curar um resfriado; do que um pijama velho vestido num sábado à noite. Rede social é feita de beleza, praia e sorrisos. A maquiagem lá não borra. Tô linda na foto do meu perfil. Nem parece a pessoa que ficou o dia todo espirrando por causa de uma dor de garganta adquirida no fim de semana. Eu tô sempre cheia de amigos lá também, meu álbum de fotos é animado. Festas e viagem. Vida social sem furos, sem foras, tudo perfeito. Somos assim, amigos. Sociáveis.

Só que a vida mesma, esta de hoje, é em muitas das vezes, sofá, tv, sopa e solidão.

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Por que as pessoas dizem onde elas estão no facebook? 

porquê você precisa se lembrar da morte


Semana passada morreu Magrão. Integrante do MPB 4 e autor do arranjo fantástico de vozes da música Roda Viva, com o Chico Buarque

Droga – eu pensei. Lá vem a morte outra vez. E puxa, justo o Magrão. Nunca o conheci, nunca fui a um show do grupo, mas o ouvia muito dos vinis do meu pai. Dos cds antigos nos churrascos em família, de apreciar o conjunto harmônico que ele, junto com o MBP 4, fazia com um violão na mão e um talento no tom. Se eu fiquei triste, imagine o restante do grupo que não terá mais a voz, música e vida do Magrão.

Essas notícias sempre me abalam. Eu não consigo viver na amenidade , eu sofro junto. Eu lamento. Tenho pena. O fim da vida é uma merda. E isso não é ser pessimista, é ser sincera. Eu não preciso enganar a mim.
E fiquei com isso na cabeça. O corre diário, a morte do magrão, esse monte de preocupação que a gente tem na cabeça para ser uma pessoa correta, sem sair da linha, pensando sempre no futuro, nos planos, em chegar e sair no horário, em dar risada mais baixo no trabalho, em parar na primeira taça de vinho, no emprego mais fácil que nos aparece.

Minha mãe me ligou hoje e disse que uma amiga dela está com diagnóstico de leucemia. E puxa….a mulher trabalhou tanto durante a vida, foi traída pelo marido, saiu pouco, já não se divertia há um tempo e agora está doente. A vida é indigesta né? Disse minha mãe. Mas sabe que é bom a gente lembrar dessa indigestão para parar de comer a vida com tanta culpa. Com tanta cautela em amar, em expor nossos sentimentos, angústias e vontades. Eu tenho falado aqui há tanto tempo de fazermos o que a gente gosta, sabe por quê? Porque as pessoas morrem. Morrem. E se a gente nasce feito uma planta, uma semente que cresceu com tempo finito para durar, por que não somos mais intensos?

O que é dar certo ou errado numa vida que acaba? Percebe-se assim que não precisamos de tantos filtros para fazer as coisas, e de tantos pensamentos que criam uma cadeia de problemas que se multiplicam em situações imaginárias que ainda nem aconteceram. O melhor conselho que minha mãe já me deu e sempre me lembra é: a felicidade são momentos. A condição permanente não existe, mas os dias sim. Esse sofrimento pela felicidade eterna, e pelas conquistas do futuro têm que ser substituídas imediatamente pela consciência de que a satisfação se faz em pílulas. Há dias de sim, há dias que faltam. E o que temos hoje?

Ninguém se importa tanto com as ações particulares. Sabe quando você pratica alguma atitude e fica sofrendo de imaginar o que estarão pensando de você? Nada. As pessoas tem coisas mais importantes para fazer do que pensar na gente. Precisamos fazer mais escolhas, do contrário escolherão por nós e no final o que sobra é um monte de arrependimento, medo e tristeza.

Uma moça grávida do trabalho chegou radiante esta manhã na redação: “ela chutou, ela chutou! pela primeira vez, minha filha chutou!”. E foi um momento tão especial pra ela que pra gente se fez como nosso. E todos paramos, ouvimos suas histórias e sua emoção em criar um ser para que os sonhos se refaçam. Enquanto uns morrem, outros nascem por aí e bem perto da gente.

Essa vida é morte, diz a música aí em cima. É bom sempre nos lembrarmos dela para vivermos melhor.

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– Quando ainda há muito tempo:
– Quando a dor acontece. 

esta não é uma história de amor

Naquela noite, Ana voltara cedo pra casa, porque era muita coisa dentro de si para suportar até às duas da manhã. Mais um dia com ele, mais uma noite sentindo amor, incômodo, solidão. E foi então que ela percebeu que a única maneira de voltar a encontrá-lo com sinceridade era dizer tudo o quê ele não sabia. E dizer como? Um e-mail? Um telefonema? Pessoalmente?
Era tarde, mas ainda assim ela pegou um lápis, um papel, e o desabafo começou.

você é burro, cara. burro.

e, além de burro, é a única pessoa para quem eu não consigo dizer não – mesmo os seus convites vindo daqueles sms idiotas que você manda para mim e para os seus outros 15 amigos. e mesmo você assinando o seu nome embaixo de cada mensagem, para eu não pensar que o chamado veio só pra mim.

a gente já tomou cerveja juntos, dividiu sorvete e ficou até às seis na balada. nesta mesma balada você cantou olhando para mim, me abraçou no final e acabou comigo. me deixou arrasada. me fez sentir como seria estar nos seus braços, andar de mãos dadas contigo e deixar de ser sozinha.

foda é dizer não para os seus programas. eu me sinto culpada, enfeito os caracteres, coloco carinhas, peço desculpas e mando beijo no final. você nem responde.

foda é te ver e perceber que você é o cara mais simpático do universo. e o mais bonito também. mesmo com esses quilinhos a mais que você ganhou depois que se mudou para  essa cidade grande.

foda é encontrar esse sorriso que faz eu querer me declarar a você a cada vez que eu te vejo, que me recebe quando eu entro no carro, que tem assunto para uma noite inteira comigo.

você é foda. você não percebe.
eu não acredito que eu seja tão sua amiga assim. eu não acredito que você não perceba que eu sou bonita, que eu fico bonita pra você. que eu trabalho, corro, estudo, leio e acompanho tudo o que você diz. e também todo o seu facebook – que nunca tem nada, você quase não usa aquela droga.

e quando eu tento achar uma explicação para você me querer ao seu lado, sem de fato se envolver, eu percebo que não é sua hora. que você tá assim nesta tua fase bon vivant. que conhece várias. que aproveita a vida e tá gostando. e que me quer sempre simpática, querida, sem compromisso. sem ter que me ligar no dia seguinte, conhecer meus pais e se complicar de uma vez. tu não acredita em compromisso e vive dizendo isso pelo mundo. tu só acredita em você.

amizade é uma merda.
um dia eu me declaro. jogo na sua cara tudo o que fica preso por aqui e tudo o que eu tenho que transformar em cordialidade a cada vez que a gente senta na mesa de um bar.

mentira. eu não vou fazer nada disso.
porque tu é burro, cara. burro.

Ana releu tudo o que acabara de escrever.
Rasgou o papel, tomou um copo de água e foi dormir.

obs: se você gostou dessa crônica, pode ser que goste desta aqui também

o que acontece quando nos apaixonamos.

Este não é um post sobre o amor. É sobre a paixão. Favor não confundir.

Deveria ser proibido fazer algo sem paixão. Sem aquele sentimento de que, de todo o seu coração, é neste lugar em que você quer estar agora. Deveríamos ser todos presos quando agimos diferente da nossa sinceridade apenas para cumprir tabela, tempo, dinheiro ou tédio.

Vamos tentar mesmo que dê tudo errado. E o que é errado quando nós é que colocamos as regras? Ninguém vai nos punir, oras. A gente é quem decide o rumo da nossa vida. E se tem algo errado é quando falta o nervosismo no estômago, a emoção, a vontade de fazer diferente.

Essa semana, voltando do trabalho, fiquei olhando o céu. Escuro. Era noite. Como pode o universo nos dar a lua. Grande ali, que só aparece quando o sol se vai, e que ilumina mais que os postes da paulista, mais do que a gente se dá a chance de perceber. E essa coisa do dia ser claro e cheio de energia; e a noite serena, para os fortes, perto de se encher de melancolia para no dia seguinte nos tomar de novo com calor e força – isso não pode ser à toa, não pode ser só ciência ou só deus. É uma mistura que nos incita a agir, a todo momento. Porque se for ao contrário, sem a menor graça, fica difícil bicho.

A vida precisa de um pouco mais de beleza e sinceridade. Beleza no que nós fazemos. Tem que bater um aperto no coração, um rasgo no estômago, uma complexidade nos órgãos que nos faça ir. Porque eu me frusto se vou a algum lugar ou faço alguma coisa que não tem a ver com o que eu sinto. E não tem problema nenhum em sermos honestos em relação a isso. Vamos dizer o quê funciona e o quê não. Ninguém está nos pedindo sorrisos eternos. Apenas honestidade. Com nós mesmos.

Vamos trabalhar no que nos faça vibrar. Que nos encha de satisfação, que nos instigue e nos traga mais próximos de nós mesmos.
Vamos encontrar o amor da nossa vida, oras! E isso não piegas. Está todo mundo atrás disso. E se for difícil achar, que a gente continue buscando – e aprendendo e se divertindo.
Vamos criar. Porque a criação nos torna mais espertos, francos e sensíveis ao que gostamos ou não. Vamos nos permitir novas habilidades, novos lugares, mais intuição.

Eu só estou pedindo emoção. Aquela emoção que faz com que você fique até às seis horas em uma festa; aquela que te mostra que sua família são os melhores amigos que você tem; que seus amigos da época da faculdade ou do colégio te dão vida; o entusiasmo que te faz criar um projeto pessoal; que te balança as pernas de tão apaixonado que você está; que te traz calmaria quando está sozinho e que faz respirar quando experimenta algo pela primeira vez. 

É difícil. A vida é uma drama. Dos mais pesados. Tem dias que nos falta expectativa, às vezes meses, às vezes tanto mais tempo. Há momentos em que nos foge tudo. Eu sei.

Mas eu quero sentir mais dessas coisas. Paixão. O tempo todo. Em tudo. Mesmo que, para isso, tenhamos que nos tornar as pessoas mais insistentes do planeta.
Vamos comigo?

minha irmã fez 30 anos.


Minha irmã mais velha vai completou 30 anos. E 30 parece tanto quando a gente tem 15, 16 anos. E na verdade é tão pouco. Tão pouco pra entender essa vida. Tão pouco pelo o que a gente ainda quer fazer juntas.

Eu sempre digo a ela que ela está pronta. Pronta pra tudo. Porque enquanto eu gosto de ser cuidada, ela gosta de cuidar, de falar, de se preocupar. Minha irmã é racional quando me acabo na emoção.  E é para ela que eu ligo todas as manhãs. E às vezes de tarde. E sempre à noite. Não tem essa de ficar sem se falar com a gente. É todo dia, é natural.

Ela é puro coração. Minha segunda mãe absolutamente. Ama e vivencia sem medo quando eu encaro o papel da razão e tento controlar cada momento e prever o futuro.

Ela não preve o futuro, ela é o presente. Dia após dia. E isso é o que eu mais gosto dela. Minha irmã não sofre por antecipação. Ela tem equilíbrio. Essa coisa de ansiedade, que acaba com a gente, tira o sono e derruba? Ela não tem. Ela é a calmaria. Não cria problemas, neuroses ou dúvidas existenciais. Minha irmã vive.

De vez em quando, a gente se pega pensando como é que pode 5 anos de diferença não fazerem diferença alguma. Eu com 25. Ainda me sinto tão pequena. Ela com 30 e ainda tão pequena. Nós duas. Que sentimos falta, buscamos, tentamos entender tanta coisa. Esse monte de mundo cheio de gente, que por vezes nos completam e por outras tantas faltam.

Minha irmã fez 30 anos e o nosso futuro embora seja uma surpresa, será sempre nós.  Outro dia, conversando no telefone de religião, crença em deus e coisas do tipo, eu não sabia muito o que dizer. Ela também não. E sem saber no que acreditarmos, falamos ao mesmo tempo: pensamento positivo, vai dar tudo certo, vamos em frente, vamos tocando, é assim que as coisas acontecem.

É isso que somos. A auto-ajuda de nós mesmas. Melhores amigas. Sortudas de, em um mundo com tanta gente, estarmos na mesma família, com a mesma infância, história, sangue e amor. Eu tenho a ela e ela tem a mim. E eu só posso desejar felicidade, bons amigos e alegria a ela. Sempre alegria. Isso que ela já esbanja de monte, todos os dias e que me faz sempre querer estar com ela.

Parabéns, por esses 30 anos tão bonitos, Laris.
E obrigada. Por tanta coisa que você sabe bem o que é. Por segurar as pontas, pelas mensagens, companheirismo e amizade. Por estar tão presente em um mundo tão grande. Eu te amo muito.

obs: na foto, ela é a da direita.
eu no meio com elas sempre ao meu lado.

só mais uma coisa.

De vez em quando eu levanto do sofá para colocar mais alguma coisa na mala. Agora pouco foi uma toalha de rosto. Minha mãe sempre diz para eu colocar uma toalha de rosto na mala quando vou viajar. E eu sempre acabo precisando dela, do meio para o fim do percurso principalmente – quando todas as roupas já estão sujas, os guias de viagem rabiscados, grifados, as meias repetidas e o espírito nômade cansado – com uma única peça livre: a toalha de rosto que nos faz lembrar de casa, da onde viemos e para onde voltaremos – depois de toda a aventura.

São quase duas da manhã e eu parei de tentar ir dormir com tanta coisa na cabeça. Estou gostando de ver Legião Urbana na MTV, estão fazendo um tributo à banda e eu fico pensando porquê demorei tanto para gostar do Renato Russo. Porquê demorei tanto tempo para conhecê-lo. Talvez porque minha turma não ouvia, meu pai não ouvia, Araçatuba não ouvia e eu era pequena demais para compreendê-lo.

é sempre só você que me entende do início ao fim, é sempre só você que tem a cura pro meu vício de insistir nessa saudade que eu sinto de tudo o que eu ainda não vi. 

é tão estranho, os bons morrem antes. me lembro de você. e de tanta gente que se foi. cedo demais. e eu continuo aqui, com meu trabalho, meus amigos, e me lembro de em dias assim, dia de sol, dia de chuva, e o que sinto não sei dizer. 

Esta semana lembrei da minha avó durante um almoço, bem de repente ela apareceu – no sabor e cheiro de manga servida na sobremesa. E eu acho tão fantástico essa capacidade que as frutas, aromas, gostos e sensações têm de nos trazer um tempo que já foi, pessoas, momentos, e as tardes que nos reuníamos na mesa da cozinha em catanduva – cidade que era dela – para falarmos sobre a vida, bolos e namorados (meus e das minhas irmãs) que ainda não tínhamos. Éramos crianças e tudo era a minha avó. E eu deveria ter ido mais para lá depois de grande. A correria – quase sempre – é uma merda.

todos os dias quando acordo, não tenho mais o tempo que passou. não tenho medo do escuro, mas deixe as luzes acesas, lá fora. 

Como o Renato Russo sabia tanto sobre a vida? Tão cedo e profundo? E quando poderemos fazer as coisas senão cedo? Senão agora?  Obrigada por pensar, Renato.

e o teu medo de ter medo de ter medo.

é só hoje e isso passa, só me deixe aqui quieto, isso passa, amanhã é um outro dia. não é?

Eu já fui melhor em disfarçar. Hoje eu não consigo segurar e vou soltando umas frases no trabalho, em um jantar ou em um metrô descompromissado. Frases que não cabem na rotina, no dia a dia repetido de conversas que só podem ser boas, otimistas, e cercadas de planos para o trabalho, de comentários sobre o frio, chuva e trânsito. Aí quando eu vejo já foi, sabe? Já falei. Coisas desse blog, sentimentos, do que me é profundo mesmo, mas que talvez não caibam num café da tarde. O mundo não tem tempo para essas coisas. Eu vou tentar melhorar.

quem me dera ao menos uma vez entender como um só Deus ao mesmo tempo é três.

você diz que os seus pais não entendem, mas você não entende seus pais. você culpa os seus pais por tudo, isso é um absurdo. são crianças como você.

E eu vou viajar amanhã. Sair um pouco destas bandas.
E me sinto tão serena por isso. Por estar indo com as pessoas que eu mais amo e que mais me amam durante toda esta minha vida. A minha mala continua aberta porque talvez eu ainda me lembre de alguma coisa. Algumas meias, talvez. Vou pedir a opinião deles sobre a quantidade de blusas a levar, estou em dúvida. Eles sempre sabem o que dizer mesmo quando se arriscam em palpites. Isso já me faz profundamente bem.
Tanta gente ainda vai cruzar esse nosso mundo, e temos uma diversidade tão enorme de conhecimento para aprender nos próximos anos que é fascinante saber que esta fase eu passarei com eles – e os terei comigo quando chegar a um lugar pela primeira vez.

Agora vou dormir.
O que não significa que estou com sono.

*As frases em itálico são músicas do legião urbana – os nomes na ordem em que aparecem são: índios, love in the afternoon, tempo perdido, daniel na cova dos leões, a via láctea, índios (novamente), pais e filhos. 

Começar um relacionamento

A pia está limpa, a louça inteira lavada e o que vê é um cenário perfeito: sem sujeira, pratos, nada.

Começar um relacionamento é como usar a louça novamente e apoiá-la em cima de toda a pia. No começo, há o receio de bagunçar o espaço limpo. Foi tão difícil deixá-lo em ordem. Mas uma hora, tudo inicia-se da mesma forma. Primeiro apoia-se um copo. Depois uma xícara com a borra do café, bem devagar. Usa-se um prato, uma panela e alguns talheres. Na sequência, colheres, facas, garfos e quando se vê encontram-se pegadores de macarrão, de sorvete e espremedores de limão.

Aquela pia ali, limpa, já se faz cheia de coisas. Cheia de vida. Do vinho que acompanhou a massa, das bordas de pizza, dos petiscos que ainda estão doces, das cascas de limão usadas no mousse servido na sobremesa. Uma pilha. De expectativa, de medo, de tanta coisa que – se não der certo – precisará ser lavada novamente. Uma a uma. Até que se apaguem as marcas, a saudade, a falta de algo que já foi.

Os pratos. Resilientes como nós.
Resistentes até quando quebrarem.
Usa-se, lava-se e enxuga-se. No meio disso tudo, ama-se. E acumulam-se histórias por toda a parte, músicas, restaurantes, mensagens, beijos, nós. E os pratos. Que logo estão lá, enchendo a cozinha, lembrando que um dia já foram a melhor versão de nós mesmos. Panelas. Um punhado de metal, tefal e alumínio raspado várias e várias vezes até sair a casca e aparecer o fundo. Até terem toda a sua parte saudável arrancada pela esponja áspera –  que encaminha tudo o que não deu certo pelo ralo. Eu e você. Que já encontramos tantos ‘eu e você’ por aí e que insistimos e persistiremos até sujarmos cada taça, bowl e jarra que surgirem em todo o processo.

No final dessa brincadeira, estaremos lá, de luvas, fazendo espuma com tudo. Escorrendo os copos, as lágrimas, as canecas que um dia já carregaram leite, sucrilhos e sopa. Passando a mão nas beiradas da pia para tirar o excesso de água, de expectativa e memórias. De você.

No dia seguinte, o primeiro copo do dia. O gole do início, uma nova história pronta para começar. Uma repetição que a gente já conhece. Tudo igual. E por que sujar pratos que já foram limpos e curados? Por que amar quando já se foi amado? Detonado, surrado. Cansado.

Talvez, eu penso, porque já fomos felizes, emocionados e todos os adjetivos que nos transformam em buscadores oficiais da repetição. Daquilo que já vivemos. Queremos relembrar. Como é mesmo a sensação de usar pratos novos, limpos? De percorrer um caminho em que pisa-se com cuidado até se chegar no ápice da satisfação e de momentos que, de tão fascinantes, nos fazem esquecer da bagunça que irá se empilhar no dia seguinte. Quero a bagunça.

E é mesmo assim. Curioso.
Um processo exaustivo que – no meio de tanta coisa, eventos, casualidades e pessoas – nos mostra que a gente sempre consegue lavar tudo o quê sobrou e começar de novo.

o que eu sinto quando tenho o apê.ritivos

Puxa, essa é uma fase muito feliz que – tenho certeza – vou lembrar com muito carinho por toda a minha vida. A revista TPM fez uma entrevista muito bacana comigo e com o Gabriel sobre o apê.ritivos. Na condição de jornalista, eu sempre achei esquisito essa coisa de dar entrevistas. Mas nesse caso não foi entrevista, foi bate-papo, conversa, bom demais. Obrigada. Fiquei emocionada com o resultado e essa pergunta resumiu bem o nosso frescor desta época:

O que mudou na vida de vocês depois da estreia do programa?
Gabriel: Mudou muita coisa. Primeiro as pessoas que estão perto da gente, os amigos sempre vêm comentar com a gente, pessoas que não conhecemos! Fui a festa da Clara e foi como se todos os amigos dela também fossem meus amigos.
Clara: Foi como respirar novamente. Eu tenho minha rotina no meu trabalho e depois do primeiro programa as pessoas foram tão receptivas e amorosas que isso acabou criando uma nova alegria na minha vida. Eu e o Gabi sempre quisemos ter um projeto pessoal. E muitas pessoas também têm essa vontade. Então tem gente que começou a chegar até nós por causa disso. No começo achei que seria difícil mostrar a minha casa. Mas nós estamos levando de uma forma tão leve que tem sido um prazer. A gente queria ser feliz com esse projeto. O apê.ritivos foi pensado assim. O programa não é pra ser estressante. O que está dando pra fazer é uma vez por mês e a gente está mantendo assim pra fazer com qualidade, tranquilo.

No meio de tanta alegria, gravamos este vídeo essa semana apenas para brincarmos, cantarmos, transbordarmos a nossa satisfação de no meio de tantas dúvidas, sonhos, frustações e medos – nossos e de todo mundo – estarmos fazendo algo que de fato nos tira o ar e nos transforma na versão mais sincera de nós mesmos. Obrigada, mesmo.

O dia e a noite do metrô de são paulo

Hoje meu bilhete único estava sem carga. Mas eu só soube disso quando fui passá-lo na catraca do metrô e máquina avisou que o saldo estava esgotado. Droga. Minha carteira ficara no trabalho no dia anterior. Nem me lembro porquê, vaivém diário, coisas de São Paulo.

E o quê a gente sente quando estamos dentro de uma estação de metrô, longe de casa, sem um real no bolso? Nem recarregar meu bilhete eu podia porque as máquinas de regarga não aceitam cartão de crédito. E como eu iria para o trabalho?
Resolvi sair da estação. Subi uma leva de escada rolante e quando cheguei até à calçada tinha um banco bem na frente com vários caixas eletrônicos dentro. É por isso que eu gosto de São Paulo – pensei. Pela vantagem de se encontrar um banco ao lado de uma estação qualquer de metrô que me permite tirar o dinheiro e seguir a vida normalmente. Tirei o dinheiro, recarreguei o bilhete e segui. Feliz.

Esta cidade tem dessas. Dessas de oferecer facilidades mesmo quando nada parece dar certo. E não é só isso. É essa variedade de coisas que apaixonam, esses cinemas com filmes que a gente não consegue assistir em qualquer cidade, são as feiras livres nas ruas, os museus que eu ainda nem conheço, as comidas exóticas, as bebidas que aproximam os amigos que eu vejo todos os dias e aqueles que não vejo há um tempão.

Mas São Paulo também sabe oprimir e com a mesma carga de energia que consegue nos fazer feliz. E sabe qual é a parte opressiva de morar em São Paulo? Voltar para casa ao final do dia. Eu não sei explicar bem como, mas esse lugar tem uma capacidade sufocante de fazer uma reviravolta no nosso dia após às seis da tarde. Ela escurece e some. Traz apenas o caminho escuro, cheio de sombras até o metrô. E mais um monte de gente seguindo o mesmo caminho, com os rostos cansados, jornais lidos pela metade embaixo do braço, notícias velhas, sonhos velhos, um cansaço que quer apenas nos levar para casa. Logo.

A mesma catraca do metrô que nos enche de força e potência na parte da manhã é a que se fecha cheia de angústia desejando que você volte, se conseguir, no dia seguinte. É interessante comparar os rostos que seguem às dez da manhã com aqueles que voltam às oito da noite. De dia as bochechas estão coradas, o rímel no lugar, os perfumes ainda cheirosos no pescoço. À noite, a constatação de que o dia foi apenas rotina. Nada de mais. Nada de menos. O mesmo.

E o que pega mesmo é a solidão. Essa que o meu tão querido dicionário de sinônimos também chama de isolamento. É conviver com milhares de pessoas que passam ao nosso lado nas ruas, é dar risadas no trabalho, entrevistar pessoas interessante, dar e receber elogios, distribuir bom dia, compartilhar projetos e voltar para casa em um desconsolo que não há quem aguente. Apenas nós. A gente sempre aguenta. Às vezes, sentada em uma das cadeiras do metrô, tenho vontade de cutucar a senhora do lado apenas pra dizer – o seu dia foi cansativo, né? uma droga? então pode falar que foi, diga aí, grite no meio do metrô, não tem problema – nem sempre precisamos mostrar que somos as pessoas mais felizes do mundo. Diga, senhora, a todos eles, que a volta para a casa é bem sufocante, que esse horário é foda e que tudo parece longe, tão longe.

É a noite, é o caminho de volta. É o ciclo que abaixa as nossas energias para que a gente retome a condição de frágeis, sonhadores, soldados de um ir e vir que e é igual para todo mundo. São passos, um atrás do outros, que nos fazem reviver aquele dia inteiro em nossas cabeça – com ideias rodando, nos fazendo pensar que devemos diminuir a coleção de livros não lidos, que o jantar tem que ser melhor que um sucrilhos no prato e que estamos quase encontrando o amor de nossas vidas. Ou que estamos bem longe disso. É a lua que não está cheia, é aquele dia sem compromisso, sem aniversário e sem bar marcado que nos faz apenas seguir andando e andando até o metrô, sozinhos, como somos na maior parte do tempo.

É a noite voltando para o metrô de São Paulo.

Para quando estivermos tristes

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“Você faz piruetas com o corpo e com a imaginação para fugir da tristeza. Mas quem disse que é proibido ficar triste? Na verdade, muitas vezes não há nada mais sensato do que ficar triste; todo dia acontece alguma coisa, com os outros ou com a gente, que não tem remédio, ou melhor, só tem esse antigo e único remédio que é sentir tristeza.

Não deixe ninguém receitar alegrias como quem prescreve um tratamento de antibióticos ou colheradas de água do mar de estômago vazio. Se você deixar que tratem sua tristeza como se fosse uma perversão, ou no melhor dos casos como uma doença, estará perdido: além de triste, se sentirá culpado. E você não tem culpa de sua tristeza.
Não é normal você sentir dor quando se corta? Sua pele não arde quando leva uma lambada?

Pois é assim mesmo o mundo, a vaga sucessão dos fatos que acontecem (e dos que não acontecem) vai criando um fundo de melancolia. Como já dizia o poeta Leopardi: Assim como o ar preenche o espaço entre as coisas, a melancolia preenche os intervalos entre uma alegria e outra.

Viva sua tristeza, apalpe-a, desfolhe-a em seus olhos, molhe-a com lágrimas, envolva-a em gritos ou em silêncios, copie-a em cadernos, grave-a em seu corpo, nos poros de sua pele. Pois só se você não se defender é que ela fugirá, aos poucos, para além do centro de sua dor íntima.”

Trecho do livro “Receitas para mulheres tristes” mas que também serve para os homens, para todos. Estava indo dormir quando minha irmã querida me apresentou esse livro. Não consegui pegar no sono sem antes transcrever esse trecho para vocês – afinal, é bom encontrar um autor que sabe explicar (muito bem) que não há problema em a gente chorar com a mesma intensidade que sorri. 

Caderno de viagem

Hoje à tarde, abri uma gaveta da escrivaninha do quarto e encontrei um caderno em que havia relatos de uma viagem que fiz em fevereiro deste ano, na época do carnaval. É tão bacana reler o que escrevi na época, com as emoções ali frescas. São sentimentos soltos, despretensiosos, que eu não lembraria se não os tivesse anotado. Fiquei com vontade de dividir as linhas com vocês. Segue na íntegra:

Na terça-feira não paramos em Punta Del Leste. Pena. Minha mãe queria tanto conhecer a cidade. Eu igualmente. Mas o mar estava agitado, os ventos fortes demais e por isso, o capitão optou pela segurança dos passageiros. Por tamanho zelo, fomos menos felizes nesse dia. O que vem primeiro? Segurança ou felicidade? Gosto de pensar que a segunda – que nos jogarmos em um mar de riscos nos faz mais satisfeitos que um navio cheio de cautela. Na prática, isso funciona ao contrário.
À noite, antes do jantar, nos reunimos em um bar dentro da embarcação que traz música ao vivo.  A cantora não é feliz – disse ao meu pai desde o primeiro dia. Ela não sorri, em nenhum momento. E como alguém que canta pode não sorrir? Dias depois ouvimos, sem querer, ela dizer que estava cansada da rotina de trabalho no navio. A palavra, na verdade, foi esgotada. Ela queria ir embora.

A vivência diária da tripulação de um navio é bem diferente da vivida pelos passageiros. A maioria com quem conversei gosta. Eles ganham um bom dinheiro, viajam o mundo e conhecem pessoas diferentes o tempo todo. Nos corredores estão sempre sorrindo. Por outro lado, trabalham muito, ficam de 4 a 7 meses longe da família e não podem usar as áreas comuns como piscina, academia, bares e baladas. A cantora, por esses ou por algum outro motivo, não estava mais feliz e não queria mais cantar.

A terça-feira passou e com a quarta chegou Buenos Aires. A cidade veio nova pra mim apesar de já conhecê-la. Começamos pela Recoleta e pelo sol gentil que acompanhou todo o nosso dia. Foi bom estar ali com meus pais na primeira viagem internacional deles. As ruas trazem um conjunto de casas, comércio e praças acompanhadas de uma atmosfera fresca. E nessas horas, eu sempre me lembro do meu amigo Thiago – viajante apaixonado – que diz que não há melhor sensação neste mundo que a de chegar em um lugar pela primeira vez. Não era a minha primeira vez lá, mas por ser a do meus pais também tornava-se nova para mim.

Entramos em uma igreja do bairro. Como é entrar numa igreja sem fé? Como é entrar na igreja da forma como eu entrei? Movida mais pela fé da minha mãe que pela minha.
E a igreja se fez bonita mesmo assim. A beleza existe no estar com a família, com ou sem crença.

Após algum tempo, saímos de lá, seguimos rua afora e fizemos da cidade nossa.

*a foto é das anotações encontradas, que quase se perderam.
na próxima viagem de vocês, levem um caderno e anotem as alegrias e angústias. não há surpresa maior que a de, após um tempo, reviver isso tudo. 

Sobre fazer as nossas vontades ou festa à fantasia

Hoje eu cheguei às seis da manhã em casa. E quando isso acontecia na época da faculdade era porque provavelmente eu não arrumara carona para voltar mais cedo.

Mas hoje não. Eu entrei na sala com o dia amanhecendo. E mesmo sem sol,  o céu estava tão bonito, azul e com chuva. É difícil ver o céu bonito quando está garoando, mas hoje, puxa, aquele vento entrando pela porta da sacada – que eu esqueci de fechar – estava me chamando para chegar, me entregar ao cansaço depois de uma festa que há muito tempo não vivia. Eu, completamente exausta, fechei a porta devagarinho, tirei os sapatos e me deitei para curtir a noite de sono que já era domingo. Apaguei.

Ao acordar, fiquei pensando como o nosso corpo é frágil. Dormir de 6 a 8 horas por noite é tempo pra caramba, mas mesmo assim não parece suficiente. Os pés doem, os olhos ainda estão inchados, a respiração permanece lenta. É interessante pensar que para todos os nossos atos, pensamentos e energias gastas durante a luz do sol, precisamos nos deitar em uma posição vertical e ficarmos imóveis por horas e horas até que tudo volte ao lugar, ou quase.

E a festa ontem foi realmente boa. Talvez porque eu não goste mais de baladas aleatórias. Acho que nunca gostei. Ficar dançando e sorrindo a noite esperando que algo surpreendente aconteça é frustrante. Mas eu gosto de festas. E festas que eu digo é quando há um desejo sincero e até genuíno de aproveitar todas aquelas músicas com amigos, bebendo pelo prazer de beber, cantando e dançando com pessoas que você sabe que poderia passar o resto da vida juntos.

E foi assim ontem porque, de coração, eu realmente queria estar lá. Coisa que por muito tempo não aconteceu. Quando somos mais jovens (digo até uns 20), participamos de muitas coisas pelo desejo alheio e não pelo próprio – como sair em uma sexta-feira esgotada apenas porque seus amigos estão dizendo que você é careta e que se ficar em casa, envelhecerá mais rapidamente. Ou então deixar de ir em um lugar que você realmente gostaria de ir porque é aniversário de alguém em outro que – se você faltar – vai parecer que não se importa.

E o quê importa mesmo? Onde profundamente gostaríamos de estar. E se são 4 da manhã e eu não estou mais me sentindo bem, eu peço um táxi e me vou. Hoje vai ser filme, amanhã trabalho. E quem sabe na terça uma batata frita com os amigos ou um café na livraria. E se por acaso na quarta eu preferir fazer um macarrão lá em casa, é possível que seja isso mesmo. E não é individualismo. Tem coisas que a gente faz pelos outros mesmo e isso é saudável, é ter carinho com o próximo. A gente vive fazendo isso o tempo todo. Mas com o passar dos anos é mais fácil perceber que só nós podemos saber sobre o que temos vontade e ninguém mais. E se não fizermos o que de fato queremos, quem o fará por nós?

Foi por isso que ontem voltei às seis. Porque eu estava feliz e queria voltar tarde. Porque mesmo sabendo que o domingo faria do meu corpo um cúmplice da agitação da noite passada, tudo aquilo valeria a pena. Aquelas luzinhas espalhadas pela casa, o nosso reencontro de gatos pingados que nos mantém conectados depois de 3 anos de formados, as pessoas fantasiadas de personagens que por uma noite, seriam elas – livres, extravagantes e talvez até decadentes.

E estávamos todos lá pela nossa vontade. Tem algo mais sincero do que isso?
Uma amiga, horas antes da festa, me mandou uma mensagem dizendo que não iria, estava cansada, ficaria pra próxima. E tudo bem, está sempre tudo bem. Ela foi feliz na decisão dela porque é assim que tem que ser. Respeitar o corpo da gente e os anseios sem que os sábados à noite sejam pressionados por programas nos aguardando ansiosamente.

O domingo de hoje foi de nostalgia, de saudades de uma noite que acabou com o dia. A festa física, eu digo. Porque festas boas duram muitos dias, nas fotos, memórias e histórias que se estendem no espalhar das rotinas. Agora são 23h e eu ainda carrego a noite passada, com os olhos ardendo, ávidos por um travesseiro. Mas nada me faria dormir sem escrever esse texto contando todas essas sensações para vocês. Porque, com toda a franqueza, escrever neste blog é a única coisa que eu quero fazer neste momento.

Boa noite.
ou bom dia para você que está amanhecendo.
até a próxima festa.

Um homem e seu tutu.

Um homem vivia feliz com sua esposa até descobrir que ela tinha câncer de mama. A partir daí a luta começou e também a sua vontade de fazê-la sorrir. A vida mostra-se tão frágil e bonita nessas horas, por que não realizar algo completamente inusitado? Foi aí que Bob resolveu fotografar-se em diversas partes do mundo usando um tutu, aquela saia rosa de bailarina. Simples. Fotografar-se para fazê-la rir. O projeto crescer e virou livro, site, camiseta. Com toda a repercussão e ajuda, ele resolveu divulgar suas fotos pelo mundo para arrecadar fundos para organizações de apoio ao câncer de mama.

A primeira vez que eu vi as imagens, achei tudo estranho.
Na segunda vez, me apaixonei – é libertador, corajoso e bonito.

E o quê as fotos querem dizer? Algumas coisas não precisam fazer sentido, servem para sorrir e isso basta. Neste caso, as imagens de Bob conseguem mais. Elas mostram beleza, alegria e dor – sempre a dor. Essa que está na gente, que às vezes aflora e pede para agir. Obrigada, Bob – vida longa ao Tutu Project e às sensações que você nos traz com ele.

Se você gostou das fotos, tem mais aqui no site dele, e a na fan page do facebook.
E se você se animou com esse projeto, pode ser que se interesse por este aqui também.

você e eu.


Sabe o que eu estava imaginando hoje, no meio do trabalho? Não sei bem se é permitido fazer isso em hora útil, mas eu comecei a pensar na gente e foi difícil parar.

Você estava com a sua mão apoiada na minha enquanto dançávamos sorrindo, o tempo todo. E não era uma música qualquer, era Etta James – porque só eu e você sabemos que quando ela canta, os prazos não mais importam, nem as exigências que colocamos em nós mesmos todos os dias.

Em cima de nós havia aquelas luzinhas, sabe? Que são penduradas de fora a fora por cordões que balançam com o vento e competem com as estrelas – só para verem quem é que brilha mais. E continuamos dançando. Você de camiseta branca e calça jeans e eu, ah, pouco importa a minha roupa agora – nós só queremos dançar.

Ao nosso redor há pessoas igualmente serenas sob a umidade noturna. Tranquilas, aproveitando a Etta no meio daquele salão ao ar livre – grande, perfeito para o nosso espaço. Há algumas mesas de madeira, servindo champagne, vinho, água e o que mais a gente quiser. E ninguém nos olha – elas só querem aproveitar a noite e nos desejarem o melhor, sempre. O mesmo que queremos a todas elas.

Você me olha e eu me viro – aquela voltinha que de vez em quando aparece em uma dança de dois passos para lá e para cá. Não precisamos mais do que isso já que estamos bem abraçados e felizes, puxa, felizes. Há tanto tempo a gente se procura, não é mesmo? Por que não aproveitar a sensação de estar exatamente no lugar desejado com quem se quer? Há tanto tempo eu não sentia isso – essa vontade de não estar com mais ninguém. Apenas com você.

Você esqueceu os relógios, eu estou sem os brincos. O seu sorriso é tão bonito e eu espero que você goste do meu cabelo assim, solto. Me parece que sim. Vamos ficar por aqui mais um pouco, eu continuo com a mão no seu pescoço enquanto olho para o palco de frente para os seus ombros. Etta, não pare por favor.

Beijo seu rosto, beija meus lábios. De vez em quando você diz algumas coisas perto do meu ouvido que são sempre para intensificar essa minha comoção e alegria de, no meio de trabalho – com tanta coisa acontecendo – eu estar dançando com você.

Você.
Que eu nem conheci ainda.
Ou será que já?

apê.ritivos – episódio 4


Qual é a sensação de se fazer algo com um amor incondicional? Que te faz pensar: ” é  isso! sinceramente é isso”. Isso é o que o apê.ritivos faz comigo – é essa sensação, uma história com comidinhas, conversas e música que se transforma em uma poesia visual que nos faz querer vivenciar isso o dia todo.

É uma paz de saber que pessoas estão sendo tocadas, sensibilizadas e que isso será eterno, ficará para sempre como um projeto de dois amigos que começaram isso tudo com a intenção de serem felizes e de fazerem com que outras pessoas sentissem o mesmo.

Sério! Puxa!
Obrigada a vocês que compartilharam esse episódio com os amigos e que não só fizerem isso como deixaram mensagens no facebook, twitter e email dizendo que se sentiram entusiasmados e fazendo parte da nossa história. Obrigada a vocês que mostraram aos seus familiares, namorados, primos, para a pessoa da cadeira ao lado. Que assistiram juntos com os colegas do trabalho no mesmo computador. O apê não teria graça se não fosse o que vocês proporcionam a cada episódio divulgado.

A gente faz daqui, vocês potencializam daí.
É tudo muito emocionante e sou grata por isso, obrigada.

Era o que me faltava

Faz uns dois meses que ir na academia deixou de ser uma atividade prazerosa para se tornar uma obrigação exaustiva. Honestamente, sou adepta à vida saudável, pratico exercícios desde criança e doce é o que menos tem aqui em casa. Mas de coração? Ir na academia ultimamente tem sido um porre – cansei daquele ambiente fechado cheio de gente, abarrotado de fones de ouvido e de mundos que não se misturam. Talvez o horário, 7 da manhã, não ajude. Essa é a hora em que a todos estão ali de passagem, levantando pesos enquanto pensam em todo o restante do dia que está por vir como se aquele momento já não fizesse parte dele.  Para mim, levantar cedo todos os dias para ir até lá é uma batalha – não vejo mais graça, perdi.

E foi então que nesse último sábado aconteceu algo muito surpreendente. Acordei com um sol meio nublado que invadia as frestas da janela e ali, profundamente, tive uma vontade sincera de ir correr no parque. Já não estava tão cedo e nem tão tarde, me troquei e peguei o ônibus que passa aqui na av. paulista e segue direto pra lá. O fato é que eu nunca tinha feito isso antes – não sozinha, não assim com tanta vontade. Mas naquele momento a única coisa com franqueza que eu gostaria de fazer era ir até lá.

E segui. No ônibus, um casal de gringos se enrolava para entender o mecanismo da catraca. Como é difícil se locomover em um país que a gente não conhece. Como estava sendo difícil para eles entrar num transporte público desconhecido e ainda pedir gentilmente à cobradora, que não fala inglês, para avisarem-nos quando qual é o ponto mais próximo Ibirapuera. Fiquei fitando-os de longe, minha vontade era falar com eles, conversar, trazer um pouco de conforto em um situação embaraçosa que a gente também vive quando está lá fora.

Desci no mesmo local que eles e assim que se aproximaram de mim para pedir uma informação, me senti bem. Eles tinham em torno de 50 anos. Ela chamava-se Ma Teresa e ele Enrique. E assim, mesmo meio perdidos, estavam felizes da vida. Fizemos amizade, conversamos sobre o seu país, a Espanha, e sobre a cidade em que eles viviam, perto de Barcelona. Eles me seguiram até o parque e contaram sobre sua filha que estava passando uma temporada aqui na cidade, motivo de suas vindas até à metrópole. Após poucos minutos, deixei-os à vontade para andarem, desejei boa sorte e saí correndo – literalmente nesse caso.

A sensação foi de algo que eu não sentia há muito tempo. Como é diferente correr fora de uma esteira coberta com ar condicionado. No caminho – árvores, cachorros, bicicletas e toda e qualquer expressão de vida e de sol que não são prováveis de se ver em uma sala de musculação.  Puxa, como foi gostoso. É como se universo me agradecesse por eu ter feito algo com tamanha verdade. Corri como há muito tempo não corria. Com um abalo emocional à tona. Vontade mesmo.

Após uns 50 min, trombei novamente com o casal de espanhóis e o reencontro foi como de velhos amigos: oba, vocês aqui novamente! Ele com calça comprida, ela de saltinho baixo, nem se importaram com a falta de vestimenta apropriada, tinham percorrido o parque mesmo assim. Batemos mais um papo, trocamos cartões e seguimos as nossas vidas.

Parei uns metros à frente, tomei água de coco e sentei sem pressa enquanto observava um pai ensinar o seu filho a andar de bicicleta – um momento histórico. Ele caía e levantava, se emburrava, dizia que não ia conseguir. E o pai ali do lado, por vezes farto, por outras incentivador, seguia talvez sem se dando conta de quão eterno seria aquele momento na vida do menino. Os dois ali, com os altos e baixos, se entendiam.

No mesmo espaço passavam umas crianças com síndrome de down também andando em bicicletas, desta vez naquelas duplas, pela primeira vez. Elas riam alto, enchiam todo mundo de emoção. Alguns skatistas dividiam espaços uns com os outros e com o restante das pessoas caminhavam com o intuito apenas de se fazerem contentes por aquela manhã. Havia flores.

Terminei de tomar a água e parti para a minha casa. Desta vez, bastante esclarecida do que me faltava até então – aquele sentimento forte que só nos basta quando estiver em tudo aquilo que vamos fazer. Paixão. Era isso.

* foto linda daqui. 

Eu fiz 25 anos.

E saí na rua ouvindo Arnaldo Antunes.
O dia ensolarado trazia aquele vento paulistano gelado que passava pelo vestido e deixava o cabelo mais solto, assim como todo mundo na rua. E sempre que as coisas estão bonitas desse jeito eu me pergunto por quê será que estamos fazendo esse monte de coisa por aqui, neste mundo.

Comecei a andar com a lembrança da noite passada. Daquele monte de gente querida ao redor do bolo, dos abraços fortes que se repetiam com o passar das horas, das nossas mãos dadas, daquela dancinha curta que fizemos, do carinho e cuidado de tantos amigos que deixaram suas casas para irem lá – fazerem do meu aniversário mais cheio de amor.

Naquela manhã eu estava tão feliz que fiz o sinal da cruz ao sair de casa, assim, meio sem querer – passei os dedos pela testa, depois pelo peito seguindo pelos ombros esquerdo e direito. No final, dei um leve beijo no dedo indicador e disse “obrigada”.
Logo eu, que há tempos não fazia um sinal da cruz com sinceridade e que de uns anos pra cá tenho tido minha fé nas religiões tão abalada. Mas eu o fiz, livre. Para Deus, para alguém, para quem quer que seja ele, ou para mim mesma. Foi tão natural como sorrir ou me permitir a qualquer outra coisa.

Segui. Fui comer um lanche, tomar um suco, ler alguns guias de viagem. Escolhi os favoritos e ao passar no caixa, uma atendente muito querida disse que lia minhas crônicas e que gostava muito desse blog. E isso foi como um presente de aniversário. Ela comentou esses detalhes com tamanha alegria que posso dizer que falou por mim e por ela ao mesmo tempo. Fiquei muda, feliz e muda. Tão surpresa que não soube o que dizer. E o quê pode ser melhor para um escritor que ouvir que seus textos são histórias que saem por aí e criam enredos e emoção na vida de outras pessoas? É para machucar os corações, bicho. Isso deixou-me absolutamente sensibilizada. Como pode um mundo complexo nos cobrir de momentos tão surpreendentes como esse?

Felicidade é uma palavra tão grande, mas a vida é muito maior do que ela. Minha mãe sempre diz que devemos viver momentos felizes, sem nos preocuparmos com a busca da felicidade – como se esta fosse uma condição eterna que, ao alcançarmos, não nos escapará jamais. Não. A gente sabe que isso nunca vai acontecer. O que existe mesmo é isso –  uma festa em um bar, uma surpresa em uma livraria, um sol que ilumina até a noite chegar. É uma fé que aparece de repente e traz instantes absolutamente suficientes para nos fazer bem. São os 25 anos.

por que é tão bom fazer vídeos?

Em um texto você fica a imaginar quais são as sensações, os cheiros, o cabelo da personagem e se põe a pensar também como seria o rosto dela, as botas, a voz que por vezes gagueja. Como deve ser tudo isso misturado com a doçura de uma arquiteta que vive exatamente da maneira como quer? No vídeo abaixo, você nem precisa se esforçar para imaginar como seria tudo isso. Você só precisa assistir. O gostinho que vai ficar faltando é o de tomar um café com ela, bem ali no jardim.

o resgate de um guarda-chuva.

fui atrás de um livro do drummond esta tarde.
andei por toda a paulista olhando as pessoas, roupas e a cidade.
cheguei até a livraria, encontrei o que precisava mas esqueci lá dentro o guarda-chuva.

segui pela rua e quando me dei conta da perda, voltei para resgatá-lo.
e o dia estava bom. chuva é sempre bom quando estamos com guarda-chuva.
às vezes também faz bem quando estamos sem.

o fato é que na volta, tive a surpresa de encontrar um amigo querido da faculdade.
ele estava com seu pai vendo uma exposição de carros ali no conjunto nacional, um prédio cheio de cultura da cidade. e foi tão bom vê-lo ali naquele sábado chuvoso –  demos um forte abraço confortante, ele me contou do seu dia, eu falei sobre o meu aniversário que está chegando, ele comentou sobre a roda de violão que aconteceu na sua casa dias atrás e eu sobre a minha procura pelo livro.
após uns 10 minutos, nos despedimos e então fomos embora.

resgatei meu guarda-chuva e segui novamente para casa, contente de ter encontrado o amigo, que há algum tempo não via.
são paulo é grande mas muitas vezes se faz bairrista e transforma essa metrópole numa cidade do interior em que a cada esquina traz a possibilidade de encontrarmos conhecidos e pessoas que diariamente nos trazem saudade. ela é grande mas fornece uma ajudinha quando o assunto é reunir colegas queridos – já que são apenas eles que nos transmitem essa vontade de conversar sem pressa, desejando sempre o bem um para o outro.

porque são paulo é assim.
ela é muito boa, cheia de diversidade e possibilidades – mas sem amigos, não haveria a menor graça em morar aqui, por nenhum dia.

a nossa inocente distração

e eu estava assim bem cedo tentando acordar no meio da avenida paulista. coloquei os fones para ouvir chico cantar mais alto. o novo cd está uma beleza, preciso avisar o meu pai – pensei. a partir daí, viajei. e quando digo viajei, o negócio é longe mesmo. fui para lá, nem sei para onde, não me lembro, só o chico cantarolando e dizendo tantas coisas que levaram minha cabeça para outra rua, talvez para o trabalho, para a minha casa, araçatuba, ou nada disso. algum livro, o meu sono, os meus pés um atrás do outro que não mostravam mais ninguém e mais nada, apenas eu e os ouvidos borbulhando.

acho que por 7 minutos, desde a minha saída do apartamento até a metade do quarteirão da avenida principal fiquei fora. out. tão distante que se alguém gritasse o meu nome naquele momento eu iria precisar de algo mais forte para responder. saí de mim, distraída, não me pergunte como. um ipod e um monte de ideias na cabeça fazem isso com a gente.

o fato é que nos minutos posteriores, aconteceu uma batida de carro no quarteirão pelo qual eu acabara de passar. um estrondo forte que ainda me fez demorar a perceber o que estava acontecendo. as pessoas ao meu redor começaram a correr e a arregalarem os olhos para de, alguma forma, entenderem o que estava ocorrendo. olhei para trás, tirei os fones e vi os dois carros amassados e parados no meio de tudo. me lembrei do post do du lemos, no seu blog, sobre a pressa dessa cidade, que acabou causando a morte de uma ciclista na última semana.

os dois carros, provavelmente, estavam com pressa. um deles passou no sinal do vermelho e fez com que a pressa daquele dia fosse toda por água abaixo. os motoristas não foram trabalhar e provavelmente ficaram o dia todo fazendo boletim de ocorrência e correndo atrás de seguro e oficina. o que era tão importante de se fazer que eles não podiam perder? eles perderam de qualquer forma. nada era tão urgente que não pudesse esperar um sinal abrir.

e no meu mundo longe, fiquei a pensar como a rotina pode dar um basta de uma hora pra outra. eu não estava participando do que aconteceu com o trânsito naquele dia e nem estava com pressa. a culpa não foi minha. mas eu estava fora, alheada. não estava ali, no presente, prestando atenção. eu com meus fones, com o controle de tudo, pensava estar desbravando os quarteirões e o mundo da forma como eu quisesse. mas em dois minutos, dois carros se bateram para avisarem que essa serenidade é passageira. quando menos se espera, a música acaba e todos os planos feitos da saída de casa até a chegada ao trabalho podem mudar. o controle, nem sempre está em nossas mãos.

humildade e cautela – nos chamando a atenção, lembrando de que não somos os donos de nada disso aqui. o caminho, esse monte de planos e a nossa arrogância (inocente, eu sei) para julgar, cobrar, e achar que tudo podemos só porque trabalhamos, lutamos e buscamos os nossos sonhos é inútil. a natureza e a vida, não estão preocupadas com nada disso. em um minuto, a nossa rotina pode ser uma reviravolta.

estão pintando a minha casa

e isso tem sido estranho.
estou, há três dias, vivendo no meu quarto com meu computador solitário e os meus pés presos em sapatos. a cozinha esta coberta de pó, a sala forrada de jornal e de uma lona preta que deixa o piso mais sujo e cansado.

tudo tem sido uma lembrança de como meus pais faziam quando éramos crianças – empilhávamos os sofás, televisão e cadeiras embaixo de um grande lençol. um cheirinho de tinta fresca ficava à mostra durante a noite e andar descalços pela casa era proibido até que os pintores recolhessem tudo e deixassem a casa em ordem.

naquela época, era gostoso e desafiador para mim e minhas irmãs – abandonarmos o quarto individual e nos juntarmos ao meu pai e mãe para dormirmos todos juntos em meio a móveis e ferramentas acumuladas que deviam esperar a tinta secar para voltarem ao seu devido lugar. emoção era sair fora da rotina.

desde então, nunca tinha estado sozinha em uma casa enquanto esta fosse pintada. não até hoje. a sensação é a de crescer de uma vez por todas. acho que quando pintam a casa da gente e você tem que cuidar de tudo sem a ajuda de ninguém é porque o caminho é sem volta, meu amigo: a gente realmente já cresceu.

e tem que cuidar de tudo para que a casa volte a funcionar. as paredes ficam brancas novamente, uma nova história deverá ser construída ali.

mas e o medo? de sujá-las e estragar tamanho esforço. está tudo limpo, liso, com aroma de novo. a sensação é a mesma de uma virada de ano, em que a ansiedade por preencher um espaço vazio pela frente se faz caprichosa, cheia de cuidado. é difícil pregar pregos em paredes recém-pintadas. acho que precisarei de ajuda.

estão pintando a minha casa e agora só me resta esperar. daqui a dois dias poderei voltar a mesa para a sala, ligar a tv na tomada e limpar a grossa camada de cinzas que se apoiou sobre meu telefone. começarei a reerguer as cadeiras e as cortinas deverão ser colocadas de maneira que não fiquem tortas e enrrugadas. a cozinha vai precisar de um pano úmido para voltar a respirar, e as plantas lá de fora, ficarão para sempre com resquícios de tinta branca. algumas coisas, não tem jeito mesmo.

eu vou voltar e me acostumar ao novo branco. com o tempo, colocarei quadros na parede e quem sabe até me arrisque a colar um adesivo – pequeno – no corredor de entrada. tudo deverá ser refeito, dia após dia, como um caminho que não vê graça enquanto não é preenchido de fotos, narrativas, marcas boas e ruins.

estão pintando a minha casa.
e essa não será a primeira vez.

o nosso casamento com são paulo

Às vezes, vejo pessoas andando do caminho do metrô para o trabalho com um livro na mão – lendo, lendo, sem que o atravessar da rua, as pessoas e o próprio caminhar desviem seus olhares das páginas tão ávidas para serem ouvidas. Eu nunca fiz isso. Nunca até hoje. E isso porque agora eu encontrei um livro que, de fato, me fez querer estar com ele desde a minha casa até o trabalho. E quando digo isso não falo sobre estar sentada no metrô com um livro aberto, porque isso eu sempre gostei de fazer com o jornal diário. Aqui eu me refiro ao andar pela cidade, colocando uma perna em frente a outra, desviando de pessoas, de carros e semáforos com um livro aberto nas mãos.
Caio Fernando Abreu é um jornalista que era desconhecido por mim até mês passado. Esta semana, no entanto, ele me arrancou sorrisos e identificações tão fortes que me deixam assim: apta a movimentar-me apenas com ele, nos braços, cheio de crônicas e palavras que a cada lida me fazem pensar – puxa, a sensação é exatamente essa!

Abaixo, segue um dos trechos do autor no livro Pequenas Epifanias. Quem já morou em São Paulo ou passou um dia que seja aqui na cidade, sabe do que ele está falando:

“Nunca na minha vida casei, mas – imagino – minha relação com São Paulo é igual a um casamento. Atualmente, em crise. Como conheço bem esse laço, sei que apesar das porradas e desacatos, das queixas e frustações, ainda não será desta vez que resultará em separação definitiva. No máximo, posso dormir no sofá ou num hotel no fim de semana, mas acabo voltando. Na segunda-feira, volto brava e masoquistamente, como se volta sempre para um caso de amor desesperado e desesperançado, cheio de fantasias de que amanhã ou depois, quem sabe, possa ter conserto. Este, amargamente, não sei se terá. Por que está demais, querida Sampa. E sempre penso que pode ser este agosto, mês especialmente dado a essas feiúras, sempre penso que pode ser o tempo, tão instável ultimamente, sempre penso que pode ser qualquer coisa de fora, alheia à alma da cidade – para que seja mais fácil perdoar, esquecer, deixar pra lá. Não sei se é. As calçadas e as ruas estão esburacadas demais, o céu anda sujo demais, o trânsito engarrafado demais, os táxis tão hostis a pobres pedestres como eu…Cada vez é mais difícil se mexer pelas ruas da cidade – e mais penoso, mais atordoante e feio.”

*a bonita foto é do rafael fagundes.

sobre o nosso tempo, que já é tarde.

falar sobre a vida não pode ser mais interessante do que vivê-la.
sabe quando pensamos que é cedo demais para falar? para expor esse tanto de emoção, de festa, dor e amor que fica aqui dentro? isso está errado. e não é cedo demais para eu comentar que está errado. porque é errado.

minha mãe me ligou hoje, agorinha.
para dizer – na verdade, para me lembrar – que tudo o que está acontecendo agora já é agora. não é cedo demais. nós não precisaremos esperar até mais tarde, até os 26, até a passagem da crise dos trinta. até a chegada da maturidade, da experiência e dos desejos realizados. minha mãe ligou para dizer que hoje não pode jamais ser o dia das insatisfações porque se ele o for, já terá passado.

esse sentimento de não expressarmos nossas vontades e intenções porque elas poderão ser feitas no futuro…..não façamos isso. os dias passam e nós já estamos vivendo. está tudo valendo. o esquecer do guarda-chuva, o almoço, o lanche da noite, o banho, esse período que passamos em frente ao computador. isso tudo não é uma preparação. o metrô que você usou para chegar ao trabalho hoje, era exatamente ele. o que você sentiu nesse momento também já estava fazendo parte da sua vida. da minha.

esse cuidado pelo precoce, pelo tomar os pés pelas mãos pode nos custar energia. façamos reais esse monte de sensações agora, mesmo que estejamos um tanto quando incertos, medrosos e por vezes, solitários.

pela felicidade e tristeza, vamos ser nós mesmos, por favor.
às vezes eu tenho a sensação de que criamos todos um personagem, quase um ator, que não chora, não teme, não tem saudades – apenas para sermos pessoas irresistívelmente interessantes e seguras. nós não somos nada disso. a vida nos quer sinceros, intuitivos, cheios de coragem para assumirmos que muitas vezes é isso que nos falta.

mais vontades pelo dia de hoje, por elogios sinceros, por relações humanas que ultrapassem a nossa falta de tempo, de fé e sono.
em um mundo em que todo mundo fala em amor, vamos colocá-lo na frente de tudo, logo de uma vez. e deixar de pensar que as coisas que desejamos acontecerão apenas lá na frente.

tudo já está acontecendo.
o que você quer e o que não, também.

este texto na tela, você aí do outro lado lendo. que tal? quais sensações te aparecem? o que você tem vontade de fazer agora?

o mais bacana disso – depois de ler isso tudo  – é ter bem fresco na memória que a sua próxima ação poderá, se você quiser, ser realizada com a maior paixão que você jamais imaginou que poderia sentir.

aproveite isso, antes que a gente se esqueça.

*esse trecho de livro acima do post, absolutamente verdadeiro, foi tirado deste tumblr.

mesa de bar

E sentamos nós quatro naquela mesa. Depois de uns 40 minutos, chegou mais um, publicitário – um tanto satisfeito, um pouco cansado.

Pedimos cerveja, pastel e a boazinha – uma cachaça brasileira que levanta o humor, diminui a ansiedade e aumenta o volume das gargalhadas pelo galpão. Eu passei pra frente a boazinha, mas fiquei com a cerveja e o pastel.

E então começamos uma das coisas que eu mais gosto de fazer aqui nessa cidade – sentar na mesa de um bar e dividir um pouco da vida com quem não tem pressa. Não sou a maior degustadora de cerveja do mundo mas sinto apreço pela cumplicidade que ela proporciona – deixa todos menos posados, mais frágeis e sem a obrigação de dizerem que está sempre tudo bem.

é ali, quando estamos todos reunidos que descobrimos as nossas maiores fragilidades. as confissões são ditas como frases comuns, que saem entre os goles, os olhares cansados e as risadas, cada vez altas.
é ali que percebemos que quem tem um trabalho fixo quer ter mais tempo livre e quem está sem emprego procura uma atividade permanente. e que todos queremos mais viagens, mais amor, mais filmes como medianeiras. mais noites como essa. mais calma, também.

e trocamos assuntos, experiências e notícias de jornal. coisa de jornalista. falar do que já está devidamente falado e felicitar-se por perceber que todos ali sabem do que se trata. e por aí vai a noite, meu amigo. alguns acendem o cigarro, outros checam o e-mail pelo celular. sentados ou em pé, estamos todos ali juntos, compartilhando o que tem dado certo, errado e todo o resto que tem caminhado, sabe-se lá para onde.

ninguém quer ir embora, pede a saideira, a vida é curta, fica um pouco mais. temos nós, temos todo mundo, ninguém está sozinho. passa o visa, 30 reais me parece justo, o ponto de táxi é logo ali. e assim vamos todos, para casa que já está escura e se faz noite. sem copo, soltos, um pouco mais alegres, um pouco mais tristes.

sem ninguém ao redor, a mesa de bar fica lá no tempo e nós aqui sozinhos novamente. com as cortinas abertas. sempre à procura, estudando, lendo, crescendo, indo atrás. e no fundo, solitários, tentando criar coragem, paciência, cheios de redes sociais e separados por uma multidão que não se conhece e por vezes, não se interessa. esperando o dia em nos veremos novamente. nós, que com tantas indas e vindas, temos os mesmos sentimentos.

você – que está aí lendo este post – e eu.
iguais. como somos, em uma mesa de bar.