toda vez que alguém que eu gosto morre

eu tenho vontade de chamar essa pessoa que morreu pra comentar a morte dela comigo. – olha aí, bicho. você vai fazer uma falta do cacete.
você estava no auge, batalhou pra caramba, levantou cedo, fez café mil vezes, conheceu um milhão de pessoas ao longo dos dias, se apaixonou, aprendeu a cozinhar, tocou guitarra, escreveu livro, saiu de madrugada andando pelas ruas, ouviu o tilintar da garoa, bebeu vinho pra comemorar, bebeu vinho pra esquecer.

ligou para os amigos, se distraiu nas redes sociais, combinou e foi, combinou e desmarcou. se esticou no sofá pra pegar um pouco do sol. viajou. e como viajou. foi pra todos os cantos. perdeu o medo de avião. teve medo de morrer. já pensou que viveria pra sempre. quem nunca pensou.

– que merda. que merda. que merda. você poderia viver até os 90. seria mais justo. morrer velhinho. dormindo.
e você tava vivo, cara. eu te vi. vivo. dois dias atrás. que merda.
essa vida que pede um monte de coisa da gente, estudos, casa, família, carreira, correria, contas pra pagar, horários pra cumprir, ânimo pra levantar, esperança pra vencer….e do nada, pá. leva. leva feito areia. feito grão de nada. cisco de poeira. nosso corpo e nossa alma. leva feito terra. que pena.

queria uma última breja pra gente discutir essa sua morte repentina. mas, que raios!
a gente nem se despediu. teus pais não puderam te abraçar. a gente não pôde cantar uma última brega juntos. como eu poderia saber que a última vez que te visse seria uma última vez eterna.
e não é saudade que eu tenho ainda. é indignação. tô furiosa. custava alguém ter avisado antes, pô.

não vou ficar falando que o céu está em festa porque o céu também não deve estar contente com esse tanto de gente morrendo.  a verdade é que a gente morre um pouco a cada morte dessas. engole seco e guarda num cantinho sombrio das emoções. leva a vida e vai levando, mas arrastando essa tristeza que fica adormecida até a próxima morte chegar e a gente se chacoalhar de novo, rodeados por um barulho silencioso que machuca.

como é que pôde acontecer isso tudo.
foi cedo demais. que injustiça contigo e com a gente que tava aqui vibrando com seus dias bem vividos.

respirei um pouco aqui. tô como todo mundo. fingindo que tô melhor.
vou me lembrar de ti com alegria, amigo, pode deixar. vou fazer isso com certeza. vou honrar tudo que você produziu, conquistou e espalhou.
mas agora tô triste. triste pra caramba.
e a tristeza, querido…. a tristeza não dá pra adiar.

brumadinho

a gente tava lá em casa e meu sobrinho se assustou com o barulho do liquidificador. achei reconfortante ver minha irmã pegando o bebê no colo assim que ele começou a chorar. ela o encostou perto do peito e sussurrou: não vai acontecer nada, não vai acontecer nada.

quando a gente cresce os nossos pais envelhecem.
e a gente fica sabendo como o mundo funciona.
não tem ninguém pra pegar na nossa mão e assoprar quando arder.

deve ser por isso que os bebês são tão encantadores.
é porque a gente sabe que eles quase não sabem.
quando se enxerga o nosso mundo de adulto, não dá pra explicar tudo como sendo deus.
e fica difícil se conformar que existe a dor, a perda, e as coisas estranhas que arrebentam a alma.

vi as notícias de brumadinho.
mandei mensagem pra minha mãe ontem dizendo que a gente devia largar tudo e viajar. para algum lugar em que nos peguem no colo e digam que não vai acontecer nada.
morreram grávidas, casais, crianças e cachorros.
e os bebês não sabem de nada disso. eles mantém uma esperança no olhar de que tudo é seguro e justo.
não conte nada a eles, por favor. porque por meio deles a gente se distraí e às vezes passa a acreditar de novo.

feliz de nós, ano-novo!

fim de ano.

conseguimos mais uma vez, só nisso que consigo pensar.
que honra poder ir à feira hoje, dia 13 de dezembro, almoçar tapioca e uma tâmara doce depois.
comprar chocotones para dar de presente.
entregar champagne para os melhores amigos.
tomar juntos os cafés que não tomamos nos últimos meses.
poder falar que foi corrido, que foi breve, que tanta coisa aconteceu que mal percebemos este ano passar.
sentir saudades da minha avó.
pensar se ano novo combina mais com blusa branca ou amarela.
fazer planos para daqui a pouco.

vencemos os dias ruins, aproveitamos os melhores, bebemos vinho, distribuímos abraços a conhecidos e desconhecidos, demos beijos demorados e bons.
festejamos, desde o carnaval.
sorrimos para os dias com sol.
choramos indignados. enxugamos as lágrimas. tocamos.
interagimos trocando mensagem pelo whats app. marcamos cervejas pelos bares perto de casa.
assistimos filmes no sofá. trabalhamos um bocado, conhecemos novas pessoas, novos clientes, dividimos dias breves e significativos.
estamos aqui, a poucos passos de finalizar mais um.
obrigada. pela oportunidade.
de registrar com meus olhos toda essa beleza, com tudo que vem junto, de mais um ano terminado.

e então ela me disse que gostaria de ter a vida que tinha antes. 

quando não precisava sair para encontrar um possível amor de sua vida.
porque ela já o tinha. um canto seguro. alguém para mandar e receber whats app.
um toque. uma dança. tudo certinho, e desmoronou.

eu também queria a minha vida antes de 2017. o fatídico.
a minha coragem, meus pulos, meu ir e vir sem medo.
eu não sou a mesma. renasci de outra forma.
mas olha, eu continuo sendo alguém.

é que talvez o momento atual não seja o nosso melhor.
a gente não precisa existir como capa de revista em que o hoje é sempre a nossa fase mais brilhante.
muitas vezes não é. e também não sabemos se vai ser de novo.
talvez o nosso melhor tenha sido com 24 anos. com 50 ou 90. uma fase que a gente lembra com carinho. tem inveja de nós mesmos. revive o vigor na memória. a beleza que irradiava do rosto.

mas, veja.
sinta saudades. tenha apego. abrace aquele passado que te encheu de orgulho.
mas solte-o.
estamos vivos. e melhores ou piores, continuamos aqui.
com o privilégio de tentar. e viver.
o hoje pode não ser como aquele dias, mas ainda são dias.

hoje eu não tenho muito a dizer.

só que eu acho bonito essa gente que diz que não se arrepende de nada.
sabe daquelas que abrem a boca e a enchem de saliva e certeza repetindo: faria tudo exatamente igual.

eu me arrependo.
de minúsculas partes de vida e de maiúsculas.
a vida não tem rascunho. não dá pra fazer, voltar e fazer diferente.
o que tá feito se torna infinito. e não pode, por nossa vontade, mudar.

os dias são feitos de partículas de decisões inéditas e eternas.

milan kundera, do ‘a insustentável leveza do ser’ diz: “nunca se pode saber o que se deve querer, pois só se tem uma vida e não se pode nem compará-la com as vidas anteriores nem corrigi-la nas vidas posteriores”.

e também diz: “uma vez não conta, uma vez é nunca. poder viver apenas uma vida é como não viver nunca”.

só continuo admirando quem tem essa certeza de que foi tudo do jeito que tinha que ser. e que não erramos nem um pouquinho.

as pizzas lá em casa são sempre extremistas.

por vezes regadas à gargalhadas. em que bebemos meia garrafa de vinho vibrando por cada um dos dias em que nos apaixonamos e nos deixamos viver sem o trágico peso do existir.

por vezes acompanhadas de lágrimas e desconsolo. em que também bebemos meia garrafa de vinho e nos lamentamos por cada um dos dias em que nos apaixonamos e não soubemos como agir com o trágico peso do existir.

são nos fins de noites que a gente percebe que toda essa preparação para viver um grande momento na verdade significa que já estamos vivendo um grande momento. e que toda essa espera para que as coisas aconteçam já significa que elas estão acontecendo.

e são nessas horas que desmontamos os personagens que somos para sermos apenas nós.
soltos de outros. de salas. de invenções.
pedimos pizza. abrimos vinho. e seguimos assim.

o instagram é maior do que nós

já que na origem dos encontros e dos vinhos não tirávamos tantas fotos para publicar. algumas raras para guardar.

mas hoje.
é lá que somos felizes. e onde não tomamos antidepressivos.
os corpos são bonitos. e as fotos são todas alaranjadas e azuis, com um sol sublime recriado para iludir.
é lá em que os casamentos tem mais fotos do que a duração da festa da vida real. instagram não é real. são coisas e comidas sempre alegres. poses de ioga em frente de monumentos turísticos. feeds coloridos e maravilhosos que fazem de todos os seguidores meros expectadores de beleza alheia. estamos passando o dedo na tela enquanto todos passam por nós.
e nos passam pra trás.
viajam pra europa em um suspiro. e nós suspirando daqui.
ficam grávidos. tem filhos rapidamente com fotos da amamentação perfeita.
mulheres maquiadas. decorações sublimes. cachoeiras que não são deste mundo.
como ser deste mundo? como ser um deles?

nós já somos. com menos ou mais intensidade, estamos lá.
felizes. apaixonados. cheios de trabalho. correndo. bebendo cervejas artesanais. nos iates. nas praias onde ninguém consegue chegar. só nós. e nossos filtros.

vivemos no instagram sem a nossa solidão, coitadinha. essa ainda vive entre uma publicação e outra tentando nos lembrar que tanto feed feliz pode nos deixar tristes.

você está querendo dizer que não somos felizes?

somos, ora!
já olhou hoje no instagram?

nome, idade e porquê estão aqui.

primeiro dia da aula de desenho.
todos deveriam se apresentar, falar nome, idade, o porquê de procurarem o curso, o que faziam de suas próprias vidas.
eu, procurando um motivo para sair de casa às segundas e sextas, tinha me encontrado ali com lápis, régua e esquadro na minha frente.  estes também esperando que eu me apresentasse.
– vim porque gosto de escrever e acho que a escrita é uma forma de desenho.
nesse meio tempo gaguejei, esqueci de falar minha idade, falei pouco da produtora, não mencionei que não sei desenhar absolutamente coisa alguma, e quando percebi já não era mais a minha vez.
revirei na cabeça o tanto de coisa que poderia ter dito para que as pessoas me conhecessem nos minutos disponíveis a mim, mas fiquei com a sensação de que não tinha falado nada. continuava sendo uma completa desconhecida para outros tantos desconhecidos que resolveram se encontrar todas as segundas e sextas pelos próximos cinco meses daquele ano.

não sei se é permitido não falar bem em público aos 31 anos, após já se ter falado tantas vezes em outras bandas. mas, na boa, é importante se perdoar às vezes. ninguém está tão interessado na nossa vida quanto a gente pensa e nem pensando em nós nas horas vagas. me perdoei por ter tido sintomas de timidez. por me sentir insegura em um ambiente que até então não é meu.
e talvez seja hora mesmo. de desenhar outras coisas que não me são convencionais. de falar para pessoas que não estão no meu dia a dia. de ir livre e sem compromisso para um curso que não espera nada de mim, apenas que eu esteja lá, disposta a fazer algo que nunca fiz antes.

é que a gente tem essa mania de sair de casa com uma bagagem imensa nas costas, como se tivéssemos sempre que levar tudo o que fizemos até então para que os outros nos conheçam. como se fôssemos os reis da sabedoria em outras artes. e para que a gente mesmo se aprove para a nova atividade a ser desenvolvida.
talvez seja o caso de chegarmos apenas com o nosso nome, com a roupa do corpo e os lápis apontados.

amor web 2.0

enquanto você não encontra o certo, aproveite para curtir com os errados.

veja bem, amor errado.
não quero deixar o celular bloqueado na tela principal para que você não veja que eu te vi. eu acabei de tomar banho, de secar o meu cabelo, de preparar algo para comer e quero te escrever. qualquer coisa. estar disponível. mas estar disponível sozinho é muito errado.

whats’app. esse aplicativo tão rapidinho que deixou a gente tão devagar.

amor errado,
não ir ao cinema com você aos domingos à tarde é de uma falta tamanha. e você jamais aceitaria ir porque ainda não nos apegamos o suficiente. e porque você não entenderia que filmes aos finais de semana não significam casamento.

filmes. às vezes são apenas filmes com as companhias certas.

amor errado,
eu poderia te amar sem ter dois filhos com você, sem morarmos na mesma casa ou precisarmos fazer tudo em conjunto. você seria certo para mim assim. mas aí não seria você. porque você acredita que aproximação significa perder. e eu não tenho paciência para te convencer a ficar.

amor errado,
já pensei que você fosse o certo. mais de uma porção de vezes.
é que nos primeiros dias me deixei entreter porque gosto da sensação que isso causa.
é um livro novo, com páginas frescas, sem sublinhados. só você e eu.
descubro ainda cedo que você é errado. me frustro. me canso.

amor. não me peça mais para curtir o errado.
eu anseio pelo certo.

convém aproximar bocas conhecidas

e que memorizam o caminho de casa para nos acompanharem a pé.
que não deixarão jamais, nem por uma fatalidade, de enviar mensagens ao longo do dia.
– você está bem / está ouvindo minha saudade / está com fome / está por aí?

bocas que já sabem a história da nossa vida. que 2017 não foi tão bom. e que 2018 vai fazer mais sentido a partir de agora.
que gostam do quanto improvisamos no assunto que seja. china. tesouro direto. x-men.

as bocas novas impressionam. se envaidecem. são curiosas.
mas as conhecidas. ah, as conhecidas. são as que nos carregam no colo.
experimentam o vinho na nossa taça, conhecem nosso gosto de ficar por oras em livrarias e supermercados, escolhendo livros e produtos que por vezes não são comprados.

que já entendem que à noite o traje é moletom. dos mais gostosos e confortáveis.
que a especialidade é macarrão e ovo com gema mole.
e que o pão francês aos sábados e domingos vem com manteiga aviação.

bocas que já se viram não precisam esperar. porque eu não tenho mais paciência. desculpa.
desejo que todas as bocas novas venham carregadas com a trajetória das antigas.
com os beijos que não são à toa. que caminham para um cinema. para as rotinas preferidas. para os clichês.

convém amar, diria hilda hilst.
convém amar bocas conhecidas, diria eu.

notas

deitei a cabeça no travesseiro e resolvi ir até a quarta-série. me pareceu aconchegante.  | saí correndo com alguns amigos no corredor, inventei a próxima peça de teatro. não senti dores. escutei risadas muito altas. era comum gargalharmos naquela época. compramos dadinhos para comer no intervalo. refrigerante em sacos plásticos. puxamos a manga do moletom para que ele acobertasse as mãos. e trocamos de sonhos como quem troca de calçada.| peguei no sono.


dos momentos mais generosos que me ocorreram.
minha mãe vindo até meu quarto me perguntar como fazia para eu ser feliz de novo, já que ela se sentia responsável por ter me colocado nesse mundo. oras, como ela poderia ter inventado uma pessoa e agora deixá-la sem a felicidade desabando na cabeça.
foi um abraço. sim. alguém me dizer que eu não sou a única preocupada em me fazer feliz dia e noite. tem alguém comigo nesta.


me perguntaram qual é o meu diretor favorito, e eu não tenho.
como é que pode alguém que trabalha com vídeos não ter um diretor favorito.
não, não tenho.
tenho filmes, dos quais gosto mundo. dos quais poderíamos passar a noite falando. mas não me peça um único diretor porque é muito limitador crescermos com a premissa de que aos 30 temos tudo definido. a melhor viagem, a bebida preferida, a estação mais esperada, o lugar favorito. não tenho. porque muitas coisas já se passaram por aqui e eu não quero fechar esse ciclo.

como éramos fixos

– fixo chamando.
– fixo!

a única pessoa que ainda me liga no fixo. minha mãe.
pago a NET para ouvir seu “fixo” ali do outro lado e pagaria quantas vezes fosse preciso.
não cancele jamais a minha linha, senhor. tenho o fixo para ela, e somos felizes assim.

e lá começamos a falar sobre nada. sobre como acordamos, o que comemos e o que vamos assistir na tv até a hora de dormir. alguns planos ficam apenas no fixo, outros poucos a gente começa a dar andamento como um curso de pintura que quero fazer – sem nem nunca ter pintado algo em vida. espero que dê certo. torço para que eu não me arrependa. quero que as cores umidifiquem os dias esquisitos.

ontem fiquei vendo uma série de uns alunos do colegial que se encontram após sete anos de formados. me lembrei do meu colegial. de como todo mundo se amava. e tinha um brilho no olhar de conquistar, conquistar e conquistar. de conseguir os maiores sonhos. embora a gente não soubesse que quando os conquistamos é quando nos sentimos muito solitários também. porque somos adultos. e adultos não tem muito tempo. e nem a mesma saúde dos 15. (- que absurdo! meu pai diria sobre isso. você tem apenas 30 anos!)

não tínhamos Netflix em meados de 2003 e 2004. a gente se ligava no fixo. essa era a nossa distração. e então falávamos por horas na sala, ao lado do telefone, até alguém da cozinha gritar para desligar. éramos íntimos das pessoas. e digo isso sem querer romantizar a era pré-digital, mas apenas sentindo a falta de ser próxima. de termos uns aos outros de novo para conversar.
às vezes no sofá, embaixo das cobertas, com a melhor programação do mundo no controle remoto, ainda sinto. o vão. de não ter mais aquilo.

quem dera o celular nos fizesse conversar.

 

me sinto em um filme,

com o abajour e algumas luzinhas piscantes, que ganhei no natal,  iluminarem meu quarto 3×4 de pé direito baixo.
foto da viagem a ny em 2010 coladas na parede.
vontade de escrever. de cobrir meus pés gelados que acompanham de longe a garoa paulista de domingo.

também estou num filme porque tento manter a dieta como fazem as atrizes.
embora só pense em um queijo cortado em pedaços servido ao lado da minha cama. penso no porquê dos domingos nos lembrarem que não temos amigos suficientes. começo a repassar cada um dos amigos que fiz na adolescência, na faculdade, e a causa da vida adulta não trazer novos amigos.

provo um caqui doce gelado.
agradeço por ter vivido mais esse dia.
é gostoso sentir frio dentro de casa, ter um livro sempre a nossa espera como um pássaro disposto a cantar.
a solidão não é tão boa. mas faz parte do filme.
penso na minha mãe, lembro da minha avó. festejo em pensamento com meu futuro sobrinho.

tenho 10% de bateria no computador.
vou ali descansar.
ainda chove.
me sinto em um filme.

ele me pediu para que eu voltasse a escrever.

mas aí eu disse que só escrevia quando estava triste.
– então fique triste, ele falou.

ele me pediu também para que eu voltasse a amar.
– mas eu só me encrenco com o amor.
– então volte a se encrencar.

outro pedido foi para que eu voltasse a cantar.
– mas eu só cantava quando acordava de bom humor.
– então volte a acordar sorrindo.

por fim, me pediu para meditar.
– mas é algo que eu nunca fiz.
– então volte a fazer coisas novas.

volte.

inventaram uma máquina

que você pode voltar no tempo.

e não dispensar o grande amor da sua vida. a sua fase invencível. ao seu melhor corte de cabelo. ao passado. que nos faz esquecer de qualquer coisa errada e só nos lembra do que foi bom. a suas corridas na avenida paulista. as duas garrafas de vinho bebidas indevidamente. a sua resistência ao que era ruim. ao auge da sua beleza.

a você mesmo.

escrevi num postal

e quando a gente se ver, vou te entregar.

| que dia bonito fazia na praça da catedral de barcelona.
um sol alaranjado, sabe?
cheio de crianças brincando e de bolinhas de sabão que vinham não sei bem da onde.

havia também uns comerciantes em umas tendas improvisadas, vendendo objetos bem antigos e coisas diversas. em uma das tendas, encontrei postais velhos, amarelados, de muitos anos atrás, perfeitos. cheios de histórias no cheiro e nas dobradiças das laterais. até meio amassados. não poderiam ser melhores.
olhei este e na hora me lembrei de você. meu favorito.
pensei na gente ali conversando e bebendo e conversando.

é seu. desculpe a demora na entrega.
foram os dias. meus. seus. corridos.

um beijo, my best.

clara |

depois da quarta

veio cólica.

fui comprar um advil. e farmácia sempre tem aquelas tranqueirinhas que você não precisa de maneira alguma, mas leva.
esmalte azul.
foi o que eu levei desta vez.

é isso. às vezes a única coisa que você precisa é de um advil e um esmalte azul.um advil pra passar a dor e um esmalte azul pra entreter.
voltei pro escritório. fiquei ouvindo música dispersas e vídeos dispersos e no meio de tanta dispersão usei como desculpa o fato de estar exportando um projeto para divagar naquele cantor que eu gosto. e nas suas músicas. e nos seus vídeos.

deu preguiça de ir pra casa. hoje cairia bem aquela rede que eu queria colocar bem aqui no meio das câmeras e tripés. e ficar ali. conversando e dispersando com tudo o que é bom.

terça.

dia chato.

e quando o dia é chato, ligo para divagar com a minha mãe.
– vamos largar tudo e ir para itália | o que a gente pode vender lá, mel? | talvez morar numa fazenda, criar ovelhas.
–  podemos vender uvas. uva é uma boa.

e assim vamos, sem fim. projetando nossos desejos longe do pagamento de contas, do atender expectativas e do que a rotina espera.

– vamos viajar aqui nesse telefone. fazer as malas telepaticamente. tocar o ‘deixa estar que  daqui a pouco a gente volta’. ou acaba gostando de criar ovelhas e nem volta.

dia de chateações.
ótimo para pular direto para o vinho. para o banho. para o beijo.

dia de ir longe.
bem depois de terça.

cereja.

eu não posso comer uvas. daquela variedade niágara. roxinhas e pequenas.
também evito mangas. da variedade palmer. bem amarelas, cheirosas e de gosto marcante.

eu evito, mas como.
evito porque comê-las me traz uma saudade tão forte que às vezes não tô pronta para sentí-la.
mas ainda assim as como porque assim que mordê-las, minha avó aparecerá ali, na minha frente.

outro dia, só de sentir o cheiro da manga no mercado, já disse – oi, vó.
-e aí? como você tá?

e vou fazendo um diálogo imaginário na cabeça. tentando entender como podem frutas tão inocentes carregarem uma carga dramática tão cortante.

– foda, vó.
mais um natal que a gente se lembra como é mais triste a vida sem você.

e aí, na minha cabeça, eu abro um vinho e e vou me lamentando na frente dela. chorando. sendo totalmente frágil, dilacerada. e menor que aquelas frutas todas.

– me dá um abraço aqui, pelo amor de deus.
vamos esquecer que a vida morre e que o tempo corre desse jeito. eu preciso curar essa tristeza aqui, vó. soltar esse amor que eu tô prendendo a tanto tempo. e comprei uvas pra gente.

merda.
lembrança é um negócio que derruba. natal derruba.
panetone derruba. e tudo que constrói os natais na casa da minha vó me atropela de dor.
– a gente te ama. e seu amor dá mais saudade em dezembro.

sempre tinha manga na casa da minha vó.
meu vô trazia da chácara e a gente só parava de comer quando cansava.
nos natais, os cachos de uvas que ela comprava eram tão bonitos – colocados numa bandeja antiga que ela tinha – que a gente quase trocava o pernil para ficar provando uvas a noite toda.

hoje fui ao mercado.
tinham uvas e mangas.
levei cerejas.

cerejas sim. um punhado.
– porque hoje vó, já tô tão sensibilizada de saudade que a única coisa que eu vou conseguir comer são cerejas / mas olha, tem feira de rua na quinta. me espera, que logo a gente se vê de novo.

 

de volta ao bar.

sentei num bar em que íamos em 2003.
e o bar de 2003, quando você volta em 2015, te recebe tirando sarro da tua cara – “o que você tá fazendo aqui?”

a banda começou a tocar cpm22, detonautas, skank e todas aquelas músicas que a banda do colégio tocava, que o garoto que você gostava cantava, e que abraçaram toda a sua adolescência no interior. eram, na época, as melhores músicas. hoje, são portões que abrem os seus 16 anos te trazendo aquela sensação estranha de que o tempo leva os dias sem perguntar.
sentada, vi uma amiga do colégio com um namorado numa mesa distante. ela não me viu, eu não a vi. eu a vi, ela me viu. a gente não se cumprimentou. porque o tempo passa, e os cumprimentos passam também. eu não sei bem porquê.

– “quer mesmo ficar aqui?”

e o bar, me punindo por aquela visita tardia, embalou músicas e lembranças que a cada canção te cutuca dizendo que não há mais nada para você ali.
eu com quase 30. vi um garoto com quase 18. e ele parecia muito um dos meninos que machucava os nossos corações nos anos pré-vestibular. só que eu sabia cantar as músicas do bar. ele não.
cadê os novos rocks? as novas melodias?
não.
o bar só tocava o que eu conhecia.

foram 3 horas que me esqueci que estamos em 2015.
fiquei ali num sofrimento particular, vivendo os meus 15, pensando que há 12 anos a gente nem imaginava que crescer e trabalhar era deixar de falar com as pessoas e olhar para o computador.
a gente foi crescendo, mas não ter celular era tão mais interessante. eu conhecia as pessoas. elas me conheciam. a gente se encontrava e quando não se encontrava, falava por horas no telefone. eu era muito mais conectada sem iphone do que agora.
e lá vem o bar de novo me surrar com a percepção que a tecnologia só facilitou a busca de receitas no google.
o resto é solidão.

voltar ao bar da adolescência é levar uma porrada.
– “você envelheceu, não é?
só que a gente vai deixar tudo aqui, desse jeitinho, pra você se lembrar do que perdeu”.

sono

sonhei que sabia que estava sonhando.
e por saber que estava sonhando, pedi um cachorro.
e com o cachorro pedi uma estrada em linha reta com jardins.
e corremos por ela, eu, o cachorro e mais um monte de gente que ia aparecendo no caminho. e elas tocavam flautas, violinos, e jogavam basquete na quadra ao lado – que eu também pedi.

apontei pro céu e pedi algumas folhas caindo.
e comentei com um cara que sabia que estava sonhando. ele sorriu. eu o beijei.
e parti com meu cachorro. de braços abertos. correndo para os nossos sonhos, transformando tudo em movimento.

o celular tocou. acordei.
e me lembrei que sonhava.
e sabia que estava sonhando.

sobre saltos.

tem um nova vizinha, no andar de cima.
e todo dia às 5 da manhã ela começa a andar de salto pela casa inteira, se preparando para ir trabalhar.
na cama, o barulho do salto me desperta dentro de um sonho meio acordado que diz:
– tomara que ela perca o emprego / tomara que ela nunca mais use esses saltos para trabalhar.
pensei em deixar um bilhete embaixo da porta: – oi, eu sou do 72B, você pode colocar os saltos só quando sair de casa? / mas aí corro o o risco de ela se uma daquelas vizinhas que atiram nos outros vizinhos sem conversar.
– veja bem, tá frio, tá cedo,
fique com seu emprego, seus saltos, mas me deixe dormir mais uma horinha.

(talvez eu tente mesmo um bilhete)
e que raios de vantagens existem em morar em apartamentos.
ah se fosse uma casa, com uma pitangueira no fundo. sem saltos, sem vizinhos no andar de cima.

saudade de casa.
já tô precisando de novo.
me espera.

mini crônica de domingo 1

acordei às 10h, peguei o jornal na porta e comecei um dos rituais que eu mais gosto de domingo. fazer café preto, preparar tapioca com queijo e esparramar tudo pela mesa – xícaras, folhas de jornal, geleia e o que mais for preciso pra fazer uma manhã perfeita. fiquei lembrando do sonho à noite, em que eu caminhava por horas com josh radnor, o ted de ‘how i met your mother’ – a única série que eu acompanho. andando, eu falava em português até eu começar a falar em inglês e descobrir que ele não estava entendendo nada anteriormente. e andamos. andamos. andamos. e rimos. e ele foi uma ótima companhia.

minha irmã acordou.

– tô ansiosa.
– pela viagem de amanhã?
– não. pela vida. os dias estão passando. eu quero fazer um monte de coisa. e não vai dar tempo.

ela ficou em silêncio.
eu fui lavar a louça.
pensei que seria bom viajar hoje à noite para nova york. e ligar pro josh. hey, tô aqui na sua cidade, vamos marcar um café. falar de coisas por aí. e caminhar. caminhar. caminhar.

são paulo

antes de são paulo eu não tomava cachacinha.
eu não gostava tanto de vinho.
e não bebia cerveja.

não é tão difícil assim gostar de são paulo. cheguei aqui chorando. e hoje choro de tanta coisa boa que ela me trouxe. de tanta gente que conheci. de tantas garrafas de vinho que já dividi.
ontem um amigo me disse que quem vem de fora ganha mais em são paulo do que quem já está dentro. ganhar – no sentido de absorver mais emoções, de sentir a cidade mais profundamente.

se assim for, i am lucky.
porque tô sempre indo e voltando pra são paulo. mesmo quando estou por aqui.

outro dia, eu disse a uma amiga que são paulo é o sofrimento que faz bem. é a chuva quem vem quando você tá de chinelo na rua. o barulho que insiste quando você quer sossegar. a saudade que arde mais que cachaça velha.
são paulo contrai os vasos. um labirinto de gente que se conhece e desconhece. um poço infinito de maravilhas e dores. um sossego que só vem com escritas noturnas.

são paulo me abraçou. me pegou com 17 e deixou com 27. me mostrou o café do cinema ali da reserva cultural. a coxinha do veloso. o pastel de palmito da mercearia são pedro. as tardes de hambúrguer no z deli. o cinema do conjunto nacional. o rocambole da casa das rosas. o sorvete da dri dri. as andanças por pinheiros. os violões na casa do franca. os bons dias com minha irmã. os vídeos. o café da livraria cultura. os amores tortos. as gargalhadas profundas. os acasos na avenida paulista. os pés pra cima no meu sofá.
é melhor estar em são paulo com 27 do que 17. é uma bagunça mais arrumada. é a casa em ordem. os pensamentos mais livres. virei adolescente. estou benjamin button. quando mais envelheço, menos preocupada me sinto com as coisas. menos ansiedade. bem menos. vou voltando a ser criança. que às vezes, bebe cerveja.

e já pensei tanto na vida em são paulo, que estou quase com 47.
aqui tem dessas. a gente que é de fora. que é caipira. fica mais à flor da pele com as coisas. com os piscas na rua. com tanta cidade grande a cada dia que passa. com tanto dia que acontece. a gente fica meio bobo, ainda deslumbrado depois de 10 anos – com esse monte de sonhos que ela ajudou a realizar.

são paulo leva. a idade. as pessoas. o tempo.
mas deixa, ô.
deixa tudo aqui. eu vou me lembrar sempre.

está chovendo aqui dentro

Hoje tem sido uma noite atípica. Está chovendo tanto, mas tanto, que às eu acho que estou com essa vontade de chorar apenas para fazer companhia para a chuva. Para me entregar com ela, levar as lágrimas, e entregar essa solidão que chegou hoje, agora, junto com esse monte de água.

São Paulo com chuva é tão melancólica. Tão desafiadora. A chuva me traz lembranças, algumas saudades, e um sentimento muito profundo que, à noite, transborda.
Peguei o violão. Eu precisava dele. E comecei a tocar a primeira música que me veio à cabeça. Uma música que aprendi há muito tempo.
Uma das melhores decisões que tomei na minha vida foi aprender a tocar violão. Não toco muito, não toco sempre, também não sei fazer acordes complexos, mas aprendi o bastante para me aliviar o sufoco em uma noite solitária e cheia de sensibilidade. Comecei a dedilhar uma canção muito das bonitas que me ajudou a libertar esse tanto de emoção que já não cabia aqui. E chorei. Chorei pra valer. Pela primeira vez chorei tocando violão. Natural como o tempo escuro lá fora. Instintivo como beber água ou dormir. Ou amar.

E por falar em amar fiquei pensando em você. Em como, às vezes, seria bom ter você por perto com toda a sua racionalidade. Porque o que me sobra de emoção, falta em você. E acho que deve ser saudável, pra variar, estar cercada da sua maneira crua de ver a rotina. Sem muitos pensamentos sobre essas coisas delicadas da vida – como um dia de chuva cheio de história. É que é tão fácil gostar de você. Desse brilho que você tem ao me entregar um sorriso, um papo, um convite que –  mesmo com seus defeitos – eu não paro de pensar que gostar de você é uma das coisas mais sinceras que já me acorrera. Gostar de você mesmo com a sua chatice. Mesmo com essa sua vontade de ser livre sem se prender a nada – assim como eu. E mesmo que sejamos iguais neste sentido, te odeio por isso. Mas é que tantas pessoas passam pela nossa vida sem que nos apaixonamos, que você apareceu para me lembrar como é sentir tanta coisa de uma vez só. Você. Uma das coisas que me faltaram hoje.
Talvez eu consiga fazer com que a chuva leve essa saudade com ela também.
Ainda toco a música, mas o choro passou.
Por enquanto, só ficamos eu e o violão. E lá fora chove.

ps: a música tocada foi essa aí de cima.