apê.ritivos – episódio 3


apê.ritivos
já está no episódio 3.
esse é o meu preferido, fiquei muito feliz e emocionada com o resultado.

e logo, logo teremos uma novidade muito bacana para contar a vocês.
acompanhem tudinho por aqui, na nossa página do facebook: https://www.facebook.com/programaape.ritivos

obrigada sempre aos amigos, desconhecidos e pessoas queridas que divulgam o link por aí, vocês são demais!

sete

No resto de domingo que me restava, deitada na cama, após quatro dias de mãe, pai, irmã e gato, senti saudades de São Paulo.

Estou ficando louca – pensei.

Este é o meu sétimo ano aqui, nesta cidade maluca. Por vezes insuportável.
7 anos neste lugar em que levei 2 meses para deixar de chorar embaixo do chuveiro e 3 anos para me sentir em casa.

São Paulo era um mundo em que imaginava ser impossível se comprometer e quanto menos ter saudades.

E hoje, apegada a esse lugar, acho que só viveria bem em outra cidade se ela tivesse metade das coisas que existem aqui.
São Paulo deixa a gente diferente.

Nenhum lugar me deu tanta liberdade, nem me acolheu com tantos amigos, textos e opções.

Tem gente que só fala do trânsito e da distância para se chegar nos lugares. Eu me canso desses assuntos. Viver aqui é além do que conviver com os carros. Eu quero falar sobre um espaço que tem um ar de novidade todos os dias, mesmo com a repetição da vida.

Sair de manhã com o sol a pico e as mangas da camisa dobradas até o cotovelo. Voltar do trabalho à noite, com as mesmas mangas, desta vez esticadas, para que protejam a pele e corpo da garoa e do frio.

Ler jornal enquanto o táxi desliza a Avenida Paulista abaixo em direção à Rebouças. Criar a minha própria trilha sonora enquanto o ônibus cruza a Dr. Arnaldo cheio de pessoas com um punhado de sonhos que ainda estão para correr.

Esbarrar com um amigo diferente todos os dias e, conhecer cafés de rua espalhados pela cidade que acolhem assuntos, fossas, reencontros e comidinhas, que só São Paulo proporciona.

Costumo dizer que nenhum adulto pode-se dizer pronto para a vida sem antes ter morado aqui. De preferência sozinho. Para sentir o que é ter inspirações e histórias para contar a todo momento.

É respiração. Um lugar que te dá espaço funciona como um ar para os pulmões: filtra o excesso, alivia o tédio.

Nunca fui aquela pessoa que adora praia e troca as ruas de asfalto pelas de terra. Ou que substituiria São Paulo pelo Rio de Janeiro. Eu gosto de emoção desenfreada, desse caos de desencontros, desse mundo que não me coloca na mesmice.

Eu gosto disso aqui.
Do monte de coisa que aparece , dessas nuvens que não se aguentam paradas e desse mar de gente que fica o dia todo fora de casa quando o que elas mais querem, é encontrar a família ao voltarem pra casa.

Desse amor todo que não se dissolve.

*mais sobre São Paulo, aqui.

uma antiga às quintas

Isso é sensacional.
Tenho sorte de ter vídeos de arquivo como esse.

Início dos anos 90.
Larissa, Natali e Clara fazem truque em que a coca-cola aparece nas mãos, como mágica. O corte era feito na própria câmera. Na minha vez, faço confusão e pego a bebida na hora errada. Pura felicidade.

obs: reparem que a minha irmã tenta soprar baixinho o que eu devo fazer.

Poema do jornalista

Eu não quero definições exageradas.

Falar, dizer e me explicar como se eu fosse a própria resposta.
Não vou perguntar apenas para aparecer antes dos outros, que ali também perguntam.

E balbuciar como se conhecesse.
E estar da forma como todos já estiveram, na mesma posição.

Prefiro o silêncio ao excesso. Eu quero ouvir.
Quero muito te ouvir.

E já que escolhi ser jornalista, deixe-me ver você.
O cabelo, a forma como sorri.
A bochecha enrrugada, as mãos que não se aguentam esticadas.

Me faz calar. Conta a sua história, sem pressa, pode ir.
Mostra as fotos, aquelas que ninguém vê, nem você.

Faz um café pra gente. Eu quero ver se você prefere o forte ou o descafeinado.
Durante a preparação da bebida, eu vou torcer para o seu telefone tocar.
Quero saber como você fala com a sua família. Se tem carinho pela filha ou sente falta do cachorro.

Prepare as torradas, estou curiosa para ver se você coloca queijo em cima delas.

Não deixe-me distrair pela TV, pelos clichês e por aquilo que eu não quero ser.
Me faça ser mais, corrija-me se eu te ofender.

Eu não vou te interromper ou tentar entender o que é autoexplicativo.
Prefiro perder a discussão a falar para te conduzir.

Permita-me sentir à vontade para ficar.
E para perguntar quando suas explicações exclamarem por uma voz.

Se você é o meu entrevistado, eu serei apenas eu.
Da melhor forma que consigo ser.

*a foto acima é de leonália.

(Amor)as

 

Resgatei esse vídeo de 1989, em um arquivo de família que tinha lá em casa. Não há como não se apaixonar por esse dia, pelas amoras, por todo o amor. Para isso, peço a Rubem Alves que fale por mim:

O que meu coração deseja não é navegar para o futuro. O futuro é o desconhecido. E por mais que eu dê asas à imaginação não consigo amar o que eu não conheço. Pode ser que ali se encontrem as coisas mais maravilhosas – mas, como eu nunca as tive, não posso amá-las. Não sinto saudades delas. A saudade é um buraco na alma que se abriu quando um pedaço nos foi arrancado. No buraco da saudade mora a memória daquilo que amamos (…).

*a trilha do vídeo é Coeur de Pirate.

acorda

“O jovem é alegre, mas muito ansioso, não só porque teme não aproveitar o tempo mas também porque não admite a morte tanto quanto uma pessoa mais velha.

Eu tinha muito medo da morte. Quando garoto, achava o tempo todo que ia morrer. Se entrava num avião, achava que ele cairia. Sentia uma dor no joelho e achava que tinha um câncer terminal. Era um pânico permanente de que eu pudesse ser destruído. Agora, mais velho, não tenho isso. Perdi o medo de avião, por exemplo. Parece que a gente passa a acreditar mais na morte.

Quando somos novos, é quase inacreditável que vamos morrer. Na velhice, temos a noção de que é assim mesmo. A gente pensa:  se a morte não chegou ainda, o negócio é aproveitar o momento que se está vivendo”.

Caetano Veloso, em entrevista para a edição de fevereiro da revista BRAVO!

*a foto é de leonália.

Para nós

Meu pai ficou mais sensível após os 50 anos assim como eu, depois dos meus 20.

Na última vez em que estive em Araçatuba, pegamos a estrada para dar uma passada no sítio, como de costume. Na caminhonete, tocava Roberto Carlos. E taí um cantor capaz de nos derrubar juntos. A regra ali era pular de faixa a cada música triste. Do contrário, eu e ele nos desmontaríamos em plena luz do dia.

Meu pai chora com filme de drama, músicas da sua época e quando digo que, às vezes, quero largar tudo e morar em outro país.

Eu choro de saudade, de incertezas e quando ele diz que demorará muito para me visitar.

Meu pai e eu somos objetivos e nos perdemos no caminho quando a vida insiste em mostrar que é pura subjetividade. A gente não tem paciência pra shopping, blockbuster e vinho branco. O melhor mesmo é o tinto, a livraria e o parque de corrida.

Juntos, fazemos música, planos e repetições.
Juntos, lançamos previsões, erramos o cálculo, sentimos falta.
Juntos, incompreendidos.

Meu pai gosta da terra, do silêncio e de mim. Eu gosto de São Paulo, do muito e de nós.

Decisões de carreira, projetos e viagens é com ele. E assim, em meia hora de telefone, somos capazes de decidir o sul, o norte e o nosso ano inteiro. Decepções, fim de namoro ou insegurança, me resumo a dizer – é emoção acumulada, pai. E por aí ele entende que aquele não é um bom dia.

Meu pai não conversa na parte da manhã e eu só começo a dar risadas depois de um forte café preto. Quando ele não fala, eu falo por ele e então começamos a dizer com vontade de não parar mais.

Nas minhas ideias mais absurdas, ele se esbalda no sim – quero fechar esta sacada. quero mais almofadas na sala. quero molduras com nossas fotos na parede. preciso de um tênis novo. quero compor. preciso de você para mudar.

Ele topa e eu fico mimada, cheia de história.
Digo que estou pronta, ele me trata como caçula. Enrolo o cabelo, ele prefere liso. E no meio de tantas farpas, que aparecem em todas as famílias, a gente não briga.

Hoje é seu aniversário pai.

E separados por uma distância de 550 km, eu estou aqui contando a história de nós. Comemorando o seu parabéns pelo pai e filha que somos. Pela família que tivemos sorte de fazer parte. Pelo melhor que conseguimos ser quando buscamos juntos.

e por isso eu te procuro tanto
e te telefono a toda hora,
pra dizer mais uma vez te amo,
como estou dizendo agora.

Roberto Carlos (eu te amo tanto)

* Na foto, eu com 12 anos. Ele com bigode.

Freedom

“O senhor sabe o que é o silêncio? É a gente mesmo, demais.”
                                                                                        
                                                                                        Guimarães Rosa.

Entrevista de sexta

Benedito completara 40 anos de profissão como arquiteto paisagista.

Com a satisfação de se ver realizado, ele se alternava entre a vontade de ensinar e a ansiedade de não deixar nada por fazer. Escritório próprio, prêmios, livro escrito.

– O que falta Benedito?

– Falta os estudantes de arquitetura aprenderem que para se fazer um projeto de paisagismo não é preciso conhecer todas as espécies de plantas.

– Não?

– Um poeta não conhece todas as palavras quando escreve uma poesia.

Para esquecer

Meu pai nunca falou muito da sua juventude. Não sei se ele se lembra da ditadura ou se sente saudades da época em que tocava violão com o pessoal da faculdade. Minha mãe, também não. Eu não sei se ela era a garota mais do bonita do colégio ou se tinha grandes amigas com quem pudesse contar.

Chico Buarque também não revive as histórias da época em que tocava mpb nos festivais de música da Record.

Quem o escuta dizer isso no filme “Uma noite em 67”, fica claramente frustrado, chateado, bravo com Chico. Dá vontade de sair do cinema e dizer – Pô Chico! Como é que você não revive esses momentos cheios de vivacidade que qualquer um gostaria de ter vivido?

O filme lembra das histórias por ele mas o Chico mesmo, não faz questão de lembrar.

A letra de Roda Viva sai com esforço dos seus lábios que balbuciam “a roda da saia mulata, não quer mais rodar não senhor…” e se perde com o discurso do compositor que diz não tocá-la há muitos e muitos anos.

A plateia estranha, faz cara feia, duvida.

Quem assiste ao documentário fica desejando ter vivido tudo aquilo. As letras, os protestos, a amizade entre os cantores….pura nostalgia que cativa e faz do período cinematográfico.

Mas para os próprios, isso passou e ficou por lá. Não é revivido por eles todos dias quando acordam. Eles não seriam felizes se recordassem o que viveram com lamentos, saudades e tristeza.

Minha mãe me disse uma vez que esquecer é quase fundamental.

Caetano quando questionado sobre lembranças, diz que só ter saudade da idade que tinha naqueles tempos. Nada mais.

Esquecer também faz parte da história.

Jum Nakao e a melhor palestra da minha vida

Palestras não são sempre agradáveis e difíceis são aquelas que realmente provocam uma ansiedade e uma comoção sincera. Na semana passada, tive uma primeira experiência marcante no que diz respeito ao assunto.

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Com o auditório lotado, quase não consegui encontrar um lugar para sentar e assistir à palestra do estilista e diretor de criação Jum Nakao no Conad 2010 (Congresso Nacional dos Designers de Interiores). Enquanto ele preparava o aparato tecnológico para a sua apresentação, um mestre de cerimônias divertia a plateia de profissionais que batia palmas e se exaltava com o sorteio de brindes. Nada de excitante, até então.

Após sentar-se em frente a dois computadores, ele iniciou a sua conversa com um slide em que aparecia o título A Costura do Invisível e disse a todos que desejava transformar a nossa vida após a sua apresentação.

Com a fala mansa, ele começou a contar sobre uma viagem que fizera há alguns anos. No local, um amigo o convencera a dar uma volta de barco à vela em vez de entrar no que navegava a motor. Ele topou e no caminho, enquanto se encantava com a paisagem da viagem, ele mirou o outro barco que seguia com muito mais velocidade e com várias pessoas acenando. Nesse momento, seu companheiro o chamou e comentou:

– Para aquelas pessoas que estão naquele barco não existe passeio. Existe apenas linha de saída e linha de chegada.

Nesse momento, Nakao provocou o seu primeiro silêncio na plateia. E essa era apenas a introdução. A partir daí, ele entrou no assunto principal da palestra: um desfile criado por ele em 2004 para o São Paulo Fashion Week, em que todas as roupas eram de papel.

O palestrante, sem pressa, falou sobre todas as fases que resultaram nesse desfile, considerado o melhor do século. A sua principal intenção no evento de moda era a de criar um encantamento em 5 minutos (o tempo de duração da apresentação na passarela).

Mas no momento da inspiração e concepção do projeto, muitos não acreditaram na sua ideia. A dificuldade de conseguir patrocinadores que financiassem uma proposta inédita (e por isso ainda muito incerta) colocava ainda mais empecilhos no trabalho do estilista.

Depois de um árduo caminho para convencer um grupo de profissionais de que aquilo poderia dar certo, ele começou do zero, se viu diante de milhares de possibilidades, de dúvidas e dores. 182 dias e mais de 700 horas de trabalho resultaram em uma coleção linda inspirada no final do século 19. Modelos com perucas de bonecos playmobil faziam referência ao modelo industrial de produção em massa e contrastavam com a originalidade das roupas de papel que transmitiam leveza e inovação.

Depois dessa história, Nakao calou a plateira do Conad mais uma vez. Ele mostrou o vídeo do desfile em que, no final, surpreendentemente todas as modelos rasgaram as roupas de papel e ficaram apenas de collant preto provocando um choque em todos que assistiam ao evento, já que todo o trabalho tinha sido destruído. Será? Para ele, essa foi uma atitude de coragem.

As roupas, para ele, não eram o mais importante. O trabalho em grupo, o aprendizado e tudo o que foi feito para se chegar em algo inovador foi o que realmente marcou para sempre a vida do estilista. E a minha também.

Em um período em que fomos surpreendidos pela morte de José Saramago, Jum Nakao nos lembrou do que o autor português não cansava de declarar. A essência é mais importante que a superfície. O vestuário de papel não é o fim do processo, o mais importante é a capacidade de transformação para se chegar até ele.

Copa do Mundo

Copa do Mundo lá em casa era regada a pinhão e a jogo de peteca verde e amarela na rua.

A TV não era LCD, de plasma ou plana. Era de botão.

Ao lado da sala, um jardim de inverno trazia o friozinho do mês de junho que já aconchegava Araçatuba. Meu pai comentava o campeonato enquanto eu decorava os nomes do jogadores. Mamãe trazia pipoca, guaraná e alguns palpites. Minhas irmãs ajudavam com as cornetas.

Galvão já era polêmico, mas não recebia vaias no twitter. Bebeto era bom, Romário era o cara, Dunga não era treinador e África do Sul sequer sonhava com Copa.

Meu cachorro latia no quintal com os barulhos dos fogos e a graça era alternar a Globo com a Bandeirantes só para ver qual emissora dava mais sorte.

Em dia de vitória, saíamos de carro com bandeirinhas para fora e nos juntávamos a todos na principal avenida na cidade. Em caso de derrota, peteca na rua e mais uma rodada de pinhão até escurecer.

O amor é uma beterraba

– O amor é como a beterraba – ela pensou.

Suculento. Vermelho. Rosa. Quase azul.

Você olha e pensa se irá experimentar. Depende de como ele está sendo apresentado. Em pedaços, inteiro ou em rodelas grandes que se desmancham com o tempo.

– O amor é  uma beterraba. Só pode ser.  – e cutucou o legume enquanto pensava alto.

Doce. Imprevisível. Quase bom. Quase ruim.
O alívio para vontade. A insatisfação por não ser completo.

– O amor é tão próximo à beterraba – ela ainda diz.

E prova, saboreia, se diverte e por vezes reclama do sabor.
Tão dela. Tão belo. Por que há de querer mais?

Alguns passam e nem olham. Tanta cor assim, assusta. Quanta personalidade em um só legume, oras.

– Como pode o amor ser uma beterraba? – se questionou.

Autossuficiente. Fica semanas sem aparecer e nem sentimos falta. Quando volta, podemos quase morrer só de pensar que ele pode demorar a voltar.

Pobre beterraba. Tão pura e segura de si. Sabe bem a importância que tem e por isso esnoba, escolhe e se sente. Um desmanche na boca, um vermelho que demora para sair. Tanto sabor.

– Me diga como é o amor, beterraba! – ela insiste.

Ele é seu, deguste como quiser.

A história de minha irmã e eu

Quando ainda morava em uma pensão aqui em São Paulo com a minha irmã, lembro de uma vez ela me dizer que aquela época jamais se repetiria. Naquele tempo, ela se referia a nós morando juntas.

Mudar para São Paulo só foi possível pela minha irmã, disso eu tenho certeza. No primeiro ano da faculdade, enquanto eu andava cheia de dúvidas quanto a ficar em Araçatuba ou me arriscar na paulicéia, minha irmã foi  mãe, amiga, chata, briguenta e tudo que eu sempre tenho saudades.

Lembro-me que passava uma novela do Miguel Falabela, que não ficou muito famosa mas que para nós era o melhor folhetim do mundo. Wagner Moura fazia par romântico com Adriana Esteves. Ele ainda não tinha essa fama toda, mas já mostrava um quê especial para quem conseguia perceber. O fato é todas as vezes que eles se olhavam, tocava uma música do Hebert Vianna chamada Por quê não eu?, e nós suspirávamos já que sem dizer nada, sabíamos que aquela era a melhor hora do dia.

Minha irmã é do tipo que faz sopa se estou doente e recomenda desligar o computador se tenho insônia. Ela não gosta de sapatos na sala, e irrita-se quando eu falo ao telefone enquanto ela assiste televisão.

Quando nos mudamos para um apartamento há alguns poucos anos, ela retornou a dizer que aquela época jamais se repetiria. E nós assim, tão diferentes, às vezes me pergunto como moramos tanto tempo juntas. Sagitário e Peixes certamente não são ascendentes nem se trombam na Lua. Mas eles se dão bem, se entedem e sentem a falta um do outro.

Minha irmã  irá se casar e a nossa época não irá se repetir, é fácil de entender.  Amor de irmã é auto explicativo e de uma amizade que nenhuma amiga consegue substituir.

Seis anos juntas, aprendizado para todos os meus anos. Morar sozinha com ela era estar em família.
Hoje, morar sozinha e sentí-la ao meu lado.  É acertar a quantidade de Nescafé na xícara, evitar o uso de adoçantes nos sucos e comer nas horas certas  sem muito sal. É parar de assistir séries de terror à noite ou me preocupar com o trabalho do dia seguinte.

Agora que ela irá se mudar, estar com ela é saber que onde quer que ela esteja, a gente vai se lembrar.

O bom jornalismo

Dentre tantas reformas gráficas que os principais jornais já fizeram, a que eu mais gostei foi a do jornal o Estadão. Que reforma gostosa de se ler. O jornal impresso ficou tão (mais) prazeroso que tenho vontade de ligar lá na redação todos os dias para elogiar. As mudanças não foram só no layout como também na forma de dispor e explicar os fatos que constituem uma matéria. O bom jornalismo, tão característico do veículo, ficou ainda mais visível.

Uma última reportagem que li e me chamou bastante a atenção foi sobre a descoberta de um trilho de bonde na zona sul durante uma obra do metrô, em São Paulo. A matéria era muito simples, mas é exatamente neste tipo de trabalho que percebemos como se faz algo bem feito.

O texto que pode ser lido neste link, surpreende por oferecer mais do que esperamos de uma matéria como essa. O conjunto da obra é perfeitamente construído e transmitido para o leitor. O corpo principal da reportagem traz todas as informações necessárias, explica quando e como os operários do metrô acharam barras de ferro em Santo Amaro, que faziam o trajeto de uma antiga linha de bonde no local. Ao lado, uma foto antiga devidamente resgatada do arquivo do jornal, mostrava a linha que entrou em operação em 1913 em uma São Paulo completamente diferente da nossa época.

Um quadro intitulado “Para Lembrar” fornecia mais informações sobre a linha criada 45 anos antes. Abaixo um depoimento de um morador de 92 anos que andou no bonde que passava naquela linha e cobrava 50 centavos de réis pelo trajeto até a Vila Mariana.

Outro bloco de texto traçava um histórico dos bondes que funcionaram em São Paulo. Desde a criação da primeira linha até o seu fim.

E quando você acha que já sabe tudo sobre o assunto, o jornal traz um quadro que conta a história de outra linha de bondes que foi descoberta assim por acaso.

Um assunto que poderia passar despercebido como pauta, foi explorado com muita competência pelos jornalistas Elvis Pereira, Bruno Ribeiro e Marcio Curcio. Dá gosto de ler algo desse tipo, tenho orgulho desse tipo de jornalismo.

Nova casa

Depois de muitos anos, migrei da plataforma Blogspot para o WordPress. O anterior nunca me causou problemas, mas este aqui me deu a possibilidade de ter um domínio e possibilidades diversas de layout. De agora em diante, o Às Claras estará nesta nova casa.

De mudança, ainda faltam alguns azulejos e reboques que ficaram para a última hora, mas o conteúdo já será postado aqui diariamente.

Bem-vindos, tirem os tênis, fiquem à vontade.

É tão bom estar de volta.

Ano novo para jornalistas

Fim de ano tem um poder que nenhuma época do ano tem. Pensamos na vida e renovamos os planos como em nenhum outro momento.
Eu não posso falar por todos, mas vou dar algumas dicas para os jornalistas iniciantes que estão estão cheios de possibilidades para 2010.

Lembro de uma vez, no começo da faculdade, quando perguntei para um amigo que já estava terminando o curso: qual área você quer seguir, impresso, rádio, televisão, internet…? Ele respondeu: a área que me empregarem.

Isso faz sentido quando você entra no mercado de trabalho. A procura é grande, a oferta é concorrida. Às vezes dá para escolher, às vezes é preciso aguardar. De qualquer forma não faz mesmo sentido pensar em áreas. O principal objetivo é ser um bom jornalista.

Hoje eu já não vejo diferença entre os vídeos da TV e os da internet, por exemplo. Os primeiros podem até ter uma qualidade/definição melhor, mas a forma como se conta a história é a mesma. E este é o momento em que diversos sites jornalísiticos querem e vão investir em conteúdos multimídia.

E mesmo para quem quer trabalhar com reportagens em vídeo, exige-se um bom texto, com o português correto e raciocínio claro. Por isso, recomenda-se ao jornalista que jamais deixe de escrever e que antes de tudo ele seja bom com as palavras. Sair-se bem no vídeo exige-se vocação claro, mas mais do que isso, treino. O que naturalmente, se consegue com o tempo.

O mesmo vale para o rádio e para o impresso. Mais do que escolher onde trabalhar, seja um bom jornalista. Esteja disponível, principalmente no começo da carreira, para tudo. O importante é ter habilidade para divulgar um conteúdo de qualidade em diversas plataformas. Por isso, não se fixe em apenas uma, seja bom e tenha vontade de aprender a trabalhar com todas elas.

Com tempo, escolha temas de preferência (saúde, economia, política…) e depois se especialize em um ou mais deles.

Exercite a criatividade e seja um bom ouvinte. Não perca tempo, tenha sempre uma câmera fotográfica e gravador na bolsa. Você nunca sabe quando irá precisar.

Tenha uma boa agenda de contatos de papel ou eletrônica. Cultive esses contatos. Aprenda, estude e leia de tudo. Cuidar do jardim sempre abre mais possibilidades.

No mais, um pouquinho de paciência quando nada aparecer. Se você é apaixonado pelo o que faz e é um bom profissional, boas ideias e oportunidades irão aparecer. Tenha fé!

Aos jornalistas e não-jornalistas:
Feliz 2010 a todos, obrigada pela companhia em 2009 neste blog! Até queridos!

Vertigem

Há muito tempo eu não sentia a palavra vertigem. O efeito de deitar e se levantar rapidamente causador de uma confusão mental não me enganava mais. Ao acordar de manhã, era preciso apenas diminuir o ritmo ao tirar os pés da cama para ela jamais conseguir se manifestar.
A vertigem é incômoda e nos tira um dos bens de qual temos mais orgulho: o controle. Ela gira, confunde, rouba a nossa expressão e norteia os movimentos. Ela é escura e não tem graça. A sua despedida só se faz ao fecharmos os olhos bem forte, para então, ao relaxarmos as pálpebras, sentirmos a insegurança causada pela sua passagem.

Há uma semana, fui à exposição dos artistas OsGemeos em São Paulo. Não gosto de sair sozinha, mas nesse dia achei que aproveitaria melhor sem alguém para influenciar os meus palpites. A fila de espera, que me fez quase desistir, não durou mais que trinta minutos na parte externa da FAAP. Orientada a deixar minha bolsa, caderno e máquina fotográfica em uma espécie de chapelaria, me vi livre e sem riscos de ouvir chamadas barulhentas do meu celular.

Ao entrar na sala onde estavam expostos os trabalhos, mirei o olhar no fundo do espaço e me deparei com ela. Acesa, colorida e radiante como se risse de mim. Um painel azul e vermelho de dimensões infinitas se apresentava trazendo a confusão que eu pensara não mais me deparar. Diferente da vertigem negra e controladora, no entanto, esta me fazia sorrir. Sendo assim, fui a sua direção não para enfrentá-la, mas para entendê-la.

A imagem vertiginosa, sem chão nem suporte, carregava alguns dos personagens característicos dos grafiteiros. Bonecos de aparência amarelada, olhos separados, narizes largos e com expressões que ora sugerem aventura, ora melancolia. Naquela situação, os desenhos também pareciam caçoar da minha curiosidade. Eles lá, flutuando na tela como se não houvesse melhor lugar para aproveitar e eu, tentando encontrar porque até então nenhuma vertigem havia me causado tão boa sensação.

A obra dos irmãos Gustavo e Otávio quebra regras. E fugir delas, nesse caso, funciona. O ambiente criado no piso térreo da universidade dialoga com os cantos espaçados, com o teto e com o estático das paredes. A conversa se faz com todas as instalações. Até mesmo com aquelas colocadas por eles, como portas, maçanetas, caixas de som e buzinas.

As histórias, contadas por meio dos traços, quando não refletem uma liberdade invejável, trazem referências de problemas mundiais pincelados com cores brasileiras. A mistura de membros humanos com os de animais, como peixes, pavões e patos, entretêm ao mesmo tempo em que nos pede menos arrogância: não somos tão racionais assim. E mesmo que o surrealismo das cenas e o vibrante das cores nos lembrem Bosch e Matisse, respectivamente, OsGemeos nos revelam a todo momento que aquilo, é só deles.

Os artistas não pedem nossa avaliação, eles proporcionam a experiência de apreciarmos um trabalho, em que metade fica por nossa conta. A exposição só é completa se deixarmos agir os sons e os movimentos do enredo criados apenas em nossa imaginação. Ao final, os trabalhos nos sugerem mudanças de percepções. A minha sobre a vertigem, foi uma delas. Agora, tenho mais prazer de estar com ela.

Novembro

Pobre novembro.
Não tem data, sem identidade. Luzes piscantes são penduradas em seu mês; mas não para contemplá-lo. Elas esperam dezembro. Todos aguardam por ele.

A árvore da Natal também ri de novembro. Triste é ser como ele.
As bolinhas coloridas giram ansiosas pelo o que estar por vir, não por novembro.

Enquanto isso, novembro segue seus dias inconformado. Se sente só, quase um Van Gogh. Não é novembro por vocação, mas por desespero.

O apagão e os jornalistas

Na última terça-feira, o apagão na cidade de São Paulo começou às 22h. A princípio o que parecia apenas uma queda de energia se mostrou mais grave quando, ao olhar pela janela, percebi que a escuridão tomava conta, não só do meu prédio, como de toda a cidade. Outro indício de que não era um blecaute comum, foi falar ao celular com a minha mãe e a ouvir dizer que em Araçatuba também não havia luz.
Alguma coisa estava errada e essa provavelmente era a hora em que os jornais impressos se preparavam para fechar já com as manchetes prontas e com todo conteúdo organizado para ir à gráfica. Comentei com a minha irmã, que mora comigo aqui na paulicéia, que os jornalista teriam que madrugar aquela noite para reportarem o assunto no dia seguinte. Ela duvidou que houvesse tempo e replicou dizendo que fechariam a edição sem as notícias do fato caótico.

Na manhã seguinte, acordei cedo e fui correndo à porta pegar o jornal do dia. Ao ver a capa, sorri orgulhosa. Manchete da capa e duas duplas (!) traziam informações e entrevistas com moradores da cidade e com autoridades sobre as possíveis causas da pane elétrica. Na televisão, os jornais também traziam imagens dos momentos vividos por pessoas que não conseguiram ir para a casa, ficaram presas em um trânsito de semáforos apagados e sem saída em elevadores parados.

Não foi fácil a correria dos jornalistas que trabalharam nessa cobertura após um dia intenso de apuração de notícias e horas em frente ao computador. Um esforço que parecia ter se finalizado às 22h, mas que se estendeu até altas horas. Entretanto, são nesses momentos que eu tenho ainda mais orgulho da nossa profissão. No dia seguinte à confusão, a primeira coisa que qualquer cidadão curioso fez ao se levantar foi ligar a TV, pegar o jornal ou acessar a web. E ter acesso a essa informação, ainda que feita de forma automática, só foi possível graças a um profissional que se dedicou e trabalhou para tornar isso possível.

Jânio de Freitas, colunista da Folha de São Paulo, disse em um texto para o livro Jornalismo Diário, da jornalista Ana Estela de Sousa Pinto, que a essência do jornalismo é feita de uma combinação simples: “o interesse de uma coletividade em saber do mundo em que vive e a disposição de satisfazê-la, em certa medida, por quem possa fazê-la.” Mesmo que para alcançar esse objetivo eles tenham que encarar noites mal dormidas, imprevistos e corridas atrás de informações um tanto quanto obscuras.

Episódios como esse funcionam como um clique para nos lembrarmos de que a notícia não vem pronta. Ela é resultado de um processo que envolve muita apuração, investigação e vontade de se levar o fato até o conhecimento público. O jornalista é um eterno inconformado. Um profissional que se incomoda com tudo o que acontece no mundo, que precisa gritar e levar adiante o que vê. E o esforço que se dá para fazer isso é recompensado ao perceber que muitas pessoas são beneficiadas com a informação.

Não é incomum estudantes de jornalismo questionarem os já formados, se vale a pena seguir na profissão, mesmo sendo tão instável. Acho que não preciso responder, não é?

Maria Célia no Blônicas

Para quem gosta deste blog e de crônicas, tenho boas notícias.
Há um mês enviei uma crônica que escrevi aqui para o Às Claras, chamada Crônica de quarta-feira para um concurso de crônicas do site Blônicas. Este é um site que me foi apresentado ainda na faculdade e que reúne grandes jornalistas, escritores e compositores que apreciam uma boa história cotidiana, sendo esta real ou não. É o meu site favorito quando o assunto é crônica.

A grande surpresa é que a personagem da crônica enviada, a Maria Célia, parece ter conquistado os jurados por lá. Fiquei em segundo lugar e em breve receberei alguns livros em casa como prêmio. A vitória, no entanto, é nossa! Isso só significa que o trabalho feito aqui está sendo apreciado e valorizado.

Por isso hoje eu venho agradecer.
Obrigada pelas visitas, queridos! Pelos comentários e principalmente, pelas leituras! Até a próxima.