O Pequeno Príncipe



Fui ver a exposição do Pequeno Príncipe na Oca, no Parque do Ibirapuera, em São Paulo.

Estava um sol lindo, um dia em que São Paulo deu uma trégua para não nos importarmos tanto com a chuva pesada que cai nesta segunda-feira.

A mostra no piso térreo da Oca é totalmente voltada para as crianças. Muita imagem e pouco texto. Cor e desenhos do personagem projetados em paredes de formatos e tamanhos diferentes. Estrelas no chão para guiar o caminho, música ambiente e lápis de colorir à disposição de qualquer pessoa.

Engraçado é que, para elas, o mais divertido era ficar brincando com a sombra que se formava na parede ao gesticularem suas próprias mãos em frente aos refletores. Tão simples. Sem graça para qualquer adulto. Mas para as crianças, era o que havia de mais interessante.


Tem uma frase do Pequeno Príncipe que diz algo mais ou menos assim: todos já fomos criança um dia, o problema é que nos esquecemos disso.

Às vezes eu me esqueço que já fui criança. Levo tudo muito à sério, faço planos para daqui cinco anos e me envolvo em discussões bobas com a minha irmã.

Tive a sorte de lembrar da minha infância na semana passada. Fui fazer uma reportagem em uma escola pública em São Paulo, onde estudavam crianças de 4 a 6 anos. Bem novinhas. A pauta era sobre hortas urbanas e como um espaço verde dentro da metrópole pode influenciar (para o bem) a vida dos ali moradores.

Na escola, havia uma grande horta recém plantada que após ser cultivada pelos pequenos, aumentou a atenção da garotada na sala de aula. Estavam apenas eu e o operador de câmera arrumando o equipamento para começarmos a gravar. O tempo estava ficando nublado e eu comecei a me preocupar com a luz, com uma possível chuva e com os imprevistos que ainda poderiam vir. Ao mesmo tempo, as diretoras da escola estavam aflitas e ansiosas para começarmos logo as entrevistas. No meio daquela preocupação e correria, uma criança de uns 5 anos, chegou perto de mim e falou:

– Olha! Você é uma princesa.

Como a gente pode esquecer como é ser criança? Enquanto adultos nos vemos cheio de defeitos, ansiosos, acima do peso, baixinhos, com o cabelo desarrumado, com um monte de coisa para ver, resolver, ler e elas ali, tão esperançosas, nos enxergam como adultos que na verdade são príncipes e princesas, em um castelo em que microfones e bloquinhos de repórter são enfeites em um mundo de brincadeira.

Sorte a minha. Fui princesa por um dia e consegui uma reportagem inspiradora.

E caso você se perca nesse mundo de adulto cheio de número e projetos, visite a exposição da Oca e depois pergunte a uma criança o que ela achou.

Vídeos para a web – parte 2

Retomando o assunto do post anterior, eu estava dando uma olhada em formatos diferentes de vídeos para a web e após muitos cliques, encontrei coisas bem interessantes.

O primeiro deles é um que não consegui colocar aqui no blog porque eles não disponibilizam para usuários, mas se você for bem curioso (e eu torço para que seja) , pode ver direito no site deles.
Vale muito a pena!

Vamos lá? Acesse o site Cia de Foto, e clique no link que fica na parte de cima da página chamado “Ciaquest”. Logo após (se você chegou até aqui vá até o fim, hein!) clique na imagem que aparece na parte esquerda da tela (um menino de costas em um pano vermelho). A partir daí, espere o vídeo carregar e delicie-se. Uma combinação de fotos, vídeos e uma boa edição, faz do material, único.

Já este que segue, é mais um trabalho de arte e design. Igualmente original, dinâmico e com uma mensagem que faz valer assistir até o fim. O vídeo pergunta qual é o significado da vida. O mais interessante é que o próprio vídeo responde, sem dizer uma palavra.

Aproveitem.

the Meaning of Life – stop motion from Vytautas Alechnavicius on Vimeo.

Fim de semana

Vou dar uma colher de chá para quem não sabe o que fazer no fim de semana:

Cinema – Bastardos Inglórios (ação) / Te amarei para sempre (romance)
Exposições – Leda Catunda/ Um acervo em preto e branco: fotografias/ Matisse Hoje (as três estão na Pinacoteca do Estado) /O Pequeno Príncipe (Parque do Ibirapuera)

Será que eu vou conseguir ver tudo?
Se você conferir um desses, me conte depois.

Para um típico esperto

Recém-formado que é o típico recém-formado esperto se inscreve em tudo o que aparece. Festivais, concursos, seleção de emprego, sorteio em fila de banco e até loteria. Para alcançar o sucesso vale tudo, ou quase.

Essa saga começa já na faculdade, principalmente no último ano, quando a ansiedade se mistura com estresse e o medo de não conseguir um trabalho bom, que pague bem e seja satisfatório.

Esse blá-blá da introdução é só para dizer que ser um profissional atento vale sempre à pena. Não é porquê se está empregado e com uma foto da família na mesa da empresa que você não participar de projetos e oportunidades paralelas.

Há uns dois meses fiquei sabendo de um concurso realizado por um projeto cultural chamado Favela É Isso Aí. O projeto é realizado por uma ONG de Belo Horizonte que apóia a produção cultural das vilas, favelas e aglomerados. Sendo assim….ela incentiva a realização de vídeos, idéias e afins que divulguem ações de populações de baixa renda.

Taí, gostei. Resolvi inscrever um documentário que fiz no ano passado, com um amigo chamado Thiago Planchart. Menino bom das ideias, ele me apresentou um lugar super legal no Brás que tirar moradores de ruas da situação de risco ao ajudá-los a gerar renda por meio da venda de uma revista.

Fizemos um vídeo chamado Ocas – Saindo das Ruas e com o envolvimento de muita gente, câmeras, editores e amigos, o resultado ficou bastante satisfatório. Vou me dar ao luxo de fazer um jabazinho: ficou mesmo muito bom.

A boa notícia disso tudo é que o projeto foi um dos selecionados para competir no Festival que acontecerá ainda este ano. Dedos cruzados, pensamento positivo e desde já, muita alegria. Nosso vídeo, já está se espalhando e levando esse bonito projeto do Brás para outras regiões do país.

Moral da história?
Vale a pena. Façam propaganda do talento de vocês, dos seus projetos, do que vocês tem de melhor. Eles podem repercutir por aí, divulgar ações eficientes e auxiliar milhares por este mundão.

Olimpíadas 2016: Contra ou a favor?

Não quero fazer parte do time que está torcendo para que tudo dê tudo errado nas Olimpíadas de 2016 no Rio de Janeiro para me gabar e dizer: eu avisei! Não vou dar esse gosto ao presidente Lula que faz questão de dedicar discursos aos pessimistas de plantão. Também não vou levantar a bandeira do patriotismo e proclamar que com o investimento de R$28 bilhões na realização do evento, tudo no país irá funcionar.

É impossível ser totalmente contra ou a favor dos jogos olímpicos no Brasil. Engraçado que algumas pessoas se sentem acanhadas ou até culpadas por ainda não terem definido uma posição exata sobre a situação. Não há o que decidir e eu vou explicar o por quê.

O incentivo à formação de novos atletas virá de forma inédita no país. Não é obrigatório que o país sede das Olimpíadas ganhe medalhas de ouro em todas as modalidades, porém ele não vai querer fazer feio diante de todo o mundo. A ambição é canalizar os esforços na busca de craques que provem que a própria nação, que podemos sim, ser uma potência olímpica.

Já o setor turístico em 2016 deve aumentar em 15% em relação a 2015, de acordo com a EMBRATUR (Instituto brasileiro do turismo), principalmente pelo Rio de Janeiro ser a o principal destino turístico do Brasil, ocupando 35% das preferências dos estrangeiros. Com o investimento em infra-estrutura, a economia também vai comemorar. Muita gente já fala até em diminuição das favelas e dos índices de violência, melhora no sistema de saúde e ampliação do sistema público a fim de integrar as diversas regiões da cidade. Com tantos benefícios, o Rio, que já foi capital do país, poderá novamente ser motivo de orgulho e diminuir o preconceito com o lugar em que as diferenças sociais afloram diariamente.

Com essa maré de bons motivos, há razões para mais reflexão? Em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, o pesquisador de história social do esporte, Hilário Franco Junior, afirma que um mês de Olimpíada não será capaz de “reverter uma condição de 500 anos” do país. As suas preocupações são claras. Nenhuma nação muda da noite para o dia. As tensões políticas e sociais não vão desaparecer, os brasileiros não se tornaram mais éticos e educados, e o crime organizado não vai declarar paz por causa da festança.

Muitos cariocas, inclusive, se sentem inseguros com tantas promessas de bonança porque muito do que foi prometido no Pan-Americano de 2007, não foi concretizado até hoje. A ampliação do metrô e a despoluição da Lagoa Rodrigo de Freitas são algumas delas. Com a possibilidade de sediar os Jogos Olímpicos, tudo irá melhorar?

Os benefícios ao país são óbvios se esses se manterem após 2016 e não deixarem grandes elefantes brancos parados por todo o Rio de Janeiro. Por esses motivos não há como se definir de um lado ou de outro quando a questão apoiar ou não os jogos no Brasil. O melhor a fazer estar atento às estratégias adotadas pelos governantes ao prepararem a nação para um evento de proporções grandiosas. Além do que já foi falado nesse artigo, não há como esse esquecer a corrupção que poderá sustentar todos os esforços a fim de garantir o sucesso olímpico.

Sendo assim, prefiro concordar novamente com Franco Junior quando ele diz que “temer o desvio de dinheiro público sob o pretexto dos jogos, não é neurose, é simples conhecimento da história nacional”. É esperar para ver.

O 147º

Passar o link do blog para alguém é sempre uma tarefa difícil.
Com este post, eu acumulo 147 atualizações neste Às Claras. De vez em quando dou uma olhada em textos antigos para saber o que eu pensava em cada época da vida. Alguns são bons, bem bons. Outros, já não fazem sentido. Mas lá estão e ficarão para sempre registrados.

O difícil de passar o link do blog para alguém é que nem sempre o último post reflete o nosso melhor. Nem sempre o último é aquele mais inspirador e o que foi escrito no dia em que você estava com boas ideias fervilhando.

Nem sempre a crônica tem o final esperado, ou tem algum final, de fato.
Ou às vezes o texto e as notícias são levadas para um lado pessoal que foge do interesse público. Mas ora…blogueiros tem os seus dias também.

Continuaremos passando os links dos nossos blogs e correremos os riscos.

Mas desta vez, para quem está entrando aqui pela primeira vez, i hope you enjoy it.

Obrigada

Quando se é jornalista é difícil não se envolver com a história do entrevistado. Muitas vezes, antes de se realizar uma grande reportagem, conversa-se com uma fonte repetidas vezes até que não se perca nenhum detalhe daquilo que se quer contar.

Há fontes que ficam tão agradecidas de poderem de, alguma forma, tornarem públicas as suas histórias, que oferecem pequenas lembranças ao jornalista. Muitas vezes esse presente vem em forma de telefonema, de um abraço ou até de um chocolate.

Para uma matéria que estou fazendo sobre jovens que querem ser políticos, entrevistei um menino de 18 anos, natural de Cachoeira Paulista. Engajado e determinado, ele pretende um dia, ser presidente da República.

Desta vez, surpreendemente, ao final da entrevista, o jovem foi até a sua mochila e, quando voltou, apareceu com uma grande bandeira do Brasil. Dessas que a gente sempre tem vontade de comprar na Copa do Mundo, mas deixa quieto e acaba suspirando pela bandeira alheia.

Ele quer ser político, quer melhorar o país, quer ser diferente. Nos entregou o símbolo do país para, de alguma forma, selar esse compromisso.
Eu, que nunca tive uma bandeira dessas em casa, fiquei surpresa e feliz.

– Quer mesmo nos dar a bandeira? Não irá fazer falta?

Ele não quis conversa. Dobrou o pano em quatro e deixou em nossas mãos.
Obrigada.

Aforismo de sexta-feira

Casa noturna no interior chama- se Boate.
Casa noturna na capital chama-se Balada.

Pagar mico é dizer balada em Araçatuba e boate em São Paulo. Jamais.

O fato é que minha irmã disse uma frase esses dias que faz todo o sentido, até para quem foi em uma casa noturna apenas uma vez na vida. E já que estou na capital, vou respeitar o nome usado.

Todo mundo que está na balada fica a balada inteira esperando a balada começar.

Vamos ver:

Você chega na balada com uma amiga e espera as outras quatro amigas chegarem ao local (isso também vale para os homens);

Após as amigas animadíssimas chegarem, você fica ansiosa para saber a que horas irá tocar sua música preferida.

Ao tocar a música você fica pensando se naquela noite irá encontrar o amor da sua vida.

E espera, espera, espera.

A balada acaba.

Sem título

O pior castigo dado a um blogueiro é ver seu blog desatualizado.
São as ideias que surgem todos os dias esperando um papel (tela) para serem concretizadas. E essas borbulhando na cabeça, gritando, procurando um espaço.

Perdoem esta blogueira atarefada! Os posts muitas vezes demoram… mas vem com créditos a mais.

E eu volto já.

Sábado, pautas e São Paulo


Saí no sábado à tarde em busca de pauta.
Ir atrás de pauta é como procurar um cachorro perdido. Olha-se nas ruas, nas livrarias, dentro dos carros, das lojas e até embaixo do viaduto. Pergunta-se para o taxista, observa-se os movimentos dos ciclistas e concentra-se para não perder nenhum latido.

Não é sempre que se tem boas ideias ao sair na rua; mas em casa é que eu não iria encontrar.

O dia estava lindo como raras vezes se vê por aqui. São Paulo desconhece as quatro estações do ano. Aqui é inverno com lembranças de primavera, outono e verão. O sol daqui é cercado de prédios, de cinza, de objetos. Mesmo assim, faz festa quando aparece. Não há vista mais bonita do que a de São Paulo em um dia de luz, sem a chuva e a garoa clichês da cidade.

Encontrei alguns cães perdidos. Guardei na bolsa. Eles latiram diferente, achei que valiam a pena, trouxe para casa.

Mas o que valeu mesmo foi o caminho de ida e volta para casa. As sacolas balançando nas mãos das pessoas, refletindo o ritmo dos seus passos apressados. A atenção das crianças voltada para as bolinhas de sabão que saem de uma casa de artesanato da Avenida Paulista, e a serenidade de uma estátua humana se fazendo de difícil quando cutucada por fotógrafos amadores.

Um pouco de São Paulo que pensando bem, valem mais que os latidos que eu estava procurando.

Srta. Zanali

Eu não tenho um dos sobrenomes mais difíceis que já se viu por aí. O meu Vanali nem se compara ao Nachtergaele de Matheus, ao Gianecchini de Reynaldo e não chega perto do Birkheuer da Letícia.

O Herchcovitch de Alexandre então, dá gargalhadas de mim.

Mesmo assim, ninguém diz o meu Vanali.
O mais próximo que se chega é Vanalí. Como se houvesse um acento no final.

Também já surgiu o Vãnali, com uma pronúncia reta.
Já quando dizem Vanilli sempre acho que é um novo sabor de sorvete.
Vanila também já aconteceu. Talvez o nome de um remédio.

Vanalli com dois ‘eles’ é o meu alter-ego. O Google já me enxerga como duas pessoas diferentes: uma é a Clara Vanali, a outra Clara Vanalli.

E está certo, sem brigas. Ninguém se convence de que Vanali, não dobra a última consoante.

A gota d’água foi na minha última passagem de ônibus comprada por telefone. Mesmo após soletrar o sobrenome, retirei o bilhete e me deparei com a palavra Zanali. Radiante! Gritando um Z que eu nunca tinha visto na minha vida.

Não é fácil ser Jonathan Haagensen, Giovana Ewbank e Anne Hathaway.
Mas Clara Vanali é simples. Não há penduricalhos, não há repetições.

No entanto, às vezes também não acertam o Clara, e dizem Karen, Cara, Lara e porquê não com o Z novamente, em Zara. Mas isso já é assunto para outro post.

São Paulo após às 18h

Sentada no ônibus, eram 19h.
Liguei a música e comecei a desorganizar as ideias.
A semana estava apenas começando e há dois meses eu não voltava para a minha casa, em Araçatuba.

É fácil não gostar de São Paulo após às 18h.
O trânsito, o cheiro, o trânsito, a sujeira, o trânsito, o cinza. O vaivém da multidão esperando a vez de embarcar.

O fone de ouvido na orelha das pessoas. A abstração.
O meu fone de ouvido.

O silêncio do caminho e o barulho do motor são irritantes. Além deles, só os burburinhos dos jornais dobrados, as páginas de revistas velhas de celebridades sendo viradas e os livros gritando as letras por meio das lâmpadas velhas do Armênia 719P

Encostei a cabeça na janela e quis lembrar de um momento muito bom. Algo fora, além.

16 anos talvez. Eu ainda tinha o cabelo comprido, bem comprido. Preto.
Saíra um anúncio no jornal dizendo que haveria um show do Peninha na cidade. Últimos lugares, corram.

O local da apresentação seria em um restaurante chamado Kabana. Na época, um sucesso. Ambiente aberto, quatro espaços – dois externos, dois internos.

Consegui os ingressos, fomos eu, pai e mãe. Não lembro porquê, minhas irmãs não foram.
Como compramos na última hora, só nos sobraram lugares lá no fundo, mas de frente para o palco.

Estava frio em Araçatuba. Eu vestia uma blusa de gola branca. Sem maquiagem, só um batom vermelho. Sentamos os três, era uma alegria só. Não lembro quando isso aconteceu de novo – ir a um show apenas com meus pais.

Eles pediram chopp, eu já iniciava o meu hábito de tomar água com gás.

Lugar lotado e nós três estávamos bem, muito bem.
Música ambiente e Peninha não demorou a entrar.

Ele cantou “Sozinho”, “Matemática” e se estendeu por mais 1h30 naquela sexta-feira. Ele também estava sereno e vestia uma blusa branca. Sorria e cantava.

A nossa mesa estava longe e já quase ao final do show, ele nos olhou, apontou com o dedo e deu um longo aceno. Cutuquei o meu pai – olha, é aqui! Eu retornei o tchau e minha mãe sorriu satisfeita.

Não me lembro que horas saímos do show.
Era cedo ou tarde, não sei. Reproduzi a história do aceno umas cinco vezes.

A bateria do meu ipod acabara e o relógio da Av. Paulista marcava 20h. Em ponto.
Ajeitei o cabelo amassado, evitei colocar a mão nos olhos e desci.

#Prontofalei

Os dois últimos finais de semana somaram dois filmes ruins. Não gostei de Coração Vagabundo. Não gostei de Se Nada Mais Der Certo.

No primeiro, Caetano é mais interessante quando canta. E também mais simpático do meio para o fim. É engraçadinha a parte em que ele diz não gostar de doce japônes. A única parte engraçada, na verdade. E a sua mulher, que agora é ex, é uma chata.

O filme não é gravado de forma convencional. A câmera treme, os planos são fechados e muito escuros. Mas não é isso que me incomoda. Pelo contrário, acho interessante, dá mais valor ao “que” do que ao “como”. No entanto, esse “como” não é bem explorado, fica na superfície. Não consegui perceber quem é Caetano, nada acrescentou.

Eu gosto dele. As melhores cenas do filme são dos seus shows e ensaios. Maravilhoso. Só o violão e a voz, Caetano puro. Por essas e poucas outras, vale.


Se Nada Mais Der Certo não deu certo mesmo. A gravação faz o estilo filme cult-alternativo, que eu até gosto, mas que desta vez passou do ponto. Cauã é bom, Caroline Abras no papel de lésbica também convence e João Miguel é sempre muito interessante.

Porém hoje é o dia do “mas”……e este também não me convenceu. O filme é para acabar com o domingo de qualquer pessoa. Tão deprimente que de fato, deprime. Saí triste do cinema. E não que isso seja ruim, porque cinema também serve para reflexão. No entanto, não consegui pensar em nada após o longa. Eu saí como entrei.

O que fica é o personagem taxista de João Miguel. Sensacional. Ele é sempre destaque.
Como eu disse, o Cauã é bom mas até o final, enjooa.
Caroline surpreende, mas seu estilo moleque rebelde bonzinho também cansa.

Nota 8.
Pensando bem, até que fui boazinha, vai.

Um pedaço de bolo

Estou orgulhosa. Sorridente e toda, toda. Igual a um pai quando vê a filha passar no vestibular.
A capa aí em cima é da revista Brasileiros desta semana.
Haiti.
Mas não é uma edição com mais uma matéria sobre a situação do país. A reportagem, desta vez, é escrita por um grande amigo, Victor Ferreira.

Victor nasceu jornalista. Está no penúltimo ano da faculdade mas é um dos mais precoces que eu já conheci. Ele já foi para a Amazônia duas vezes, e agora assina uma matéria de capa desta publicação, após uma viagem que fez com o exército para o Haiti.

Victor e eu trabalhamos juntos na TV Mackenzie, no ano passado. A nossa querida TV que já formou tantos jornalistas bons que estão por aí.

Hoje, Victor trabalha na Auto Esporte após ter passado uma temporada na Época São Paulo e, assim como eu, está todo todo de ver sua matéria na capa da Brasileiros.
O melhor de tudo é que o seu texto é escrito em primeira pessoa, um pedaço de bolo para qualquer jornalista. Uma maravilha.

A sensação de ver um grande amigo realizar trabalhos especiais como esse, é muito boa. Para quem gosta de jornalismo, de verdade mesmo, é um prazer ler textos que trazem histórias e percepções de um mundo completamente diferente do nosso. Principalmente se forem escritos por alguém que você conhece e admira.

Por isso, se passar em alguma banca hoje à tarde, leve a Brasileiros.
Carregue a experiência do Victor com você.

Segundo capítulo da fumaça

Estou devendo um retorno. Fui a um show fechado no mesmo dia em que a lei anti-fumo começou a funcionar em São Paulo e prometi contar meu relato aqui. Vamos lá.

Entrei no local exatamente à 0h e já havia muitas pessoas. Ao meu redor, ninguém fumando. Nada, nenhuma bituca, nem sinal de fumaça. Avisei uma amiga – “veja, está funcionando”.

Uma hora depois, quando o lugar estava ainda mais lotado, comecei a ver uns vestígios. Um moço do meu lado acendeu o cigarro e uma mulher não muito distante, também. De repente, percebi umas cinco pessoas fumando. Avisei a amiga – “não funciona!”.

Fui dar uma volta, saí do galpão do show e segui para dentro da casa onde há outros espaços também fechados. Um moço que entrava fumando foi alertado pelo segurança – “aqui não entra”.

Lá dentro, um fumódromo aberto estava reservado aos fumantes. Lotado, cheio de gente e fumaça.

A partir daí não vi mais ninguém fumando em qualquer lugar que não fosse aquela sala. Nada, não percebi mesmo. E a festa toda seguiu assim.

Ponto para lei. Quanto ao cabelo e às roupas, 70% menos cheiro.
Se vai durar, não sei. Mas por uma noite, a sensação foi boa.

O nosso


Ele fala pouco, eu falo por nós dois. Eu reclamo, peço ajuda, não sei o que fazer. Ele ouve, pensa e diz a coisa certa.

Meu pai e eu nunca tivemos uma fase ruim. Aquele momento na pré-adolescência em que a filha se revolta e se tranca no quarto sem querer conversar, não existiu. Não brigamos quando eu disse que queria fazer jornalismo. E ele também não pediu para que seguisse outra carreira ou pensasse melhor na minha decisão.

Meu pai é como o pai de todo mundo. A diferença é que ele é meu pai. E nós juntos, somos melhores. Ele me acalma, diz que vai tudo vai dar certo e eu fico bem. Eu mudo de canal, ele se irrita. Ele coloca em um filme chato, eu enlouqueço. No fim, assistimos juntos e comentamos o enredo com minha mãe.

Meu pai não pergunta. Ele espera até que eu encontre o momento certo para falar. Ele diz não gostar de presentes mas se chateia quando não os recebe. Nos almoços em família, ele cuida do churrasco e da água da piscina. Eu faço piada, puxo sua orelha e ele se diverte.

Meu pai gosta quando eu ligo contando que estou no feliz no trabalho, que eu tenho novidades e que os sonhos estão dando certo. Ele não gosta quando eu aviso que vou à balada e que não tenho tempo para ir à academia.

Meu pai e eu não moramos mais na mesma cidade, mas nos falamos todos os dias. Quando não por telefone, por internet. Ele também é virtual e sempre aparece no MSN no meio do trabalho para perguntar como está o meu dia.

Não moramos mais juntos. Ele sente falta dos meus tênis na sala. Eu sinto falta da sua preocupação constante em querer saber se eu tranquei a porta de casa e jantei direito.

Meu pai e eu somos amigos. Melhores amigos. E eu tenho saudades. Este é o primeiro Dia dos Pais em que não estaremos no mesmo lugar. Em que eu não vou ver sua cara de bravo ao receber um pacote embrulhado e depois o seu sorriso ao perceber que era tudo o que ele queria ganhar. Não almoçaremos em um restaurante da cidade e eu não roubarei um pedaço do seu chocolate amargo.

Mas neste dia, ele estará perto de mim. Como todos os dias, como qualquer dia. Não enviei presente, mas fiz um vídeo com tudo o que é nosso. O amor, a amizade, o meu pai e a minha família. O que há de mais raro e o que realmente importa. Tudo o que é nosso e não é possível explicar.

Primeiro capítulo da fumaça

Sim! A lei antifumo entra em vigor nesta madrugada (7/6/2009). Pela primeira vez eu vou testar uma lei no seu primeiro dia de funcionamento. À 0h, fiscais estarão de olho em todos aqueles que descumprirem as regras, como fumar em ambientes fechados, em bares, restaurantes e casas noturnas. Pelo menos é o que dizem……

Hoje mesmo, o Estadão publicou notícia dizendo que o não-fumante que frequenta um lugar de fumantes por 4h, atinge “níveis similares ao de quem fuma quatro cigarros por dia”.

O fato é que a nova lei afirma que irá aplicar multa inicial de R$792,50 a R$1.585 aos recintos que não banirem o fumo. Coincidência ou não, vou a um show fechado esta noite, daqueles em que o cheiro de fumaça não sai do cabelo e da roupa por dois dias. Será o fim de tudo isso?

O segundo capítulo dessa história, eu conto depois.

Eu ainda gosto dele


Salon – Sr. Anderson, vamos falar sobre o futuro do jornalismo.

Anderson: Esta será uma entrevista muito tediosa. Eu não uso a palavra jornalismo.

Salon – Tudo bem, e quanto aos jornais? Eles estão em maus lençóis tanto nos Estados Unidos como no resto do mundo.
Anderson: Desculpe, eu não uso a palavra mídia. Não uso a palavra notícia. Não acho que essas palavras signifiquem alguma coisa hoje. Elas definem o mundo editorial do século 20. Hoje, são uma barreira. Elas estão bloqueando nosso caminho, como uma carruagem sem cavalos.

Salon – O jornal do lugar onde você mora, o San Francisco Chronicle, está lutando pela sobrevivência. Se ele desaparecesse amanhã…
Anderson:
… Eu não perceberia. Eu não saberia nem mesmo o que estaria perdendo.

Salon – Então como você se mantém informado?
Anderson:
A informação surge de muitas formas: pelo Twitter, aparece no meu inbox, na minha base de RSS, através de conversas. Eu não saio procurando por ela.

Salon –
Você simplesmente não se preocupa.
Anderson:
Não, eu me preocupo. Você sabe, eu escolho minhas fontes, e eu confio nas minhas fontes.

Salon – Assim como milhões de pessoas confiavam na mídia tradicional.
Anderson:
Se aconteceu alguma coisa importante no mundo, eu vou ficar sabendo. Fico sabendo dos protestos no Irã antes de eles aparecerem nos jornais porque as pessoas que eu acompanho no Twitter se preocupam com essas coisas.

Anderson é editor-chefe da revista Wired, uma das mais conceituadas publicações de tecnologia e cultura no mundo. Nessa entrevista traduzida para o site Salon.com, ele discute o desafio da Internet em relação à imprensa tradicional. Ao ler o bate-papo na íntegra, você vai perceber que ele prefere muito mais o twitter ao jornal impresso.

Eu gosto da internet, do twitter, deste blog e de receber informações e links no meu e-mail. Mas se me perguntassem:

Você sentira falta caso o seu jornal impresso deixasse de existir?
Sim e não pergunte de novo.

Eu sentiria uma falta profunda do meu jornal. A gente não briga, ele não me irrita e sempre traz novidades de lugares novos e programas culturais em São Paulo. Ele me fala da chuva. Ele me explica a gripe. Ele não me deixa enganar pelo Sarney. Já completamos 4 anos juntos e eu não quero me separar tão cedo. Só se ele quiser.

Quando se acostuma com o papel, não é tão fácil trocá-lo pelo twitter. Prefiro somar, não substituir. Ele é desajeitado, grandão e sujo. Incomoda ao ser aberto no ônibus e faz um barulho chato quando dobrado. Mas ele é meu. Me espera na porta, faz companhia ao meu café preto e não reclama quando eu separo todas as suas partes e levo para o trabalho, apenas as minhas favoritas.

Eu me preocupo. Ligo quando não chega, mas me chateio quando, já no dia seguinte, tenho que jogar no lixo suas notícias velhas e reproduzidas centenas de vezes na internet.

Mesmo assim, eu gosto dele. Ainda gosto. Muito.
E não me faça mais essa pergunta.

A Ana mudou tudo

Estou com 28 anos. Quanto mais idade eu tenho, mais feliz e bonita eu me sinto. O corpo muda, claro, tudo muda. O peito dá uma caída, o culote aparece, tudo acontece. Mas o homem que procura uma Barbie, não me interessa. A maturidade faz muito bem para gente. Tenho mais amigos agora, mais pessoas reais ao meu lado.


Ana Cañas é uma garota esperta. Quando o seu primeiro CD foi lançado, Amor e Caos, ela já era considerada uma das maiores revelações da música popular brasileira. Com o segundo, Hein, ela encara o estilo roqueiro. Depois de um papo sobre música, perguntei se ela se sentia mais feliz agora do que há alguns anos. A sua resposta foi essa logo acima. Ana se descobriu como cantora já com 22 anos, e quebrou com a regra de que toda cantora começa a cantar desde criança, no chuveiro, nos churrasco da família. Com ela não aconteceu nada disso. De repente, descobriu que queria cantar. Tem coisa melhor do que fazer tudo diferente? Ela compõe quase todas as suas músicas, mas abaixo segue sua interpretação de Cazuza. O máximo.











Crônica de quarta-feira


Maria Célia estava gordinha. Calças apertadas, blusas só as largas e biquíni tamanho G. No último final de semana, maiô. A sua refeição preferida, bife à parmegiana com sorvete do McDonald’s de sobremesa, teria que ser cortada. Ordens do nutricionista.

Maria Célia nunca foi magra e nunca ligou para isso.
Seus apelidos nunca foram magricela, cabo de vassoura ou bambu. Ela também nunca vestiu tecidos colados como cotton ou lycra. Maria Célia gosta de fritas e trufas. De catchup, ela também gosta.

Maria Célia está no terceiro colegial. Na última sexta-feira recebeu um bilhetinho na porta do banheiro feminino. A inspetora do prédio expressou um sorriso tímido e entregou o papel que estava dobrado em quatro vezes.

– Um mocinho pediu para te entregar.

Ao abrir o recado, letras cortadas de revista formavam:

– Você é bonita, eu gosto de você.

Maria Célia arregalou os olhos, observou o pátio da escola e sorriu.
Ela era bonita, ele gostava dela. A identidade do admirador era desconhecida mas Maria Célia já se sentia transformada. Agora, ela queria se gostar ainda mais.

Naquele dia a tarde, Maria Célia pediu a sua mãe para que a levasse a um nutricionista.
Segunda-feira ela começaria a dieta. Pão integral pela manhã, beterraba, alface e frango grelhado no almoço.

No entanto, no domingo, horas antes da meia noite ela decidiu se despedir da vida sedentária e da gordurinha em cima do joelho. Isso merecia uma comemoração. Na cozinha, Maria Célia abriu um pacote de bolacha passatempo recheada, mordeu a primeira e pensou:

– Eu sou bonita.

São Paulo

São poucas as vezes em que os cinemas de São Paulo trazem tantos filmes bons quanto os das últimas semanas. Gostaria de ter mais tempo para aproveitar cada um deles, logo na sua estreia. Mas, para tentar acompanhar pelo menos metade de todos os lançamentos, fiz uma lista que estou conseguindo assistir em doses homeopáticas.
Nesse fim de semana, pude ver mais um que eu faço questão de deixar o gosto por aqui. Ele se chama Paris. No entanto, o longa poderia se chamar São Paulo. Uma metrópole de expectativas, pessoas, dores e amores.

A história de Luciana, Sabrina e eu



Luciana e eu sentávamos na última fileira. O horário era cedo e ela sempre chegava cheia de histórias do trabalho para contar. Naqueles dias, Luci era a única da nossa turma que já trabalhara em uma grande empresa, e por isso sabia muito bem o que era cumprir metas, horários e ouvir broncas do chefe.

O professor começava a falar sobre o fim do papel impresso e sobre todas as mudanças que a tecnologia traria ao nosso trabalho. Sutilmente, nós abríamos o Estadão e começávamos a balbuciar as notícias do dia e as crônicas do Marcelo Rubens Paiva e do Matthew Shirts. O jornal era mais interessante do que aula. Não que isso tivesse sido sempre assim…. mas nos últimos semestres, a vontade de sair nas ruas e ver de perto quem era esse tal jornalismo, nos deixava inquietas nas cadeiras da faculdade.

Quando algum escândalo político repetido estourava ou um novo filme estreava no Espaço Unibanco, saíamos disfarçadamente para discutir. Ela com os tênis discretos e eu com as minhas botas barulhentas. O nosso destino era o terceiro andar do prédio. A lanchonete. Cappuccino espumoso para mim e para ela, apenas um café.

Dez minutos depois, chegava Sabrina. Livros embaixo do braço, sorrisão no rosto. Ela tomava chá e trazia os livros de antropologia que tentavam explicar o nosso TCC. Sasa falava de Osasco, reclamava das aulas sem sentido e trazia nomes que poderiam inspirar a nossa escrita. Fechava e abria as mãos quando explicava algo complexo e completava as nossas gargalhadas a cada situação espontânea das pessoas naquele pequeno espaço.

O nosso grupo estava formado. Desde fevereiro de 2008 até dezembro do mesmo ano contamos uma história que deu origem a um livro. A nossa vontade era descobrir um mundo novo, completamente exótico e por quê não subjetivo e às vezes até incoerente. Como o mundo de todo mundo.

Descobrimos os freegans a partir de uma reportagem em uma revista. Um grupo cheio de ideologia e com práticas sustentáveis que chegam ao extremo. A partir daí, convivemos e nos ligamos a eles. Na teoria, observação participante. Na prática, amadurecimento pessoal e profissional.

A capa segue no começo deste post.

Depois de seis meses da primeira impressão para os familiares e professores, a busca agora é por uma editora e pela veiculação de muitos mais dele.

Jornalista faz de tudo. Ouve, conversa, segue temas criativos e inspiradores. Mas, diga lá, o melhor de tudo é contar boas histórias. As primeiras de muitas que ainda iremos ouvir foram reunidas nesse projeto. Um livro escrito a seis mãos. As experiências, os bastidores, o estranhamento e os passos de três jornalistas atrás de pessoas e seus estilos de vida estranhos, diferentes e de beleza única.

Conversa de terça-feira

A vida é torta mas ela sempre chega a um lugar amigável.

Ouvi essa frase de uma compositora que entrevistei na semana passada. Conversávamos sobre o seu trabalho até que a questionei sobre o pensamento que já tinha lido em seu site. Ela empolgou e assim deixamos a conversa de música para falarmos sobre essa vida torta.

Torta como a dela, a minha e a de todo mundo.

O torto nunca é bem-vindo. Ele é ignorado, quase um crime de se pronunciar. O torto é o carrasco, o bagunceiro, o chato. Tudo o que deixa a nossa vida torta é irritante, atrapalha, não segue o fluxo, para.

A sensação quando ele chega é de desconforto. Mas quando se despede, não negue, ele deixa presentes. E não são presente de grego, sem sentido. Os presentes são bons. Eles despertam quase como um café. Se for Nespresso, aquele da embalagem preta. Forte, arrebatador.

A vida de todo mundo é torta e ela sempre chega a um lugar amigável.

Depois do amigável, o bom, o provocante e o sereno, que sempre nos deixam melhores e maiores. Como deve ser.