a primeira vez dos 28.

amanhã vou pra casa.

e em 10 anos ainda é sempre a primeira vez.
a primeira vez eu que volto. a primeira vez que entro naquele ônibus. a primeira vez que eu abraço.
ainda é a primeira vez que sinto falta. que me emociono. que não entendo um monte de coisa.

voltar pra casa é se segurar por dentro.
é pedir pra deus voltar a existir para que os dias durem mais um pouquinho.
é parar de envelhecer. e ver que todo mundo ficou velho.

é querer colocar tudo numa caixa para olhar de novo quando der vontade.
é me lembrar que os 28 vieram para eu sentir com todas as forças.
porque eu defini, a partir de hoje, que dos 28 aos 37 seremos os melhores. sentiremos tudo.
não precisaremos mais falar das mesmas coisas. e nem irmos aos lugares que não queremos.
fazer 28 é não ser obrigatório em lugar nenhum. só onde eu quiser.

e por isso volto só onde tiver vontade. choro com quem tiver perto.
bebo com os melhores. perco o tempo com o que me faz maior.
celebro todos os dias. e paro de falar com quem não quer ouvir.

paro de falar. e começo a ouvir.
e a assistir. pra não perder os espaços, os goles, e os novos.
os novos dias. as novas expectativas. os novos velhos sentimentos.
que arrebentam, se jogam, e festejam – porque não temos nada.
só os meus 28. que poderão ser do meu jeito, de qualquer jeito, de importâncias que eu definir.

pensa bem. de que adianta esse tanto de preocupação.
se a vida vai levando. e a gente vai sendo levado junto.
eu não quero assuntos desperdiçados.
vamos apenas tocar para frente, e nos tornarmos imediatistas.
eu não vou esperar mais nada.

quero que tudo aconteça hoje.
para que os momentos sejam sempre frescos e agora.
e para que eu só volte para onde eu quiser.

por isso amanhã,
eu vou para casa.

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minha irmã fez 30 anos.


Minha irmã mais velha vai completou 30 anos. E 30 parece tanto quando a gente tem 15, 16 anos. E na verdade é tão pouco. Tão pouco pra entender essa vida. Tão pouco pelo o que a gente ainda quer fazer juntas.

Eu sempre digo a ela que ela está pronta. Pronta pra tudo. Porque enquanto eu gosto de ser cuidada, ela gosta de cuidar, de falar, de se preocupar. Minha irmã é racional quando me acabo na emoção.  E é para ela que eu ligo todas as manhãs. E às vezes de tarde. E sempre à noite. Não tem essa de ficar sem se falar com a gente. É todo dia, é natural.

Ela é puro coração. Minha segunda mãe absolutamente. Ama e vivencia sem medo quando eu encaro o papel da razão e tento controlar cada momento e prever o futuro.

Ela não preve o futuro, ela é o presente. Dia após dia. E isso é o que eu mais gosto dela. Minha irmã não sofre por antecipação. Ela tem equilíbrio. Essa coisa de ansiedade, que acaba com a gente, tira o sono e derruba? Ela não tem. Ela é a calmaria. Não cria problemas, neuroses ou dúvidas existenciais. Minha irmã vive.

De vez em quando, a gente se pega pensando como é que pode 5 anos de diferença não fazerem diferença alguma. Eu com 25. Ainda me sinto tão pequena. Ela com 30 e ainda tão pequena. Nós duas. Que sentimos falta, buscamos, tentamos entender tanta coisa. Esse monte de mundo cheio de gente, que por vezes nos completam e por outras tantas faltam.

Minha irmã fez 30 anos e o nosso futuro embora seja uma surpresa, será sempre nós.  Outro dia, conversando no telefone de religião, crença em deus e coisas do tipo, eu não sabia muito o que dizer. Ela também não. E sem saber no que acreditarmos, falamos ao mesmo tempo: pensamento positivo, vai dar tudo certo, vamos em frente, vamos tocando, é assim que as coisas acontecem.

É isso que somos. A auto-ajuda de nós mesmas. Melhores amigas. Sortudas de, em um mundo com tanta gente, estarmos na mesma família, com a mesma infância, história, sangue e amor. Eu tenho a ela e ela tem a mim. E eu só posso desejar felicidade, bons amigos e alegria a ela. Sempre alegria. Isso que ela já esbanja de monte, todos os dias e que me faz sempre querer estar com ela.

Parabéns, por esses 30 anos tão bonitos, Laris.
E obrigada. Por tanta coisa que você sabe bem o que é. Por segurar as pontas, pelas mensagens, companheirismo e amizade. Por estar tão presente em um mundo tão grande. Eu te amo muito.

obs: na foto, ela é a da direita.
eu no meio com elas sempre ao meu lado.

Eu fiz 25 anos.

E saí na rua ouvindo Arnaldo Antunes.
O dia ensolarado trazia aquele vento paulistano gelado que passava pelo vestido e deixava o cabelo mais solto, assim como todo mundo na rua. E sempre que as coisas estão bonitas desse jeito eu me pergunto por quê será que estamos fazendo esse monte de coisa por aqui, neste mundo.

Comecei a andar com a lembrança da noite passada. Daquele monte de gente querida ao redor do bolo, dos abraços fortes que se repetiam com o passar das horas, das nossas mãos dadas, daquela dancinha curta que fizemos, do carinho e cuidado de tantos amigos que deixaram suas casas para irem lá – fazerem do meu aniversário mais cheio de amor.

Naquela manhã eu estava tão feliz que fiz o sinal da cruz ao sair de casa, assim, meio sem querer – passei os dedos pela testa, depois pelo peito seguindo pelos ombros esquerdo e direito. No final, dei um leve beijo no dedo indicador e disse “obrigada”.
Logo eu, que há tempos não fazia um sinal da cruz com sinceridade e que de uns anos pra cá tenho tido minha fé nas religiões tão abalada. Mas eu o fiz, livre. Para Deus, para alguém, para quem quer que seja ele, ou para mim mesma. Foi tão natural como sorrir ou me permitir a qualquer outra coisa.

Segui. Fui comer um lanche, tomar um suco, ler alguns guias de viagem. Escolhi os favoritos e ao passar no caixa, uma atendente muito querida disse que lia minhas crônicas e que gostava muito desse blog. E isso foi como um presente de aniversário. Ela comentou esses detalhes com tamanha alegria que posso dizer que falou por mim e por ela ao mesmo tempo. Fiquei muda, feliz e muda. Tão surpresa que não soube o que dizer. E o quê pode ser melhor para um escritor que ouvir que seus textos são histórias que saem por aí e criam enredos e emoção na vida de outras pessoas? É para machucar os corações, bicho. Isso deixou-me absolutamente sensibilizada. Como pode um mundo complexo nos cobrir de momentos tão surpreendentes como esse?

Felicidade é uma palavra tão grande, mas a vida é muito maior do que ela. Minha mãe sempre diz que devemos viver momentos felizes, sem nos preocuparmos com a busca da felicidade – como se esta fosse uma condição eterna que, ao alcançarmos, não nos escapará jamais. Não. A gente sabe que isso nunca vai acontecer. O que existe mesmo é isso –  uma festa em um bar, uma surpresa em uma livraria, um sol que ilumina até a noite chegar. É uma fé que aparece de repente e traz instantes absolutamente suficientes para nos fazer bem. São os 25 anos.

A você, Clarice.

Um pouco cansada, com as compras deformando o novo saco de tricô, Ana subiu no bonde. Depositou o volume no colo e o bonde começou a andar. Recostou-se então no banco procurando conforto, num suspiro de meia satisfação. (…) A vastidão parecia acalmá-la, o silêncio regulava sua respiração. Ela adormecia dentro de si (…)

Ao seu redor havia ruídos serenos, cheiro de árvores, pequenas surpresas entre os cipós. Todo o jardim triturado pelos instantes já mais apressados da tarde. De onde vinha o meio sonho pelo qual estava rodeada? Como por um zunido de abelhas e aves. Tudo era estranho, suave demais, grande demais.

Amor, Laços de Família – Clarice Lispector.
Ela completaria 90 anos nesta sexta, 10.

Feliz Aniversário

Hoje é o meu último domingo com 22 anos. Toda vez que o meu aniversário se aproxima eu penso nessas coisas. O último almoço com 22 anos, a última festa com 22 anos, a última briga com a minha irmã. E meu pai sempre acha isso uma bobagem. Fazer 22, 23, 24 isso lá tem diferença?

Quando eu tinha os 11 anos, imaginava que com os 22 estaria casada, com dois filhos, apartamento decorado, dinheiro no bolso e carro na garagem.  Essas coisas não aconteceram, mas os meus 22 anos mudaram completamente a minha vida, como todos os anos anteriores.  Acho que cada ano de vida sempre agrega coisas que nunca sentimos anteriormente.

Os meus aniversários de criança sempre eram os mais esperados entre os amigos. Minhas irmãs organizam ginganas, minha mãe fazia muitos doces e no final brincávamos de vôlei com as bexigas que se soltavam da parede. Na adolescência, eles também faziam sucesso. Organizávamos dança da vassoura, jogo da verdade, contratavámos equipamento de luz e a festa do ano estava feita.

As festas sempre foram em casa, ali perto do meus pais, cachorro e plantas que se espalhavam por todo o quintal. A parte dos presentes era muito esperada também. A eleição feita com minhas irmãs para saber qual era o melhor era preenchida por risadas. Lembro-me quando ganhei o CD duplo do Lulu Santos que para época. Ele era caríssimo e tudo o que uma adolescente precisava. Lulu sempre foi alívio para as crises da puberdade.

Eu sempre gostei de aniversários.

Aniversário é um dia em que nada mais importa, apenas o seu dia. É o momento que você acorda e pensa que todos os sorrisos, flores e carinhos serão para você. É o dia em que sua mãe vai ligar três vezes, seu pai vai perder a timidez, seus amigos vão trazer chocolates e te acompanhar no almoço. É o dia em que as manchetes ruins não importarão, em que você pode fazer o convite mais maluco para as pessoas, que elas vão aceitar. É só você.

Às vezes ainda me pego com 22 anos suspirando por não saber do que eu sei hoje quando eu tinhas os 17 ( que por sinal, como passaram!). Eu não sei nada desta vida com os meus 22 anos, mas a gente ainda tem a ilusão de que tomaria decisões mais acertadas se soubesse um pouco mais do futuro. Bobagens…

O compositor Cartola falava bem sobre o tempo. Sobre os sonhos, decisões e tolices de nossas preocupações diárias. Se o tempo passa tão rápido assim e não sabemos mesmo como lidar com ele, talvez não seja mesmo tão importante o 22 ou 23, e sim as nossa experiências em cada momento, nos bons, ruins, fáceis ou difíceis. Sem prever, nem nos planejar ou nos torturar tanto.

Feliz Aniversário, é só isso que desejamos.