Traduzir-se

Uma parte de mim
é todo mundo
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte
estranheza e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
– que é uma questão
de vida ou morte –
será arte?

(Ferreira Gullar)

Bienal de Artes de São Paulo

Eu gosto da Bienal de Artes e de tudo o que ela me traz.

A continuidade, o fazer, o processo que não se acaba jamais.
Ir na Bienal é sair dela sem conclusões. É deixar de arrumar explicações para tudo e se desprender até de possíveis irritações que ela possa causar.

Não vou mais à Bienal para discutir arte porque essa é subjetiva, pessoal e por vezes cheia de motivos e sentimentos.
Ir à Bienal é se a dar chance de voltar a ela – nem que seja em casa, no pensamento, em discussões solitárias ou com amigos.

Se deixar levar pela Bienal é esquecer os pés que ficam cansados, com bolhas e enfadados de tanta arte.  É ir sozinho ou bem acompanhado, para dividir, compartilhar e até não falar nada.

Um tanto bizarra, bonita e incompreensível, a Bienal de Artes vai ser sempre assim. Uma definição diferente para cada um.