José Alencar e a morte

Depois do velório em Brasília, o corpo de José Alencar vai para Belo Horizonte.
A família ainda não decidiu se vai ter enterro ou cremação.

Essa foi apenas uma dentre as muitas chamadas dos jornais, sobre a morte de José Alencar. Depois de tanto esforço, luta e mensagens otimistas, proclamadas por ele ao longo da sua vida, o vice presidente passa a ser chamado de ‘corpo’.

A história do herói é, no final, muito triste.
Os heróis somos nós – que buscamos, sonhamos e trabalhamos a vida inteira para um fim, em que não há o que fazer.

Esses dias fiquei sabendo que o fotógrafo, que trabalhou no casamento da minha irmã (há pouco tempo – novembro do ano passado) faleceu. Um câncer, assim de repente, e ele se foi. Engraçado que eu me lembro tanto dele. Sorridente, disposto, esforçado e tão bem em si.  Longe de qualquer mal ou morte. E aí a vida vem e diz que 2011 para ele, só se mostrou pela metade.

Eu me chateio tanto com isso. Pode ser óbvio, mas eu tenho que dizer.  É tão angustiante pensar que pessoas queridas nos deixam e ainda vão deixar tanta saudade, tanto vazio. Estranho saber que elas vão nos encher de alegrias, esperanças, mimos, para depois partirem sem aviso….

Dizem que a nossa estrada é assim, eu sei, mas me sinto arrasada.

A vida é tão bonita, puxa, como ela é. Os abraços fortes, emocionantes…os encontros, as pizzas, as risadas que nos tiram o ar, a ansiedade, as viagens programadas, os telefonemas que nos levam da solidão…. Ah, não me venha com essa hipocrisia de dizer que o fim é esperado e compreensível, porque ele não é querido por ninguém.

Eu não quero que as pessoas lamentem o fato de nada durar para sempre. Essa é a beleza, afinal. Os momentos são bonitos por serem finitos, do contrário, não teriam valor. Mas, apenas hoje, deixe-me libertar. Eu só quero colocar para fora isso aqui, que está dentro de mim, porque não é possível que eu esteja sozinha com tamanha emoção.

” Quantas são as dores e as alegrias de uma vida, jogadas na explosão de tantas vidas, vezes tudo que não cabe no querer. A gente é feito pra acabar, a gente é feito pra dizer que sim, a gente é feito pra caber no mar e isso nunca vai ter fim.” (Marcelo Jeneci – Feito pra acabar)

A imagem dessa crônica é de Isa Barcellos.

Alheio

Bem cedinho, no metrô de São Paulo, um pai segurava sua filha que devia ter uns 3 ou 4 anos. Ela não tinha cabelos, nem sobrancelhas. Vestia um chapéu amarelo e botas cor-de-rosa.

Seu pai, um careca alto e forte carregava-a com firmeza, sem titubear. Uma moça, que parecia enfermeira, puxou assunto com o pai sobre a menina.

Eu, sentada na frente deles, não fui notada. Aproveitei isso para observar o diálogo dos dois e o silêncio da menina.

Ela tem leucemia, de acordo com ele. Faz tratamento em um hospital sempre em sua companhia.

– “A mãe nunca vai até lá, não nasceu para ser mãe, sabe como é?” – disse o homem para a moça.

A mulher balançava a cabeça para confirmar tudo o que o pai dizia. Ela afirmava ter acompanhado várias crianças em tratamento de câncer.

– “O  processo é doloroso mas o final da história da sua filha será feliz, com certeza”.

Quase no fim do trajeto, ela ofereceu um chocolate para a criança que foi aceito. Era a primeira vez que a pequena sinalizava algo naquele dia.

Quietinha, ela ficou sentada com o doce na mão enquanto os adultos falavam de coisas sérias e de problemas desta vida. O pai, não saia de perto dela por nada. Nem mesmo na hora do chocolate.

Tanto cuidado.

No fundo disso tudo, o barulho grave do metrô seguia por todas as estações.
Segurando um jornal nas mãos, deixei algumas lágrimas pingarem no banco que eu estava.

Não fiz questão de guardá-las.

Interessante como a cidade surge e dá alguns sinais para que a gente jamais se esqueça. Deles, delas, da família, dos amigos. Das pessoas. De tudo o que importa mais do que o sucesso, dos parabéns, das metas atingidas.

Da bobagem e fragilidade que é a vida.

O que fica mesmo é o tempo que todas elas passaram ao nosso lado.