a nossa inocente distração

e eu estava assim bem cedo tentando acordar no meio da avenida paulista. coloquei os fones para ouvir chico cantar mais alto. o novo cd está uma beleza, preciso avisar o meu pai – pensei. a partir daí, viajei. e quando digo viajei, o negócio é longe mesmo. fui para lá, nem sei para onde, não me lembro, só o chico cantarolando e dizendo tantas coisas que levaram minha cabeça para outra rua, talvez para o trabalho, para a minha casa, araçatuba, ou nada disso. algum livro, o meu sono, os meus pés um atrás do outro que não mostravam mais ninguém e mais nada, apenas eu e os ouvidos borbulhando.

acho que por 7 minutos, desde a minha saída do apartamento até a metade do quarteirão da avenida principal fiquei fora. out. tão distante que se alguém gritasse o meu nome naquele momento eu iria precisar de algo mais forte para responder. saí de mim, distraída, não me pergunte como. um ipod e um monte de ideias na cabeça fazem isso com a gente.

o fato é que nos minutos posteriores, aconteceu uma batida de carro no quarteirão pelo qual eu acabara de passar. um estrondo forte que ainda me fez demorar a perceber o que estava acontecendo. as pessoas ao meu redor começaram a correr e a arregalarem os olhos para de, alguma forma, entenderem o que estava ocorrendo. olhei para trás, tirei os fones e vi os dois carros amassados e parados no meio de tudo. me lembrei do post do du lemos, no seu blog, sobre a pressa dessa cidade, que acabou causando a morte de uma ciclista na última semana.

os dois carros, provavelmente, estavam com pressa. um deles passou no sinal do vermelho e fez com que a pressa daquele dia fosse toda por água abaixo. os motoristas não foram trabalhar e provavelmente ficaram o dia todo fazendo boletim de ocorrência e correndo atrás de seguro e oficina. o que era tão importante de se fazer que eles não podiam perder? eles perderam de qualquer forma. nada era tão urgente que não pudesse esperar um sinal abrir.

e no meu mundo longe, fiquei a pensar como a rotina pode dar um basta de uma hora pra outra. eu não estava participando do que aconteceu com o trânsito naquele dia e nem estava com pressa. a culpa não foi minha. mas eu estava fora, alheada. não estava ali, no presente, prestando atenção. eu com meus fones, com o controle de tudo, pensava estar desbravando os quarteirões e o mundo da forma como eu quisesse. mas em dois minutos, dois carros se bateram para avisarem que essa serenidade é passageira. quando menos se espera, a música acaba e todos os planos feitos da saída de casa até a chegada ao trabalho podem mudar. o controle, nem sempre está em nossas mãos.

humildade e cautela – nos chamando a atenção, lembrando de que não somos os donos de nada disso aqui. o caminho, esse monte de planos e a nossa arrogância (inocente, eu sei) para julgar, cobrar, e achar que tudo podemos só porque trabalhamos, lutamos e buscamos os nossos sonhos é inútil. a natureza e a vida, não estão preocupadas com nada disso. em um minuto, a nossa rotina pode ser uma reviravolta.

o jovem Chico


Eu ainda não ouvi as novas músicas do Chico Buarque, mas estou orgulhosa dele. O compositor, amparado pela equipe ou mesmo por conta própria, percebeu que lançar um CD como havia feito em todas as vezes anteriores não causaria ansiedade e repercussão como da forma que, de fato, resolveu fazer. Com a prévia lançada no www.chicobastidores.com.br, ele tem mantido o novo trabalho fervilhando na mídia ao liberar o arquivo de algumas músicas – antes mesmo do lançamento oficial do disco – para quem comprar seu CD antecipadamente.

Li críticas ruins de sua primeira música, Querido Diário, disponibilizada em seu site. Depois, alguns muitos elogios com as últimas divulgadas, como Tipo Baião e Sem Você 2. Composições boas ou médias, ainda assim Chico acertou. O cantor nasceu em outra época, fez sucesso com vinis e hoje tira o melhor proveito que um artista poderia ter da internet. Com isso, repercurte ainda mais seu trabalho e faz dele assunto na boca do povo, por mais tempo.

A mensagem é a mesma, o que muda é o meio. Além de mais virtual, Chico também está mais feliz, mais humor, muito bom humor, vide vídeo acima.

ps : este blog, vocês devem ter percebido, está reformando sua casa. Aos poucos, os tijolos vão sendo assentados. 

Marcelo Jeneci

Fui apresentada a esse moço pela querida amiga Luciana Barradas. Durante uma conversa sobre  o que estamos ouvindo, ela me indicou o compositor abaixo que, após tocar com Chico Buarque e compor para Arnaldo Antunes e Vanessa da Mata, aparece com canções próprias que são uma maravilha de ouvir.

Largo tudo se a gente se casar domingo; na praia, no sol, no mar; ou num navio a navegar, num avião a decolar, indo sem data pra voltar.

Eu gosto também de Felicidade e Copo d’água.

Sem compromisso

Você só dança com ele
E diz que é sem compromisso
É bom acabar com isso
Não sou nenhum pai-joão.

Quem trouxe você fui eu
Não faça papel de louca
Prá não haver bate-boca dentro do salão.

Quando toca um samba
E eu lhe tiro pra dançar
Você me diz: não, eu agora tenho par.

E sai dançando com ele, alegre e feliz
Quando para o samba
Bate palma e pede bis.

(Sem Compromisso – Nelson Trigueiro / Geraldo Pereira)

*imagem retirada do blog  Azulescuro.quasepreto

Para esquecer

Meu pai nunca falou muito da sua juventude. Não sei se ele se lembra da ditadura ou se sente saudades da época em que tocava violão com o pessoal da faculdade. Minha mãe, também não. Eu não sei se ela era a garota mais do bonita do colégio ou se tinha grandes amigas com quem pudesse contar.

Chico Buarque também não revive as histórias da época em que tocava mpb nos festivais de música da Record.

Quem o escuta dizer isso no filme “Uma noite em 67”, fica claramente frustrado, chateado, bravo com Chico. Dá vontade de sair do cinema e dizer – Pô Chico! Como é que você não revive esses momentos cheios de vivacidade que qualquer um gostaria de ter vivido?

O filme lembra das histórias por ele mas o Chico mesmo, não faz questão de lembrar.

A letra de Roda Viva sai com esforço dos seus lábios que balbuciam “a roda da saia mulata, não quer mais rodar não senhor…” e se perde com o discurso do compositor que diz não tocá-la há muitos e muitos anos.

A plateia estranha, faz cara feia, duvida.

Quem assiste ao documentário fica desejando ter vivido tudo aquilo. As letras, os protestos, a amizade entre os cantores….pura nostalgia que cativa e faz do período cinematográfico.

Mas para os próprios, isso passou e ficou por lá. Não é revivido por eles todos dias quando acordam. Eles não seriam felizes se recordassem o que viveram com lamentos, saudades e tristeza.

Minha mãe me disse uma vez que esquecer é quase fundamental.

Caetano quando questionado sobre lembranças, diz que só ter saudade da idade que tinha naqueles tempos. Nada mais.

Esquecer também faz parte da história.