A você, Clarice.

Um pouco cansada, com as compras deformando o novo saco de tricô, Ana subiu no bonde. Depositou o volume no colo e o bonde começou a andar. Recostou-se então no banco procurando conforto, num suspiro de meia satisfação. (…) A vastidão parecia acalmá-la, o silêncio regulava sua respiração. Ela adormecia dentro de si (…)

Ao seu redor havia ruídos serenos, cheiro de árvores, pequenas surpresas entre os cipós. Todo o jardim triturado pelos instantes já mais apressados da tarde. De onde vinha o meio sonho pelo qual estava rodeada? Como por um zunido de abelhas e aves. Tudo era estranho, suave demais, grande demais.

Amor, Laços de Família – Clarice Lispector.
Ela completaria 90 anos nesta sexta, 10.

A indiferença da bandeira

Uma das imagens que eu mais gosto de ver em São Paulo é a bandeira do Brasil se debatendo em mastros espalhados pela cidade.

Melhor é ver essa cena ao sair de algum túnel de carros da cidade. A sensação é serena. Uma luz escura, que recobre o barulho de carros, dura longos segundos e nos leva a um claro e azul do céu que só se movimenta pela bandeira. Verde e independente. Cheia de si.

Ferreira Gular, o poeta, é autor do poema mais sincero que já li sobre aquilo que não podemos controlar. Ele fala de sua tristeza pela morte de Clarice Lispector e em como isso não alterou a rotina da natureza e das coisas ao seu redor.

Morte de Clarice Lispector

Enquanto te enterravam no cemitério judeu
de S. Francisco Xavier
(e o clarão de teu olhar soterrado
resistindo ainda)
o táxi corria comigo à borda da Lagoa
na direção de Botafogo
.
E as pedras e as nuvens e as árvores
no vento
mostravam alegremente
que não dependem de nós.

Engraçado pensar que a natureza não para com as  nossas desventuras e aflições. Nem as pedras, nem as árvores ou o vento, nem a bandeira repleta de autonomia e descrição. Coisas de bem ou de infortúnio acontecem em nossas vidas a todo momento. Para o resto, isso não é suficiente.