o nosso casamento com são paulo

Às vezes, vejo pessoas andando do caminho do metrô para o trabalho com um livro na mão – lendo, lendo, sem que o atravessar da rua, as pessoas e o próprio caminhar desviem seus olhares das páginas tão ávidas para serem ouvidas. Eu nunca fiz isso. Nunca até hoje. E isso porque agora eu encontrei um livro que, de fato, me fez querer estar com ele desde a minha casa até o trabalho. E quando digo isso não falo sobre estar sentada no metrô com um livro aberto, porque isso eu sempre gostei de fazer com o jornal diário. Aqui eu me refiro ao andar pela cidade, colocando uma perna em frente a outra, desviando de pessoas, de carros e semáforos com um livro aberto nas mãos.
Caio Fernando Abreu é um jornalista que era desconhecido por mim até mês passado. Esta semana, no entanto, ele me arrancou sorrisos e identificações tão fortes que me deixam assim: apta a movimentar-me apenas com ele, nos braços, cheio de crônicas e palavras que a cada lida me fazem pensar – puxa, a sensação é exatamente essa!

Abaixo, segue um dos trechos do autor no livro Pequenas Epifanias. Quem já morou em São Paulo ou passou um dia que seja aqui na cidade, sabe do que ele está falando:

“Nunca na minha vida casei, mas – imagino – minha relação com São Paulo é igual a um casamento. Atualmente, em crise. Como conheço bem esse laço, sei que apesar das porradas e desacatos, das queixas e frustações, ainda não será desta vez que resultará em separação definitiva. No máximo, posso dormir no sofá ou num hotel no fim de semana, mas acabo voltando. Na segunda-feira, volto brava e masoquistamente, como se volta sempre para um caso de amor desesperado e desesperançado, cheio de fantasias de que amanhã ou depois, quem sabe, possa ter conserto. Este, amargamente, não sei se terá. Por que está demais, querida Sampa. E sempre penso que pode ser este agosto, mês especialmente dado a essas feiúras, sempre penso que pode ser o tempo, tão instável ultimamente, sempre penso que pode ser qualquer coisa de fora, alheia à alma da cidade – para que seja mais fácil perdoar, esquecer, deixar pra lá. Não sei se é. As calçadas e as ruas estão esburacadas demais, o céu anda sujo demais, o trânsito engarrafado demais, os táxis tão hostis a pobres pedestres como eu…Cada vez é mais difícil se mexer pelas ruas da cidade – e mais penoso, mais atordoante e feio.”

*a bonita foto é do rafael fagundes.

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O dia em que eu não falei com o Marcelo Rubens Paiva

Ele estava no Spot. Aquele restaurante da Ministro Rocha de Azevedo que tem o melhor penne que eu já comi na vida.

Em uma noite de sexta ou sábado, esperamos pelo menos 1 hora na parte externa para conseguirmos uma mesa lá dentro. Pedimos vinho. Eu e minha irmã. E também um antepasto que serve pouco mas traz aspargos com um azeite irresistível – caro e ainda assim vale os muitos centavos. É um bar um tanto quanto blasé mas convence qualquer um a passar a noite por lá principalmente pela fonte d’água do lugar que muda de cor e faz chuá chuá, o barulho de gotas que transforma qualquer ponta de esquina em um ambiente agradável de ficar.

Marcelo estava nessa área, a espera de uma mesa livre também. De longe, parecia estar sozinho. Cutuquei minha irmã – a lá, a lá, a lá, é ele lá! Eu não gosto de tietagem, nunca pedi um autógrafo e uma única vez que trabalhei em uma revista de celebridade, pedi demissão. Às vezes, no entanto, tenho vontade de seguir os conselhos de uma amiga que diz que quando você tem vontade de dizer, tem que ir lá e falar logo. No caso dela, toda vez em que está numa roda de amigos e apresentam-na um cara muito bonito, ela fala logo de cara: pô, eu preciso dizer, você é bonito pra c*!

No meu caso, eu queria dizer – Marcelo, não vou tomar muito seu tempo, mas eu leio todas as suas crônicas, você escreve pra c*! Obrigada pelos textos, bom jantar, até uma próxima.

Pronto, seria só isso. Não daria nem tempo dele apagar o cigarro.
Esperei chamarem o nosso número para entrar. Pedi o penne que, para quem ficou curioso, é servido com melão e presunto de parma; terminamos o vinho e por vezes observei o marcelo já dentro do restaurante também acompanhado por amigas.

Em um certo momento, ele saiu para fumar. Sozinho. Minha nova chance – sou leitora assídua dos seus textos, tchau. Mas então ele permaneceu um tempo lá fora, voltou e eu continuei a titubear. vô, não vô. Pedimos a conta, recusamos a sobremesa.

– Agora eu vou falar. Passei pela mesa dele que ficava bem na porta, mas já me vi saindo e quase na calçada, lamentei a falta de atitude. ele estava jantando. acompanhado dos amigos. ocupado. relaxado. não deu.

desculpas assim. que a gente se coloca de vez em quando.
uma amiga disse que eu deveria ter ido lá, assim mesmo, na coragem. não fui.

De qualquer forma, se um dia ele ler esse texto: pô Marcelo, sou tua fã! Abraço.

ps – esta foto saiu na entrevista que a revista TPM fez com ele este mês. 
Vale a pena ler a matéria completa. 

mal resolvido

Conversa na recepção: Conversa vai, conversa vem, digo que sou psicanalista. A moça entra em pânico, temerosa de que eu tivesse poderes para ver sua alma. “Eu já fiz terapia”, ela disse. “Mas agora estou resolvida”. Pergunto: “Quando se deu o óbito?”. Ela me olha sem entender. Óbito? Explico: as únicas pessoas resolvidas que eu conheço estão no cemitério.

Rubem Alves, na crônica “Psicanálise”.

A foto é daqui.