o escafandro

Escafandro e a borboleta

Não sei baixar filmes na internet. Não gosto de comprar dvds piratas.
Sou das antigas. Quando passa na tv eu gravo. E assisto assim que posso.
Agradeço ao mais novo recurso da NET que disponibiliza um sistema que permite pausar, voltar e gravar os programas. Como fazíamos com as fitas VHS no passado. Só sei ver filmes assim. Não me peça pra baixar nada. Eu não sou desse tempo.

Gravei o Escafandro e a Borboleta. O filme ficou 1 mês no sistema. Eu achava que seria pesado demais para aquela tarde. Para as noites. Para o fim de semana.
Agora em dezembro, de férias, gravei de novo no sistema aqui da tv da minha casa do interior. E então eu tinha dois Escafandros. Um em São Paulo. Outro em Araçatuba.

Coloquei um pedaço pra ver hoje cedo. E segui até o final.
Acidente cardiovascular.
Escafandro é um filme que eu gostaria de ter feito. Nunca fiz cinema. Mas queria Escafandro.
Bonito. Bonito de doer. De chorar. De assistir a vida toda.

Jean Bauby só mexe o olho. Mas fala o tempo todo, em pensamento. E vai lembrando…de quando fazia essas coisas gostosas que a gente faz todo dia…andar, comer, beber, fazer a barba, dirigir, espirrar, pentear os cabelos.
E eu que mexo os olhos, as mãos, os dedos, os cílios, as pernas, os pés ….estou perdendo alguma coisa?

Não acredito em céu, amigos. Não vejo vida após a morte.
Acho a vida maravilhosa e triste todos os dias. Nos vejo festejando todos os dias. Gosto de festejar todos os dias. De amar todos os dias. E achar essa árvore de natal aqui do meu lado bonita, mesmo com o fim do natal. Se pudesse tirar uma foto mental, seria da janela da sala aqui de casa com o meu gato passando sobre ela. Sinto falta de todas essas coisas que ainda tenho. Acredito mais em acasos fabulosos do que em destino. Sou otimista nesta vida e pessimista pós-morte. Vejo o ser humano como um mestre do ilusionismo por criar uma casa de bonecas todos os dias. Trabalhamos. Pagamos conta. Criamos problemas. Resolvemos problemas. Vamos à manicure. Cortamos o cabelo. Fazemos compras. Arranjamos dramas. Engraxamos o sapato. Passeamos com o cachorro. Vivemos sem fim. Somos ilusionistas lúdicos. Burros inconformados. Criamos Deus. Mantemos a mente ocupada. Combatemos o tédio. Brincamos de casinha. Estamos sempre nos distraindo. Eu sei. Morrer é mesmo uma pena.

Um dia, não vamos todos nos encontrar. Os mortos, com os pré-mortos, os vivos, com os pré-nascidos. Não. Não vamos. Talvez semana que vem se marcarmos um café. Digo, vivos com vivos.
O fim da vida é tão doloroso que só nos resta deixá-la bonita. Comemorarmos o réveillon. Torcermos por mais dias. Desejarmos que os aviões não caiam. Que os carros não corram. Que a gente viva mais um pouco. Que não tenhamos um acidente cardiovascular. Um derrame. Que dê tempo de fazer mais um monte de coisas não importantes. De curtimos mais esse vento que entra aqui na sala. E de eu treinar mais um pouco meu breve repertório no violão.

Escafandro é tão bonito que corta. É um filme que abraça nossa dor escondida e abre caminho neste monte de distrações.
Acabei o filme e voltei pra vida. Pra janela onde passa o meu gato. Para as balas de café em cima da mesa. Para eventos desimportantes. Para os instantes pequenos. Para esse monte de beleza e para esses dias descompromissados no interior, cheios de tempo. Eu tenho vontade de chorar várias vezes. Sinto emoções instantâneas. Daquelas que aparecem nos momentos bonitos e me trazem saudade imediata.
Tem sido dias tão bons.
Que a vida não os leve de uma vez.

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Mais um pouco

Os retornos de viagens são assim: o corpo sempre chega primeiro que a mente.
Por isso, deixem-me curtir mais um pouco, sentir saudades, viver novamente.

Aproveitem essa ressaca comigo, assistam o vídeo acima.
Vai ser uma delícia.

Febre

Ardendo em febre no sofá da sala, comecei a delirar. Uma amiga me disse que gripe após muitos momentos felizes é uma indicação de que o corpo está brigando com você por ter voltado à rotina.

Fiquei duas semanas fora, na cidade dos meus pais.
Naquela que já foi minha e que hoje abraça doces lembranças da minha infância e adolescência.
Desde que comecei a trabalhar não tinha passado tanto tempo livre em Araçatuba. Sem horário, longe do calendário.

Peguei o carro para dirigir, cansei de tanto correr com o meu cachorro. Fiz uma luminária de cola e lã com o meu pai. Ela se desfez e tivemos que começar tudo de novo. Assisti a filmes abraçada com a minha mãe. Comprei objetos para a casa nova da minha irmã. Ouvi repetidas vezes as mesmas músicas do rádio. Convenci meu cunhado a ir num show sertanejo. Desliguei o celular. Sumi da internet. Fiquei mais tempo com o velho violão do meu avô. Comi chocotone. Senti meus dedos descalços no chão da cozinha. Me vi plena. Descansada.

No último domingo, coloquei uma toalha gelada na testa para fazer a febre baixar. Eu estava de volta a minha casa atual, em São Paulo. E o corpo ardendo me fazia movimentar de um lado para o outro como se procurasse uma satisfação. Eu estava confortada por voltar. Gosto de recomeço. Mas o inconsciente ainda se chateava.

Minha mãe me disse esses dias que os momentos e as pessoas duram exatamente o tempo que tem que durar. Nós não nos conformamos porque somos egoístas, todos. Queremos mais, infinitas vezes, desejamos o para sempre. O que a gente não percebe é que momentos bons só os são porque não duram. Têm hora para acabar.  São temporários e deliciosos. Valorizam-se  por serem assim.

E com meias nos pés, desejei não ter febre novamente. Os olhos pesados, a testa queimando como o fogo, a boca seca, tudo me fazia amolecer.  Foi então que comecei a suspirar para que aquilo parasse, para que o meu corpo retomasse o seu vigor. A sua racionalidade. O presente.

Com as mãos suadas, o quente começou a se despedir.
O termômetro acalmou o mercúrio e eu voltei a respirar.
Soltei os braços, as pernas, tirei algumas cobertas de cima de mim e telefonei – “Foi bom estar com vocês, mãe. Nos vemos no próximo feriado. Beijos”.