Poema do jornalista

Eu não quero definições exageradas.

Falar, dizer e me explicar como se eu fosse a própria resposta.
Não vou perguntar apenas para aparecer antes dos outros, que ali também perguntam.

E balbuciar como se conhecesse.
E estar da forma como todos já estiveram, na mesma posição.

Prefiro o silêncio ao excesso. Eu quero ouvir.
Quero muito te ouvir.

E já que escolhi ser jornalista, deixe-me ver você.
O cabelo, a forma como sorri.
A bochecha enrrugada, as mãos que não se aguentam esticadas.

Me faz calar. Conta a sua história, sem pressa, pode ir.
Mostra as fotos, aquelas que ninguém vê, nem você.

Faz um café pra gente. Eu quero ver se você prefere o forte ou o descafeinado.
Durante a preparação da bebida, eu vou torcer para o seu telefone tocar.
Quero saber como você fala com a sua família. Se tem carinho pela filha ou sente falta do cachorro.

Prepare as torradas, estou curiosa para ver se você coloca queijo em cima delas.

Não deixe-me distrair pela TV, pelos clichês e por aquilo que eu não quero ser.
Me faça ser mais, corrija-me se eu te ofender.

Eu não vou te interromper ou tentar entender o que é autoexplicativo.
Prefiro perder a discussão a falar para te conduzir.

Permita-me sentir à vontade para ficar.
E para perguntar quando suas explicações exclamarem por uma voz.

Se você é o meu entrevistado, eu serei apenas eu.
Da melhor forma que consigo ser.

*a foto acima é de leonália.

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Cidades para pessoas

Natália Garcia teve uma ideia genial.

Uma ideia que depende de um punhado de gente para dar certo. Tudo começou quando ela resolveu viver em uma cidade melhor. Apoiada nisso, ela criou o projeto Cidades para pessoas, que a fará viajar por 12 cidades durante um ano, com a finalidade de conhecer projetos urbanos que fizeram com que esses lugares melhorassem a vida das pessoas (e não a dos carros ou das imobiliárias, como ela mesma diz).

Natália vai morar um mês em cada cidade e isso resultará reportagens em texto e em vídeo com o que de melhor esses espaços proporcionaram para seus pedestres. A ideia disso tudo é fazer com que o nosso país aprenda a inserir aqui, os conhecimentos captados pela jornalista.

O viabilização do seu projeto já está acontecendo por meio do Catarse – site que possibilita um financiamento em massa por meio de doações em dinheiro feitas pela internet. Até dia 20 de março, ela espera arrecadar 25 mil reais que correspondem a 30% do necessário para fazer o projeto, de fato, acontecer.

Eu, até então, nunca tinha visto uma iniciativa como essa e torço para que ela tenha muito sucesso na jornada. Se você também gostou e quer ajudar, doe uma quantia para o projeto e espalhe essa beleza de iniciativa para mais pessoas. É só clicar nos links que estão nesse post, que eles te levarão ao lugar certo.

* A foto mostra a rua Stroget, em Conpenhagne, conhecida como a “rua dos pedestres”.

O bom jornalismo

Dentre tantas reformas gráficas que os principais jornais já fizeram, a que eu mais gostei foi a do jornal o Estadão. Que reforma gostosa de se ler. O jornal impresso ficou tão (mais) prazeroso que tenho vontade de ligar lá na redação todos os dias para elogiar. As mudanças não foram só no layout como também na forma de dispor e explicar os fatos que constituem uma matéria. O bom jornalismo, tão característico do veículo, ficou ainda mais visível.

Uma última reportagem que li e me chamou bastante a atenção foi sobre a descoberta de um trilho de bonde na zona sul durante uma obra do metrô, em São Paulo. A matéria era muito simples, mas é exatamente neste tipo de trabalho que percebemos como se faz algo bem feito.

O texto que pode ser lido neste link, surpreende por oferecer mais do que esperamos de uma matéria como essa. O conjunto da obra é perfeitamente construído e transmitido para o leitor. O corpo principal da reportagem traz todas as informações necessárias, explica quando e como os operários do metrô acharam barras de ferro em Santo Amaro, que faziam o trajeto de uma antiga linha de bonde no local. Ao lado, uma foto antiga devidamente resgatada do arquivo do jornal, mostrava a linha que entrou em operação em 1913 em uma São Paulo completamente diferente da nossa época.

Um quadro intitulado “Para Lembrar” fornecia mais informações sobre a linha criada 45 anos antes. Abaixo um depoimento de um morador de 92 anos que andou no bonde que passava naquela linha e cobrava 50 centavos de réis pelo trajeto até a Vila Mariana.

Outro bloco de texto traçava um histórico dos bondes que funcionaram em São Paulo. Desde a criação da primeira linha até o seu fim.

E quando você acha que já sabe tudo sobre o assunto, o jornal traz um quadro que conta a história de outra linha de bondes que foi descoberta assim por acaso.

Um assunto que poderia passar despercebido como pauta, foi explorado com muita competência pelos jornalistas Elvis Pereira, Bruno Ribeiro e Marcio Curcio. Dá gosto de ler algo desse tipo, tenho orgulho desse tipo de jornalismo.