Alheio

Bem cedinho, no metrô de São Paulo, um pai segurava sua filha que devia ter uns 3 ou 4 anos. Ela não tinha cabelos, nem sobrancelhas. Vestia um chapéu amarelo e botas cor-de-rosa.

Seu pai, um careca alto e forte carregava-a com firmeza, sem titubear. Uma moça, que parecia enfermeira, puxou assunto com o pai sobre a menina.

Eu, sentada na frente deles, não fui notada. Aproveitei isso para observar o diálogo dos dois e o silêncio da menina.

Ela tem leucemia, de acordo com ele. Faz tratamento em um hospital sempre em sua companhia.

– “A mãe nunca vai até lá, não nasceu para ser mãe, sabe como é?” – disse o homem para a moça.

A mulher balançava a cabeça para confirmar tudo o que o pai dizia. Ela afirmava ter acompanhado várias crianças em tratamento de câncer.

– “O  processo é doloroso mas o final da história da sua filha será feliz, com certeza”.

Quase no fim do trajeto, ela ofereceu um chocolate para a criança que foi aceito. Era a primeira vez que a pequena sinalizava algo naquele dia.

Quietinha, ela ficou sentada com o doce na mão enquanto os adultos falavam de coisas sérias e de problemas desta vida. O pai, não saia de perto dela por nada. Nem mesmo na hora do chocolate.

Tanto cuidado.

No fundo disso tudo, o barulho grave do metrô seguia por todas as estações.
Segurando um jornal nas mãos, deixei algumas lágrimas pingarem no banco que eu estava.

Não fiz questão de guardá-las.

Interessante como a cidade surge e dá alguns sinais para que a gente jamais se esqueça. Deles, delas, da família, dos amigos. Das pessoas. De tudo o que importa mais do que o sucesso, dos parabéns, das metas atingidas.

Da bobagem e fragilidade que é a vida.

O que fica mesmo é o tempo que todas elas passaram ao nosso lado.