de dentro – quem é que entende

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Do amor, quem é que entende.
Uma amiga diz que tem preguiça. E por ter preguiça ela prefere os ex-amores. Porque eles já conhecem os caminhos, os sentidos e a hora certa de chegar. Um ex-amor já gosta de você. Não precisa se esforçar. E nem dizer onde você se formou. Qual é a sua cidade natal. Que gosta de cozinhar. Que é culta. Frequenta os bares da Augusta. Lê Leminski. Já conheceu Londres. Roma. Florença. Começou ioga na semana passada. Arrisca um francês. Está até tirando foto. Quem sabe vai montar uma exposição. Não. Não precisa. Ele gosta de você. E só por ser você ele já gosta. Por estar ali, na frente dele. E mesmo sabendo que, às vezes, você é uma chata.

De ex-amor, quem é que entende.
Que não é mais amor e nem amizade. Que não faz parte da sua rotina, que não se recorda muito bem quem você é. Mas que aparece e sabe que você sim, vai se lembrar. Que agora são dois estranhos, apenas com saudade – do que não precisa de esforço e está pronto. Vocês já foram conquistados. Um pelo outro. Mas é a vida que segue. Está todo mundo dizendo isso agora. É ela que leva. Vocês dois. Para caminhos completamente diferentes.

E quem é que entende disso tudo.
Fique sóbria. Sóbrio. Respire fundo e arrume apenas 1 amor a vida toda para que os anteriores não cocem a sua cabeça. Não te despenteiem dessa forma. Veja o que eles tem te causado. Freie. Tire o pé desse pedal, a escolha é sua.

Mas quem é que sabe.
Sem os ex-amores você não tem lembranças, histórias, caminha apenas pelo marasmo. E pela dor de não vivido nenhum deles. Pela falta da saudade, apatia. Pela ausência de lembrar de uma voz ou de uma risada confortável, que seja. É uma vida sem. Amores. Tão fortes como combustíveis, que vêm, vão embora, e sempre permanecem.

Foto daqui.

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– Covardiamos
Esta não é uma história de amor
O amor dele
– Querido desconhecido 

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Começar um relacionamento

A pia está limpa, a louça inteira lavada e o que vê é um cenário perfeito: sem sujeira, pratos, nada.

Começar um relacionamento é como usar a louça novamente e apoiá-la em cima de toda a pia. No começo, há o receio de bagunçar o espaço limpo. Foi tão difícil deixá-lo em ordem. Mas uma hora, tudo inicia-se da mesma forma. Primeiro apoia-se um copo. Depois uma xícara com a borra do café, bem devagar. Usa-se um prato, uma panela e alguns talheres. Na sequência, colheres, facas, garfos e quando se vê encontram-se pegadores de macarrão, de sorvete e espremedores de limão.

Aquela pia ali, limpa, já se faz cheia de coisas. Cheia de vida. Do vinho que acompanhou a massa, das bordas de pizza, dos petiscos que ainda estão doces, das cascas de limão usadas no mousse servido na sobremesa. Uma pilha. De expectativa, de medo, de tanta coisa que – se não der certo – precisará ser lavada novamente. Uma a uma. Até que se apaguem as marcas, a saudade, a falta de algo que já foi.

Os pratos. Resilientes como nós.
Resistentes até quando quebrarem.
Usa-se, lava-se e enxuga-se. No meio disso tudo, ama-se. E acumulam-se histórias por toda a parte, músicas, restaurantes, mensagens, beijos, nós. E os pratos. Que logo estão lá, enchendo a cozinha, lembrando que um dia já foram a melhor versão de nós mesmos. Panelas. Um punhado de metal, tefal e alumínio raspado várias e várias vezes até sair a casca e aparecer o fundo. Até terem toda a sua parte saudável arrancada pela esponja áspera –  que encaminha tudo o que não deu certo pelo ralo. Eu e você. Que já encontramos tantos ‘eu e você’ por aí e que insistimos e persistiremos até sujarmos cada taça, bowl e jarra que surgirem em todo o processo.

No final dessa brincadeira, estaremos lá, de luvas, fazendo espuma com tudo. Escorrendo os copos, as lágrimas, as canecas que um dia já carregaram leite, sucrilhos e sopa. Passando a mão nas beiradas da pia para tirar o excesso de água, de expectativa e memórias. De você.

No dia seguinte, o primeiro copo do dia. O gole do início, uma nova história pronta para começar. Uma repetição que a gente já conhece. Tudo igual. E por que sujar pratos que já foram limpos e curados? Por que amar quando já se foi amado? Detonado, surrado. Cansado.

Talvez, eu penso, porque já fomos felizes, emocionados e todos os adjetivos que nos transformam em buscadores oficiais da repetição. Daquilo que já vivemos. Queremos relembrar. Como é mesmo a sensação de usar pratos novos, limpos? De percorrer um caminho em que pisa-se com cuidado até se chegar no ápice da satisfação e de momentos que, de tão fascinantes, nos fazem esquecer da bagunça que irá se empilhar no dia seguinte. Quero a bagunça.

E é mesmo assim. Curioso.
Um processo exaustivo que – no meio de tanta coisa, eventos, casualidades e pessoas – nos mostra que a gente sempre consegue lavar tudo o quê sobrou e começar de novo.

De Pepy para Ana

Ana,

As coisas não estão muito boas para o nosso lado. O dos homens, eu quero dizer. Esta semana, minha irmã terminou um namoro de poucos meses e jurou a si mesma nunca mais se apaixonar por promessas. A minha prima também não vai mais se relacionar com ninguém e, às vezes, acho que a minha mãe concorda com todas elas.

Veja, eu não moro mais com a minha família, não sei até que ponto os homens faltaram com elas e generalizaram todo o processo, mas o fato é eu precisava escrever que você ainda tem a mim.

Hoje eu fui à academia pela primeira vez,tentar resgatar um pouco mais de força no joelho esquerdo, para te acompanhar na sua nova meta de correr aos finais de semana. Também tentei colocar em prática aquele molho de macarrão que você me ensinou, mas me sinto um bobo perto de um fogão. Sempre falta o sal e o nosso clichê de cozinharmos juntos, com o rádio ligado.

Tem dias que eu nos imagino felizes como são os casais naqueles filmes dos anos 50. Ou então penso em uma cena com você sentada no meu colo com os olhos de Sophia Loren, enquanto eu me divirto mostrando um sorriso de Elvis, no auge da sua juventude.

Eu sei que as mulheres estão decepcionadas mas você precisa saber que se, um dia, eu fizer o mesmo com você, será porque perdi minha capacidade de pensar. Nós homens somos assim mesmo. A gente se deslumbra no primeiro instante mas, depois, ficamos tão seguros do que vocês sentem por nós, que soltamos a taça e deixamos tudo cair.

Me avisa se eu for como todos? Provavelmente nesse dia eu vou estar do avesso, fora de mim, um completo idiota. Será que tem como você me chacoalhar? Balançar a minha cabeça, jogar água na minha cara só para eu não cometer o mesmo erro? Se eu disser ‘não’ para você qualquer hora dessas, promete que não acredita?

Pensei muito em você hoje, como acontece em todos os cinco dias da semana. Às vezes eu quero pedir demissão só para ver se, deixando de trabalhar, o sábado chega mais rápido. E também para saber se eu sentiria falta de todas aquelas pessoas do escritório, como eu sinto de você.

Eu não vou escrever ‘te amo’ aqui no final, porque o ex-namorado da minha irmã sempre dizia isso a ela. E se ele a magoou tanto sentindo amor, eu preciso inventar outra palavra para mostrar o que eu sinto por você.

Nos vemos no fim de semana,

Pepy.

(texto de Clara Vanali)

Apenas o fim

Você não gosta.
Você gosta.

Você não sabe se gosta.
Você gosta.

Você se apaixona.
Você não sabe ainda se é isso.

Você pensa.
E gosta.

Você gosta um pouco mais.
E confia.

Você começa a amar.
e já não sabe se tinha paixão.

Você se acostuma.
Você gosta.

Você , ele e o amor viram rotina.
Você gosta da rotina.

Você já não sabe se gosta.
Você não gosta.

Não gosta.
Nunca gostou?

Você apaga.
Esquece.

E os filmes, livros, presentes, fotos e momentos,
Tudo vai parar em um envelope.

* o desenho é de Cecília Murgel.

Ansiedade

– Estou ansiosa pela sua chegada.

Minha irmã vai ser casar. Assim, logo. Daqui a sete dias.
Após sete anos de namoro.

Minha irmã fez tudo diferente.
Tirou os sobrenomes de todos no convite de casamento.
Escolheu a música Proud Mary para os padrinhos entrarem na hora da festa.
Contratou uma banda sertaneja para animar os convidados.

Não entrará na igreja com a marcha nupcial.
Não adotou o sobrenome do marido.

Escolheu o terno do noivo e dispensará o coque no cabelo durante a cerimônia.
Cortou os anos 60 no set list do DJ. Também descartou Macarena, Macho Man e New York, New York.

Reduziu o número de fotógrafos e cinegrafistas. Flash cansa.

Tudo será do jeito dela. Bonito. Bonita.

Às sete da noite do dia vinte e sete de novembro.

– Estou ansiosa pela sua vinda a Araçatuba – disse ela para mim no nosso último telefonema.

Minha irmã controlou a minha ansiedade nos meus dezessete anos, quando me mudei para São Paulo.

Ela me trouxe calma.
Me fez companhia por anos e anos.

Agora, ela casará e mudará de cidade. E está ansiosa por mim.
Pelo nosso encontro no seu dia de alegria.

E o que eu sinto por ela?
Ansiedade.
Da melhor e mais sincera forma que essa sensação possa existir.

E desta vez não é preciso controle. Está tudo certo – digo a ela.
A ansiedade é uma beleza.