Crônicas de Nova York

9 avenue with 44 street. Rudy’s Bar é do tipo que serve cachorro quente grátis.
Basta pedir 2 copos de cerveja que o jantar está garantido. 1 salsicha, uma tira de catchup, mostarda e um pão magro nada lembram o hot dog com batata palha, maionese e purê de batata do Brasil.

As salsichas ficam rodando num forno pequeno ao lado de um mural com diversas carteiras de identidade falsificadas. Menor de 21 anos que tenta entrar no Rudy’s com ID de mentira, fica pra fora e ainda colabora com a coleção de passaportes adulterados que somam mais de 50 na parede. You fake them, we take them.

A música também é o cliente quem faz. 1 dólar e você escolhe em um computador se quer ouvir Michael Jackson ou Johnny Cash. Colocar samba era a maior diversão. Salsa, a alegria de Juan, que tirava as suiças e coreanas para dançar e mostrar que os colombianos também tem ginga no pé.

Muita gente e poucos sofás, a solução era revezar os assentos com os recentes amigos que se apegavam rapidamente, já se abraçavam na hora de tirar fotos e entristeciam-se quando me ouviam dizer que eu ficaria 1 mês por lá. Too short Clara, too short.

Para todo o espaço, apenas 1 funcionário. O garçom simpático também era dono do estabelecimento, barman, segurança e faxineiro quando o chão estremecia com copos quebrados no chão. Curioso, ele adorava bater papo com estrangeiro e comentar o jogo de basquete na TV, que levantava os gritos da clientela do balcão.

Com o passar das horas, a fome aumentava e os amigos homens pediam para as meninas o convencerem a liberar mais hot dogs. Lá íamos nós.

– Hey sir, one more please.
– Are you drinking? 

– Not anymore, but our group has drunk a lot this night, sir.

– Where are you from?

– Brazil.

– Ok, i’ll give you more hot dogs. 

Essa foto bonita da noite na cidade, foi tirada por esse cara aqui.

Como voltar a respirar

Já me disseram para não cursar jornalismo,
que os jornalistas não ganham dinheiro e são infelizes.

Um dia, aconselharam-me a não sair de Araçatuba,
porque São Paulo é uma cidade maluca que não oferece felicidade.

Meses atrás, argumentaram que eu não deveria ir para Nova York. Sozinha então, jamais.

As melhores escolhas que fazemos, são aquelas que não têm a aprovação dos outros.

Eu não sabia que era possível voltar a respirar.
Que o ar que eu sentia todos os dias poderia ser superado por algo maior.

Nunca imaginei que, aos 24 anos, desconhecesse tantas sensações.

Eu quis ir para Nova York como se a cidade já estivesse me esperando a muito tempo. Viajar sem medo de conhecer é se apaixonar novamente pela vida. Andar o dia todo sem sentir dor nos pés, não estar cercado pelo mesmo, pelos mesmos, pela rotina repetida, pela tela do computador. Amar, comer sem culpa, falar e descobrir outra língua, outro país, pedir ajuda, errar, vibrar com os acertos, fazer amigos. Ouvir da pessoa que você acabou de conhecer, que ela quer tomar um café contigo para contar porque também decidiu estar ali, sozinha.

Conquistar algo que a gente quer muito é se esbaldar de novidade. É um chacoalho, um empurrão, uma oportunidade que te faz entender o que é mais gostoso disso tudo aqui. Desse mundão que tem dias que parece até que a gente não vê.

Uma viagem em que você só tem a si mesma para descobrir, salva a sua vida. Ela não te coloca barreira, trajetos e nada que você não queira. Fazer exatamente o que eu quero com quem eu desejo, trouxe-me uma liberdade que eu nunca havia sentido antes. Se isso for um exagero, eu prefiro seguir pelo excesso. Se isso for clichê, piegas e todo o resto que nos dizem, eu quero contrariar todo mundo.

Sempre que nos aconselharem a escolher o caminho mais fácil, o difícil será bem mais divertido.

Sentir o pulso novamente, obrigada.

*a foto acima foi tirada no Central Park, em NY/maio 2011.