Iniciativa

Um dia meus ouvidos não vão mais aguentar – ela pensou, enquanto dividia o som da música dos fones com o barulho quente do motor do ônibus.Ela queria que seus sapatos não mais encharcassem no caminho de casa. Os de camurça já tinham ido para o lixo. Chuva, água e só a troca de roupa era suficiente.

Na calçada, o platônico de sempre. Bermuda, cabelos pretos e às vezes óculos.
Desde o colégio ele a olhava. Paquerava e pedia um beijo. Na época ele namorava e ela não topou.

Desde então era a mesma coisa em todas as férias. Há seis, sete, talvez oito anos. Ela passava na calçada e ele estava lá com aquela cara de abandono. De pidão. De amor da sua vida.

Ela retribuía com os lábios cerrados para o lado direito, com suspiro de insatisfação. Perdida por ele. Tímida demais para alguma atuação. Caminhava como na novela, amando quem nunca seria seu.

Um dia, ao descer do ônibus, o viu parado de mochila no ponto. Fez o cumprimento de conveniência mas arriscou mais. Talvez tudo. Puxou papo.

– E aí, o que está fazendo da vida?
– Medicina e você?

Ela respondeu, foi simpática e até engraçada. Quando o primeiro passo acabou, disse mais. Era a sua chance de fazer alguma coisa.

– Tá namorando?
– (…) tô.

Ele nunca ficava solteiro. Bonito do jeito que era, não teria escapatória mesmo. Mas ele retribuiu.

– Eu continuo o mesmo. Gosto de você.

E ela cerrou os lábios novamente. Que nariz mais certinho. Com os óculos apoiados ficava ainda melhor. Ela gostava dele, sempre gostou. Mas com namorada não dá, baby.

– Quando ficar solteiro me procura?

Ele arregalou os olhos. Sorriu sincero. Tão santinha e diz uma coisa dessa?

– Pode deixar. Eu aviso você.

Ônibus

O Armênia 719P não sai sempre no horário. Os motoristas param o ônibus, pegam um café no bar, espantam o cachorro e desejam estar em casa.

Eu e os outros do ponto suspiramos fundo e arrastamos os pés na calçada desejando estar em casa.

O Armênia 719P não fica lotado. Eu sento sempre no mesmo local, um banco elevado que fica no fundo veículo e tem uma vista melhor para a rua.

Eu tiro o Estadão do dia que já está com o prazo de validade quase se esgotando e torço para que a Teodoro Sampaio não tenha carros, buzinas e semáforos fechados. O motorista acende todas as luzes do veículo e, às vezes, nos seus dias mais cansados, apaga as quatro lâmpadas que ficam em cima da área do volante para aproveitar o trajeto como se estivesse no meio de uma estrada, apenas iluminada por faróis que transformam-se em únicos e  poderosos.  Se ele pudesse, até fecharia os olhos só para sentir o vento que chega pela janela.

As três senhoras que entram no terceiro ponto, entregam o dinheiro para cobrador sempre do mesmo jeito. Metade do dinheiro na mão e metade perdida na bolsa. A dificuldade em encontrar as moedas soltas as fazem reclamarem baixinho da própria falta de organização.

Eu leio uma parte do jornal e começo a lembrar de uma entrevista que vi um dia na GNT em que uma moça dizia que ler em movimento pode provocar descolamente de retina. Paranóia. Tiro o ipod da bolsa e olho para quem está sentado ao meu lado. Se tiver uma feição tranquila e despreocupada, troco a música na sua frente. Se for estranho e de mochila, escondo o aparelho na bolsa e conto com o gosto da seleção automática de músicas do próprio aparelho.

O ônibus balança, as pessoas saem e a Teodoro anda. Adoro pegar ônibus sem trânsito. Ver os comerciantes fechando as portas e as botas na vitrine em eterna promoção. Observar o cobrador que, mesmo durão, amolece o rosto ao ver um passageiro conhecido. O vaivém de poucas bicicletas na rua, o cansaço da rotina estampada nos rostos da cidade e a tamanha diversidade de histórias que entram e saem dali sem dizer uma palavra.

Eu aperto o sinal da descida, seguro firme a bolsa e as folhas do jornal bagunçadas, retiro os fones dos ouvidos e desço me equilibrando em saltos muitas vezes mais altos do que eu consigo calçar. Estou em casa.