Traduzir-se

Uma parte de mim
é todo mundo
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte
estranheza e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
– que é uma questão
de vida ou morte –
será arte?

(Ferreira Gullar)

A indiferença da bandeira

Uma das imagens que eu mais gosto de ver em São Paulo é a bandeira do Brasil se debatendo em mastros espalhados pela cidade.

Melhor é ver essa cena ao sair de algum túnel de carros da cidade. A sensação é serena. Uma luz escura, que recobre o barulho de carros, dura longos segundos e nos leva a um claro e azul do céu que só se movimenta pela bandeira. Verde e independente. Cheia de si.

Ferreira Gular, o poeta, é autor do poema mais sincero que já li sobre aquilo que não podemos controlar. Ele fala de sua tristeza pela morte de Clarice Lispector e em como isso não alterou a rotina da natureza e das coisas ao seu redor.

Morte de Clarice Lispector

Enquanto te enterravam no cemitério judeu
de S. Francisco Xavier
(e o clarão de teu olhar soterrado
resistindo ainda)
o táxi corria comigo à borda da Lagoa
na direção de Botafogo
.
E as pedras e as nuvens e as árvores
no vento
mostravam alegremente
que não dependem de nós.

Engraçado pensar que a natureza não para com as  nossas desventuras e aflições. Nem as pedras, nem as árvores ou o vento, nem a bandeira repleta de autonomia e descrição. Coisas de bem ou de infortúnio acontecem em nossas vidas a todo momento. Para o resto, isso não é suficiente.