de Moraes.

Eu gosto de pessoas que são boas com as palavras.

Que colocam um significado em cada balbuciar. Que não dizem à toa.
Eu gosto de ouvir o que é bonito e até mesmo o que é feito e fica bonito na boca de quem sabe dizer.

Vinícius era bom com as palavras.
Ele dizia vontades, emoções e em seguida alternava tudo com momentos de sufoco e depressão como se nada fosse uma coisa só.

Quando eu ouço Vinícius, eu me lembro de como é bom falar exatamente o que se quer dizer.
Ser direto, sem repetições ou falsos desejos.

Ele me lembra de como é bom expressar isso que é tão meu e que pode chegar a qualquer pessoa.
E que é muito valioso para ser desperdiçado.

Vinícius me faz querer dizer e ao mesmo tempo diz por mim. Por quê falar o que não vai mudar nada?
E para quê economizar os elogios, o amor? No que é bom e pode ser dito de graça?

Para quê dizer quando o melhor é parar?
Como falar, Vinícius? Diz para mim.

O que uma vez é dito, fica ali registrado para sempre.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

(Vinícius de Moraes)

A indiferença da bandeira

Uma das imagens que eu mais gosto de ver em São Paulo é a bandeira do Brasil se debatendo em mastros espalhados pela cidade.

Melhor é ver essa cena ao sair de algum túnel de carros da cidade. A sensação é serena. Uma luz escura, que recobre o barulho de carros, dura longos segundos e nos leva a um claro e azul do céu que só se movimenta pela bandeira. Verde e independente. Cheia de si.

Ferreira Gular, o poeta, é autor do poema mais sincero que já li sobre aquilo que não podemos controlar. Ele fala de sua tristeza pela morte de Clarice Lispector e em como isso não alterou a rotina da natureza e das coisas ao seu redor.

Morte de Clarice Lispector

Enquanto te enterravam no cemitério judeu
de S. Francisco Xavier
(e o clarão de teu olhar soterrado
resistindo ainda)
o táxi corria comigo à borda da Lagoa
na direção de Botafogo
.
E as pedras e as nuvens e as árvores
no vento
mostravam alegremente
que não dependem de nós.

Engraçado pensar que a natureza não para com as  nossas desventuras e aflições. Nem as pedras, nem as árvores ou o vento, nem a bandeira repleta de autonomia e descrição. Coisas de bem ou de infortúnio acontecem em nossas vidas a todo momento. Para o resto, isso não é suficiente.