Para esquecer

Meu pai nunca falou muito da sua juventude. Não sei se ele se lembra da ditadura ou se sente saudades da época em que tocava violão com o pessoal da faculdade. Minha mãe, também não. Eu não sei se ela era a garota mais do bonita do colégio ou se tinha grandes amigas com quem pudesse contar.

Chico Buarque também não revive as histórias da época em que tocava mpb nos festivais de música da Record.

Quem o escuta dizer isso no filme “Uma noite em 67”, fica claramente frustrado, chateado, bravo com Chico. Dá vontade de sair do cinema e dizer – Pô Chico! Como é que você não revive esses momentos cheios de vivacidade que qualquer um gostaria de ter vivido?

O filme lembra das histórias por ele mas o Chico mesmo, não faz questão de lembrar.

A letra de Roda Viva sai com esforço dos seus lábios que balbuciam “a roda da saia mulata, não quer mais rodar não senhor…” e se perde com o discurso do compositor que diz não tocá-la há muitos e muitos anos.

A plateia estranha, faz cara feia, duvida.

Quem assiste ao documentário fica desejando ter vivido tudo aquilo. As letras, os protestos, a amizade entre os cantores….pura nostalgia que cativa e faz do período cinematográfico.

Mas para os próprios, isso passou e ficou por lá. Não é revivido por eles todos dias quando acordam. Eles não seriam felizes se recordassem o que viveram com lamentos, saudades e tristeza.

Minha mãe me disse uma vez que esquecer é quase fundamental.

Caetano quando questionado sobre lembranças, diz que só ter saudade da idade que tinha naqueles tempos. Nada mais.

Esquecer também faz parte da história.